segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ministério da Cultura e Petrobras apresentam:



Seminário
 TRAGÉDIA E A CENA CONTEMPORÂNEA

Nos dias 24 e 25 de setembro, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz realizará o Seminário Tragédia e a Cena Contemporânea, às 20 horas, com entrada franca, na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186 – São Geraldo, fones 30281358 e 32865720). Também no dia 24 será lançado o novo número da Cavalo Louco – Revista de Teatro da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. 

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, através do Seminário, propõe uma reflexão sobre a revivicação da tragédia grega nos dias de hoje. Nos dias 24 e 25 de setembro, os debates com os pesquisadores e professores Leonardo Munk (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), Gilson Motta (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Francisco Marshall (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Paulina Nólibos (Universidade Luterana do Brasil) levantarão questionamentos como: se do ponto de vista histórico, acontecimentos catastróficos perderam seu sentido trágico, como explicar, do ponto de vista artístico, a retomada  de textos clássicos na contemporaneidade? O que leva muitos encenadores a manifestarem interesse pela tragédia grega? De que maneira a encenação destes textos dialogam com o “problema geral do trágico”? E ainda, qual o espaço/lugar de encenação de textos trágicos no mundo contemporâneo?

O interesse pelos mitos gregos reelaborados por Esquilo, Sófocles e Eurípedes foi retomado principalmente a partir dos anos de 1960, sendo encenados com perspectivas políticas radicais e com uma busca maior de experimentalismo do ponto de vista estilístico. No final do século XX e início do XXI as tragédias gregas e as suas adaptações foram recuperadas com o propósito de discutir problemas políticos como questões de gênero, catástrofes ambientais, guerras civis, holocausto, tensões entre o Oriente e o Ocidente, etc. A redescoberta foi estimulada também devido ao encontro do Ocidente com outras propostas teatrais que colocam em questão as recepções entre cena e sala, ator e espectador.

Palestrantes:

Leonardo Munk é Doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com doutorado sanduíche na Freie Universität Berlin (Universidade Livre de Berlim). Atualmente é Professor Adjunto 2 da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), onde atua no Departamento de Teoria do Teatro, na Escola de Letras e no Programa de Mestrado em Artes Cênicas, dedicando-se ao estudo das relações entre teatro e artes visuais, com ênfase nos tópicos mito, memória e violência. 
Gilson Motta é pesquisador de Artes cênicas, Cenógrafo, Performer. Professor do Departamento de Artes Utilitárias da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atua nas áreas de história da encenação e teatro de formas animadas.   Autor de diversos artigos sobre artes cênicas e do livro O Espaço da Tragédia, lançado pela Editora Perspectiva em 2011. Como artista, nos últimos anos, vem atuando como performer junto ao Coletivo de Performance Heróis do Cotidiano. 
Francisco Marshall é historiador e arqueólogo, professor do IFCH e do IA da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fundador do StudioClio – Instituto de Arte e Humanismo, autor de Édipo Tirano, A Tragédia do Saber (Editora da UFRGS e Ed.UnB, Porto Alegre e Brasília, 2000 – Prêmio Açorianos 2001) e de numerosas conferências, artigos, capítulos e orientações de tese sobre Tragédia Grega.
Paulina Nólibos é filósofa, pesquisadora, com doutorado em Tragédia Grega na UFRGS, e professora de História da ULBRA. Participou como assessora teórica de vários espetáculos da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, e foi uma das criadoras da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo. Participou da organização e coordenação dos projetos “A Olho Nu” (1993/94), “Mora na Filosofia” (1996), “Mito e Tragédia” (1999) e “Tragédia e Sociedade” (2003).


CAVALO LOUCO – REVISTA DE TEATRO DA TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ

Na primeira noite do Seminário Tragédia e a Cena Contemporânea será lançada a edição número 13 da Cavalo Louco – Revista de Teatro da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, publicada pelo grupo desde 2006. A Cavalo Louco é uma revista semestral que traz reflexões sobre o fazer teatral e os espaços de criação, e tem distribuição gratuita em todo país.

Esse número traz artigos dos colaboradores Sebastião Milaré (“Dias Gomes” na seção Dramaturgia Brasileira), Valmir Santos (“A Cena Realista e Mágica de Giorgio Strehler”), Carla Melo (“Elegia e Alegoria – Caminhos Mnemônicos no Teatro do Ói Nóis Aqui Traveiz”), Michele Rolim (“Arte da Performance: do mundo ao Rio Grande do Sul”), Newton Pinto da Silva (“Antares Revisitada: O Ciclo da História” na seção da Crítica), entre outros, além de uma entrevista com o ator Rogério Lauda, falecido no início desse ano.
A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz tem o patrocínio de manutenção da Petrobras.

