quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A “imaginação criadora” é uma das condições para abrir perspectivas, esperanças de oxigenação para o futuro!


O atuador Paulo Flores vivencia Meyerhold na próxima montagem da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz.

MEYERHOLD

“No centro de tão fortes tensões políticas e estéticas, o homem
Meyerhold foi transfigurado, tornando - se uma figura legendária,
ilustrando a vitória póstuma do artista sobre o poder que 
o condenou a morte ignominiosa.” (Gérard Abensour)

 Vsevolod Emilevich Meyerhold (1874-1940)

            Meyerhold, a nova encenação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, é uma adaptação livre da peça “Variaciones Meyerhold”(2005) do dramaturgo, ator e psicanalista argentino Eduardo Pavlovsky. Ao completar o seu quadragésimo ano de trajetória, a Tribo homenageia dois Mestres da cena contemporânea e do teatro latinoamericano: Meyerhold e Pavlovsky. No centro da encenação, a figura de Meyerhold, célebre ator, diretor e teórico russo, cujo discurso inovador e revolucionário o transformou em personalidade de relevância no panorama teatral do início do século XX. Grande questionador das formas acadêmicas da criação teatral, a postura de Meyerhold confronta com as ideias de seu contemporâneo Stanislavski, com quem manteve uma relação ao mesmo tempo estreita e distante. A encenação reúne aspectos do discurso artístico do pensador russo e os relaciona com momentos dramáticos de sua trajetória pessoal, sujeito ao cárcere, tortura e humilhações até o seu brutal assassinato pelas autoridades da Rússia Stalinista.
                Vsevolod Emilevich Meyerhold (1874-1940) é, sem dúvida um dos nomes-chave da encenação e da teoria teatral de todos os tempos. Ligado num primeiro momento ao Teatro de Arte de Moscou, dirigido por outro grande do teatro russo: Stanislavski. Abandonou cedo a via naturalista para indagar em sua própria concepção dramática – que denominou “teatro da convenção consciente” (1913) – e seus trabalxhos experimentais lhe permitiram desenvolver a teoria da biomecânica (1922), um rigoroso método de preparação do ator que tenta explorar ao máximo suas possibilidades físicas e psíquicas. Meyerhold elaborou também uma dramaturgia revolucionária e instaurou os princípios do moderno conceito de montagem. Demorou um tempo para compreender a revolução, mas quando o fez seu ardor e seu entusiasmo foram enormes e ingressou no Partido Comunista – chegando a ser uma figura proeminente como militante cultural durante a revolução. A peça “Variaciones Meyerhold” tenta captar a forma em que este extraordinário homem de teatro nos “afeta” hoje. O que mais nos envolve. O que mais nos comove. A luta ardorosa de certos princípios de seu teatro que soube defender até o final e que expôs no Primeiro Congresso de Diretores (1939), onde foi extensamente criticado por não se adaptar ao realismo socialista – a estética que predominava durante o stalinismo. Nesse Congresso – sua última aparição pública – Meyerhold defendeu com veemência o direito à liberdade de expressão e de     pesquisa como armas revolucionárias. Disse ademais nessa ocasião que a imaginação era revolucionária e que a verdade e a liberdade eram as armas revolucionárias por excelência. Fez uma crítica duríssima ao realismo socialista como estética teatral, qualificou-a em seu inflamado discurso de medíocre e de carente de talento. Acusou seus críticos e adversários de “ter cometido o crime de afogar a imaginação do melhor teatro russo – o melhor teatro do mundo – transformado hoje em um teatro extremamente tedioso e carente de imaginação”. Pouco tempo depois, em junho de 1939, Meyerhold foi detido. Dias depois, sua mulher Zinaida Raikh – coreógrafa, desenhista e atriz – foi encontrada degolada em seu apartamento de Moscou. Meyerhold foi brutalmente torturado aos 67 anos de idade na prisão, ficando surdo e semicego. Inventaram para ele acusações de conspiração contra o poder soviético – pertencer a organizações trotskistas e ser agente de potências estrangeiras – e foi obrigado a confirmar estas acusações a partir de humilhações e tortura. Quando, mais tarde, Meyerhold pôde ler as declarações contra si assinadas por ele, desmentiu-as todas – obtidas à força de pressão física e moral em interrogatórios que duravam até 20 horas por dia – e solicitou uma entrevista com o juiz, que nunca foi concedida. Escreve uma carta a Molotov explicando-lhe sua situação – nunca respondida. Meyerhold foi fuzilado em fevereiro de 1940. Foi um crime cultural. Seu nome foi apagado dos manuais de história e publicações até 26 de novembro de 1955 quando foi reabilitado. Em 1968, seus textos foram publicados em russo e em 1990 – no 50º aniversário de sua morte – lhe foi prestada uma singela homenagem no Yermolava Theatre. Até o descobrimento de sua tumba em 1991 – no Don Monestery de Moscou – estava enterrado como indigente. Por tudo isso nos lembramos dele: como um dos homens mais importantes do teatro e por seu brutal assassinato e o de sua mulher, durante o stalinismo. 

