sexta-feira, 22 de julho de 2016

MEDEIA VOZES - O TEATRO RITUAL DA TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ

A história de Medeia, filha do rei da Cólquida, faz parte da lenda dos Argonautas. Medeia, versada em feitiçaria, apaixona-se por Jasão, o líder dos Argonautas, e o ajuda a obter o velo de ouro contra a vontade do rei. Na fuga, ela mata o irmão Apsirto e joga o cadáver no mar para afastar os perseguidores. Os fugitivos ganham asilo em Corinto, onde Jasão se separa de Medeia para casar com Glauce, filha do rei de Corinto. Medeia executa sua vingança matando Glauce e seu pai, assim como seus próprios filhos. Eis a imagem que paira no imaginário ocidental, difundida especialmente pela tragédia de Eurípedes. Mas não é essa a personagem que encontramos em Medeia Vozes. Na encenação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz o mito de Medeia é reinventado. Medeia livra-se da imagem de infanticida e aparece representada em outros termos: trata-se da mulher que ousou desafiar a política estabelecida, que é punida por seu senso de independência e liberdade, banida da cidade por saber de crimes que não devem ser revelados. A base para a criação de Medeia Vozes é o romance homônimo da alemã Christa Wolf (1929-2011). A partir do próprio nome Medeia que significa “aquela que dá bons conselhos” Christa Wolf se questionou: “Eu não podia acreditar nisso. Uma curandeira – isso ela deve ter sido nos estratos mais antigos do mito, que decorrem de tempos em que as crianças eram a propriedade mais valiosa de uma tribo e quando as mães eram altamente estimadas precisamente porque garantiam a continuidade da tribo – deveria matar os próprios filhos?” Em suas investigações a escritora bebeu em outros estudiosos – da arqueologia, mitologia e sociologia. Retornou às bases do matriarcado primitivo e da fundação das sociedades. Rejeitando a efabulação de Eurípedes e a imagem de mãe infanticida, Wolf tomou uma versão antiga e desconhecida do mito para afirmar Medeia como uma mulher vítima dos valores e das necessidades do patriarcado. A autora apresenta Medeia como uma mulher que está na fronteira entre dois sistemas de valor, corporizados respectivamente pela sua terra natal, a Cólquida, e pela terra para a qual foge, Corinto. Ambas as sociedades apresentam na sua história um sacrifício humano fundamental, que serviu para a estabilização do poder patriarcal. Através das diferentes vozes, os principais personagens examinam seus motivos e suas opções no desenvolvimento do jogo de poder entre Acamante, conselheiro do Rei de Corinto, e Medeia. Através de uma emocionante e complexa trama política, Medeia Vozes mostra o amor e a determinação de uma mulher para preservar sua independência, mesmo quando seu conhecimento a coloca cada vez mais em risco. Medeia é abandonada pelo marido e as forças que estão no poder manifestam-se contra ela, chegando mesmo à perseguição e ao banimento.

A encenação do Ói Nóis Aqui Traveiz mantém certa independência entre as vozes, permitindo que apareçam no processo criativo propostas estéticas distintas que colaborem com a visão, o ponto de vista de cada personagem título da voz. Medeia aparece em cada uma das vozes vista por um filtro, o que possibilita a construção de distintas concepções para a personagem aplicada a cada voz. Com isso o Ói Nóis Aqui Traveiz experimenta a identificação com vários grupos étnicos. O grupo de colcos que deixa a Cólquida com Medeia surge na obra como os expatriados, refugiados. Eles são identificados com grupos e minorias da história contemporânea que foram obrigados a deixar a sua terra/pátria como única forma de sobrevivência, dando ao espetáculo uma característica polifônica e multicultural. Isso mantém o choque cultural sempre presente em toda a obra, reforçando o discurso da alteridade e mostrando a intolerância a ele nas culturas ditas civilizadas e hegemônicas. O Ói Nóis também dá voz a “Medeias Contemporâneas”, mulheres reais de ação que deixaram relatos de violência e intolerância: como as ativistas políticas alemãs Rosa Luxemburgo e Ulrike Meinhoff, a líder grevista boliviana Domitila Chungara, a indiana Phoolan Devi, casada aos 11 anos, diversas vezes violentada e espancada, que conseguiu ser eleita para o parlamento do seu país, e a modelo somali Waris Dirie, que denunciou a mutilação genital e tornou-se embaixadora da ONU. Na encenação as vozes dos diversos personagens implicados na história proporcionam uma rica variedade de pontos de vista, referências pessoais e culturais que facilitam uma visão mais global e objetiva da situação. Graças à multiplicidade de pontos de vista, o espectador poderá seguir os interesses reais que se escondem atrás de todos os comportamentos. A configuração das diferentes vozes acaba demonstrando a inocência de Medeia e com isso, o patológico desenvolvimento das relações sociais na civilização ocidental. Medeia é uma marginalizada, porque não corresponde à imagem feminina que a sociedade masculina considera apropriada. 

Medeia Vozes se insere num dos principais eixos do trabalho de criação cênica do Ói Nóis Aqui Traveiz: projeto Raízes do Teatro, que estuda as origens ritualísticas do teatro. A principal característica dessa investigação é o tratamento especial dado aos mitos. A releitura de diferentes versões dos mitos é aliada a uma pesquisa cênica para atualizá-los. Herdeiros da busca artaudiana de construir um teatro que recupere a sua identidade como cena concreta – onde sejam abolidos os obstáculos entre o vivido e o representado, e atores e espectadores comunguem de um ritual embasado no ideal de liberdade – o Ói Nóis escolheu como motor da sua pesquisa alguns dos mais conhecidos mitos da nossa cultura – Antígona, Fausto, Kassandra e, agora, Medeia. As diversas premiações de Medeia Vozes reafirmam a importância estética e política do Teatro Ritual da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz.

Paulo Flores

Texto publicado no Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, em 16/07/2016.



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