Seminário 
TRAGÉDIA E CENA CONTEMPORÂNEA
RITUAL, MEMÓRIA E EXPERIMENTAÇÃO

Índios americanos, no final do século XIX, para lutar contra os conquistadores que ameaçavam dizimá-los, criaram a partir de um sonho de um deles um movimento político, que se pautava pela dança ritual. Chamaram esta dança de ‘ghost-dance’ , ‘dança-fantasma’, e diziam que ela possuía uma tripla função, a de ‘survive-revive-conquer’, ‘sobreviver- reviver-conquistar’. Através dela evocavam os espíritos de seus ancestrais, ouviam, repetiam e dançavam seus ensinamentos relembrados, suas palavras, ganhavam força de grupo e reforçavam a identidade originária em risco.
De certa maneira, e por analogia, o teatro do Ói Nóis se propõe experimentar este tipo de imersão na voracidade da História e não permitir o esquecimento, responder, dando voz aos silenciados, aos mortos, aos esquecidos, às questões que tem sido deixadas pendentes, mesmo nas melhores discussões sobre bioética, estética, ou mesmo religião. E a tríade ‘sobreviver-reviver-conquistar’ deixamos à poética do espaço e da imaginação. A arte, mais ainda que a religião, tem em nossos tempos a responsabilidade de evocar os espíritos ancestrais e dar-lhes voz, muitas vezes revendo radicalmente os valores da História, como no século V em Atenas com a tragédia, que passava rapidamente de ritual sagrado a representação artística. 
A persistência da pesquisa e do aprendizado acerca do tema do ‘Teatro Ritual’ e sua vinculação com a tragédia, fenômeno grego por excelência, se justifica na medida em que o grupo tem um percurso de investigação experimental coordenando o projeto “Raízes do Teatro”. Este projeto pioneiro apresentou seu primeiro resultado em 1990, com a representação de “Antígona Ritos de Paixão e Morte”. Desde então o grupo já ministrou e praticou workshops, oficinas livres, montagens de exercícios cênicos, performances e instalações cênicas em inúmeros locais e atendendo um variado público, desde faixa etária, dos 15 anos de idade em diante, quanto poder aquisitivo, ou escolaridade. Esta discussão vem sendo feita e refeita de formas criativas e inovadoras, tanto visualmente quanto em seu poder semiótico. Pela metáfora, questões emergentes retornam nos corpos míticos.
O solo da tragédia se move, os acontecimentos são resignificados, nossos receptores, seus ouvidos e olhos são outros, e as coisas estão indo muito mal, o que faz com que um teatro que busca os fundamentos da representação, alicerçada no conflito, nos temas trágicos, tenha muito material para trabalhar.
O Seminário “Tragédia e Cena Contemporânea” vêm convidar à reflexão. Palestrantes cujos objetos de estudo, pesquisa e docência orbitam entre os temas de arte, representação, mito, teatro alemão contemporâneo, gregos, tragédia, questões de gênero, violência e política, se propõem a dialogar sobre o fenômeno que se apresenta: a força da tragédia na dramaturgia e cena atuais.
Embora a cena contemporânea seja uma mistura muitas vezes indecifrável de gêneros, o cuidado na escolha e pesquisa tem criado obras de profundo efeito a partir de temas trágicos ou de textos de Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Também os textos literários, as releituras das tragédias antigas, têm operado alterações de sentido das personagens e dos acontecimentos, e criado modificações radicais, na escrita e na encenação.
Como partes deste processo de pesquisa do projeto Raízes do Teatro, cada uma das encenações de tragédias e a realização de seminários periódicos procuram articular algumas questões que permeiam o teatro contemporâneo e a pós-modernidade. Com essa discussão aberta, se oferece a oportunidade de vivenciar o processo de constituição da teoria mesma que embasa o trabalho do grupo e de tantas outras experiências atuais radicais sobre tragédia. 

MEDEIA VOZES

 A abordagem do mito, em Medeia Vozes é original e inovadora pelo fato de Medeia não cometer nenhum dos crimes de que Eurípides a acusa. Medeia, a mítica princesa da Cólquida, habita lendas que antecedem aos primórdios da civilização grega e que a apresentam como uma mulher poderosa e benfazeja, possuidora dos dons da cura, conhecedora das propriedades curativas das plantas, mas também uma curandeira da alma, uma exorcista da memória recalcada. Medeia é uma mulher que está na fronteira entre dois sistemas de valor, corporizados respectivamente pela sua terra natal, e pela terra para a qual foge.  Ambas as sociedades, Corinto e Cólquida, apresentam na sua história um sacrifício humano fundamental, que serviu para a estabilização do poder patriarcal. Embora muitos dos pontos da trama permaneçam os mesmos – a jornada de Jasão para Cólquida para reivindicar o velocino de ouro, a sua volta a Grécia com Medeia, e a morte do irmão Apsirto – as circunstâncias são outras. A traição de Medeia ao seu pai, Eetes, e a fuga com Jasão tem menos a ver com paixão, e sim com o conhecimento que Apsirto morreu pelas mãos de Eetes, vítima da concorrência dinástica. Em Corinto Medeia descobre o “segredo sujo” do Rei: para preservar o poder, Creonte sacrificou uma de suas próprias filhas e escondeu o assassinato de seus súditos. Através de diferentes vozes os principais personagens examinam seus motivos e suas opções no desenvolvimento do jogo de poder entre Creonte e Medeia. Através de uma emocionante e complexa trama política, Medeia Vozes mostra o amor e a determinação de uma mulher para preservar sua independência, mesmo quando o seu conhecimento colocá-la cada vez mais em risco.  Medeia é uma mulher que enxerga seu tempo e sua sociedade como são. As forças que estão no poder manifestam-se contra ela, chegando mesmo à perseguição e banimento. Medeia é um bode expiatório numa sociedade de vítimas, uma figura de identificação com o sofrimento e a exclusão da mulher. A Medeia pacifista do Ói Nóis Aqui Traveiz demonstra a inutilidade de todo processo bélico. Junto a voz de Medeia somam-se as vozes de mulheres contemporâneas como as revolucionárias alemãs Rosa Luxemburgo e Ulrike Meinhof, a somali Waris Diriiye, a indiana Phoolan Devi e a boliviana Domitila Chungara, que enfrentaram de diferentes maneiras a sociedade patriarcal em várias partes do mundo. A encenação trabalha com a descontinuidade narrativa, a simultaneidade, o tempo esgarçado e a justaposição das cenas.

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