Eduardo “Tato” Pavlovsky (1933-2015) ator, autor, médico, psicodramista  argentino é um dos principais nomes do teatro latinoamericano e mundial. Começo a escrever para teatro no início dos anos 1960. Desde então criou várias peças como “Senhor Galíndez”, “Telerañas”, “Potestad”, “Passo de dos”, “Rojos Globos Rojos”, “Poroto” e “La Muerte de Marguerite Duras”. Criador do Movimento Psicodramático na América Latina. Em 2004, recebeu o prêmio Dionísio de Honra durante o III Festival de Teatro Latino de Los Angeles, pela importância de sua obra em toda América Latina. A sua obra percorre diferentes fases: teatro político metafórico, estética da multiplicidade, micropolítica da resistência. Trata-se de um teatro de balbucios e não de verdades absolutas. Escrever teatro, para Pavlovsky, não é fazer denúncias, propor ideias, mas afirmar sempre a necessidade de resistir e de alimentar ideais. Gestos que se fazem a partir de perdas e derrotas vividas e não de grandes discursos. A função da resistência é produzir subjetividades diferentes das habitualmente impostas, instaurando novos territórios de vida e alegria, inovando afetos e solidariedades. O teatro de Pavlovsky é a reiteração poética de que devemos mais do que nunca ser utópicos. E a “imaginação criadora” é uma das condições para abrir perspectivas, esperanças de oxigenação para o futuro. “Não há nada mais terrível para o ser humano do que perder a capacidade de sonhar com seus projetos existenciais.” O teatro é o espaço do humano em cena. É um ato de presença a partir do qual pessoas, audácias, invenções, imaginações, riscos e insubordinações podem se entrelaçar para escapar da homogeneização e proclamar que o “teatro não está em crise, ele é do contra”.


“Tato” Pavlovsky (1933-2015)




quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Um Teatro com Pedras nas Veias

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

Na última quinta feira compartilhamos críticas publicadas em jornais da época, sobre o surgimento do Ói Nóis no final da década de 70. Nesta semana para encerrar o ciclo das primeiras críticas, postamos aqui “Propósitos Devastadores”, por Claudio Heemann. 

"Há vinte anos, Porto Alegre não produzia um espetáculo com propósitos tão devastadores."



Claudio Heemann

Não se sabe bem se "Ói Nóis Aqui Traveiz" é o nome da nova casa de espetáculos da Rua Ramiro Barcelos (situada "onde a Cristóvão Colombo põe o ovo em pé", segundo a divulgação do grupo que a está lançando), se é o próprio nome da companhia que faz o espetáculo inicial, ou se é uma promessa de perseverança no terreno escorregadio do Teatro Contestatório de Vanguarda. "Um teatro com pedras nas veias" se anuncia o "Ói Nóis Aqui Traveiz". Realmente, na casa que escolheram entre a Cristóvão e a Farrapos, há muitas pedras nas paredes, um teto sem forro. com vigas e telhas a mostra, bancos de madeira tosca para o público sentar (a capacidade da casa é reduzida, precisa-se chegar cedo) – e no centro do recinto, cercada por arame farpado, a área onde os atores evoluem. Sob a direção de Paulo Flores, que também interpreta um dos papeis na segunda das duas peças que compõem o espetáculo, sáo interpretados dois textos curtos de Zanotta Vieira, o dramaturgo em residência do "Ói Nóis".
Na realidade, estes textos são pretextos para o anarquismo desenfreado da encenação que pretende, a exemplo de certos trabalho de José Celso Martinez Correa, a liberação de forças anárquicas e caóticas, destruidoras de convenções e estratificações. Na busca de uma linguagem teatral crua, debochada, violenta, livre, grotesca, que vai do grand-guignol ao protesto, do surrealismo a contestação. Os atores se atiram a seus papeis (sem alusão a certos aspectos cenográficos do espetáculo, são feitos de monturos de jornais rasgados) com grunhidos, contorções, epilepsias e um rude humor absurdo, numa pesada celebração de anarquia. A destruição é generalizada, até mesmo os textos utilizados sossobram, sem no entanto deixar de nos fazer sentir que há em tudo uma crítica sistemática às instituições, ao mundo organizado e a sociedade burguesa. A agressão chega até as roupas dos espectadores que recebem banhos de leite ou nacos de carne crua tirados aparentemente das entranhas de um personagem, que é operado em cena por possíveis médicos-carrascos – mercenários – loucos levemente medievais … Corno espetáculo contestatório de vanguarda, com seus nus agressivos, cantorias insultuosas, ironias e sarcasmos, marcações alucinadas e o doido desenho da ação é um verdadeiro "happening". O ritmo pausado e os absurdos das atitudes buscam uma denúncia global de um mundo em decomposição, bárbaro, cômico, cruel e paranóico. E o espetáculo tem força e convicção, com uma atmosfera densa e coerente, criada com a coragem e a invenção que estamos acostumados a ver nos teatros experimentais de Londres, Greenwich Village ou Paris. A primeira chama-se "A Divina Proporção" e a sociedade de consumo é o alvo mais óbvio. Mas é na segunda peça do espetáculo, "A Felicidade Não Esperneia, Patati, Patatá", que as forças irracionais se soltam com mais ímpeto, nos levando em tom delirante a um universo próximo de Genet, Arrabal e Artaud. Há vinte anos, Porto Alegre não produzia um espetáculo com propósitos tão devastadores.
Resta esperar que o "Ói Nóis Aqui Traveiz" não caia no beco sem saída do ritual bárbaro que por tudo destruir fica sem ouvintes e sem ter para onde ir, não conseguindo depois encontrar ferramentas para construir um mundo novo, que sem dúvida deve estar escondido no fundo de sua fúria iconoclasta.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Críticas sobre os primeiros passos da Tribo, 39 anos depois!

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

Nesta quinta feira compartilhamos mais duas críticas sobre as experimentações do Ói Nóis Aqui Traveiz no final da década de 70. Através das impressões de dois jornalistas podemos ter uma noção de como foi o surgimento do grupo e de como a cidade recebeu o seus primeiros rastros de ousadia e ruptura!


Correio do Povo, sexta-feira, 7 de abril de 1978

"Duas Peças de Julio Vieira"


O teatro tem lugar em qualquer parte. Já o vimos em garagem, porão, apartamento, igreja, palacete, boate e isso de Paris e Rio a Buenos Aires.
Após o Aldeia II da Rua Santo Antônio e de algo na Independência e de Encontro à Rua da República, é a vez de "Ói Nóis Aqui Traveiz", em exíguo local que foi boate à Rua Ramiro Barcelos, próximo à Rua Cristóvão Colombo.
Se o Café - Teatro tem tanta voga em Buenos Aires, aqui temos outra variante mais modesta e despojada da era da contracultura, do antiteatro e da contestação, cujos padrões se entrecruzam no teatro internacional e que nos têm vindo ao Brasil, seja dos EUA, seja da Argentina.
Entre nós, Luiz Artur Nunes, quando veio de Nancy, animou um labor de vanguarda numa das salas do Edifício da Reitoria da UFRGS em forma então insólita, que, após, muito se difundiu em Porto Alegre não esquecendo tudo quanto o Teatro de Arena do Viaduto já propôs através de uma década de vivências teatrais, além do DAD e de outros centros e apresentações no Clube dos Flautistas, no Auditório do Palácio Farroupilha e mais ainda.
Em fins de 77, tivemos, num recanto do teatro do IAB, NÃO ME VIU, SE ME VIU…, concebido por Rafael Baião e dirigido por Sílvia Veluza e agora temos em foco duas peças de Júlio Vieira sob a direção de Paulo Flores.
Em ambiente intencionalmente despojado, tosco e para pouca gente, tivemos a proposta da "Divina Proporção" e "A Felicidade não Esperneia: Patati, Patatá".
Em espaço retangular, com bancos para a assistência e área cercada de arame farpado e com o lixo de jornais velhos, o elenco emerge da papelada.
O grupo conta com Júlio e Paulo na orientação e atuam Rafael Baião, Sílvia Veluza, Jucema Gonçalves, Beatriz Tedesco, José Paulo Nunes, Alfredo Guedes, Rosenda Baião e outros
colaboradores da produção.
Há atuações do alto do telhado, de gaita, jogo de luz e a peça, de crítica à arquitetura-negócio dura cinqüenta minutos e a crítica à medicina-operatória noutro tanto é dedicada às vítimas da repressão…

É contrateatro à maneira de John Gay com a Ópera dos Mendigos. É teatro-lixo, sendo que a peça sobre a medicina começa com nudismo total, envolto em câmara de material plástico.
Estamos no mundo atual sob o signo da contestação total que vai da Religião à Filosofia, da Política e Sociedade às Ciências e Artes, tudo sob a égide da Liberdade que se desenfreia através da Licenciosidade e atinge as raias da libertinagem no Cinema, Teatro até a literatura sem máscara.
Aqui temos dois veementes e satíricos trabalho de crítica social pertinente e por jovens distorcidos, sendo que Júlio Vieira morou quatro anós e fez teatro no Peru e em 77 foi responsável pelo efêmero Qorpo Insano, no Clube de Cultura, sendo autor de inédito livro de contos.
É um movimento grupal independente em sua trilha fora dos moldes tradicionais e do auxíllo oficial. '

ALDO OBINO

"É esperar o Ói Nóis crescer


O grupo Ói Nóis Aqui Traveiz precisou criar uma nova casa de espetáculos em Porto Alegre (na Ramiro Barcelos, 485) para poder fazer teatro fora dos esquemas convencionais. Duas peças de Júlio Zanotta Vieira foram escolhidas para estréia: A Divina Proporção e A Felicidade não Esperneia, Patati, Patatá. A tentativa é a de fazer um teatro de vanguarda, considerando-se como tal o segunda metade do sec. XVIII, que um espectador medio entenderia como um rompimento com o teatro tradicional.
Era esse o teatro que se fazia no Brasil ao final dos atribulados anos 60, quando foram montados espetaculos revolucionários como O Rei da Vela. Na Selva das Cidades, Cemiterio de Automoveis e Roda Viva. Foi também a época em que, através da utilização de recursos como palavrões, rupturas de noções tradicionais de espaço cênico, agressões, participação da plateia e nudismo, se criaram fórmulas para o vanguardismo.
Em grande número de encenações, a partir daí, foram confundidos expressão corporal e malabarismo, nudismo e apelação, simplicidade e indigência inteleclual. Chocar o público tornou-se o principal objetivo das montagens vanguardistas quando esse deveria ser um efeito secundário e natural que uma nova linguagem provoca.
Na verdade, a vanguarda tem validade não por produzir impacto, mas sim quando se torna causa de uma transformação do homem e sua visão do mundo. Nesse sentido, a primeira grande vanguarda, provavelmente foi a do Romantismo da que rompeu com os cânones "eternos" do classissismo. Ao virarem as costas às regras clássicas, os românticos certamente chocaram os "quadrados" de então, porém sua função primordial consistia na expressão estética de um novo sentimento de vida e de uma nova visao do homem e do universo. As proposições do Romantismo foram mais tarde retomadas pelo Simbolismo a partir do qual se manifestaram as vanguardas mais recentes.
O teatro do grupo Ói Nóis retoma as posições negativistas do final da década de 60. As peças de Júlio Zanotta Vieira tem como assunto a especulação mobiliaria (nas primeiras) e a exIploração da medicina (na segunda), temas que não abordados com alusões a situações mais amplas, para englobar todo o sistema e fazê-lo o alvo de uma critica contestatória.
Os textos, porém, ficam reduzidos quase a um roteiro, pois dão ao diretor, Paulo Flores, amplas possibilidades de criação, além de permitirem improvisações dos atores. As personagens são simbólicas – por exemplo, uma super mulher representa a imobiliária – e se movem num clima igualmente simbólico. Para recriá-lo em cena, o diretor não hesitou em utilizar-se das fórmulas ja citadas.
Na montagem, entretanto, encontram-se algumas ideias interessantes como a de fazer os atores emergirem do lixo, numa imagem que nos remete a toda a sociedade de consumo. Entre os interpretes, se destaca o trabalho de Sílvia Veluza, que desempenha com muita garra seus papéis.
O resultado global é o de um espetáculo bastante ingênuo – apesar das boas intenções dos textos – o que talvez seja conseqüência da proposta simplista de não fazer um teatro bem comportado. O grupo possivelmente foi levado por isso a cometer alguns equivocos que deixam na plateia a impressäo de ter presenciado uma travessura infantil.
Naturalmente, o não pode ser considerado um firme primeiro passo. Uma vez conquistado, o caos deverá tornar-se o ponto de partida para um trabalho criativo com possibilidade de gerar espetáculos mais amadurecidos. Por enquanto, resta-nos esperar para ver como o Ói Nóis vai crescer. Ousadia e amor ao teatro não faltam ao grupo. 

MARIA LUISA PAIM TEIXEIRA

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O surgimento de um espetáculo de vanguarda em Porto Alegre!

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

Nesta quinta feira (7.12) compartilhamos uma crítica de Décio Presser (Jornal Folha da Tarde - Panorama) sobre as primeiras encenações do Grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, datada de abril de 1978.

“A Divina Proporção” e “A Felicidade não Esperneia”


O público acostumado às montagens digestivas e tradicionais, certamente ficará chocado com as proposições do grupo “Ói Nóis Aqui Traveiz”, no espetáculo que reúne duas peças curtas do autor gaúcho Júlio Zanotta Vieira. Sem sombra de dúvida, trata-se de um espetáculo de vanguarda, como poucas vezes se viu em Porto Alegre. Os textos praticamente foram sufocados pela parafernália de efeitos, onde a proposta é o anarquismo total. Isto seria plenamente aceitável, se não houvesse uma agressão gratuita ao público, que se persistir acabará por afastá-lo desta experiência inédita entre nós.
Na primeira peça, “Divina Proporção”, quatro personagens surgem do lixo que compõe o espaço cênico, se desgastando no “boom” imobiliário, numa crítica cuja superficialidade é compensada pela criatividade da encenação. O mesmo acontece em maior escala com “A Felicidade não Esperneia, Patati, Patatá”, onde o autor através de uma linguagem alegórica faz uma irônica parábola sobre a “instituição médica”. Tudo isso acontece com atores, utilizando vozes distorcidas, retirando os acessórios do lixo, numa mistura de “gran quignol”, que o público acompanha estupefato e às vezes reticente, separado apenas por uma cerca de arame farpado que isola o espaço cênico.
Não fossem as agressões, tentando impedir o público de ter suas próprias reações, o espetáculo seria um exercício fascinante de criatividade, comparável ao teatro de vanguarda feito nos grandes centros. A loucura é tão grande e desenfreada que certas pessoas retiraram-se antes do término. Mas as intenções do grupo estão bem definidas, num manifesto que é lido durante o intervalo, pedindo a retirada de “todos os países imperialistas estrangeiros dentro de 24 horas, através de suas multinacionais, etc”. Enfim, um espetáculo divertido para quem for preparado para curtir as mais diversas reações dos espectadores.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

SELECIONADOS PARA OFICINA DE TEATRO RITUAL


1. Arthur Loureiro Pereira de Souza
2. Claudia Severo
3.Jonathan Oliveira Ferreira
4. Liana Alice
5. Lucas Gheller Rocha
6. Maíris Fernandes de Souza
7. Marcio Leandro de Lima Vicente
8. Mariana Maciel Stedele
9. Rafael Torres Fernandes
10. Raphael Costa Santos
11. Raquel Amsberg de Almeida
12. Rochelle Luiza da Silveira
13. Rogério Bertoldo Trindade Silva
14. Suelem Lopes de Freitas
15. Tiana Godinho de Azevedo

O primeiro encontro da Oficina de Teatro Ritual será no dia 5 de dezembro de 2017 (próxima terça-feira), às 9 horas na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186).
OBS: Levar roupa confortável para trabalho físico.


"Como uma bofetada"

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

Dando segmento à nossa retrospectiva de críticas, textos e artigos que rememoram a trajetória de 40 anos da Tribo, nesta quinta feira compartilhamos um texto publicado no jornal Zero Hora, datado de novembro de 1997, há exatos 20 anos. 

"Como uma bofetada"
Jornal Zero Hora em 23 de novembro de 1997
Iria Pedrazzi

Primeiro vinham os grunhidos, depois aqueles corpos se contorcendo emergiam em meio à sujeira sintética espalhada pelo palco. Coberto com panos que compunham roupas maltrapilhas, os atores ousavam deixar à mostra, vez por outra, seu órgão sexual totalmente desinibido. A platéia toma um susto. Enche o peito. Ergue a cabeça. Coloca os sentidos em alerta e prepara-se para o ato. Reage como se estivesse prestes a ser estuprada em sua virgindade. Então vêm as palavras. O texto rude, contestatório, duro contra os valores burgueses, surge em vozes distorcidas. Vem em ritmo tão anárquico que tem o efeito de uma bofetada. De qualquer forma, a audácia da proposta deixa pouco tempo para refletir sobre o discurso verbal. A agressividade da forma dá uma força visceral ao texto. Paralisa o raciocínio lógico da platéia e obriga o instinto a reagir. O clímax ainda nem chegou e algumas pessoas indignadas deixam o teatro. A maioria fica, mas não sem esboçar reações. É um ensaio geral de movimentos. O público se remexe nas cadeiras do teatro, muitas faces exibem um ar de reprovação. Ós! Ecoam surdos como gemidos trancados. O ritual prossegue tenso. Olhares estarrecidos, temerosos, na platéia se misturam aos que, cheios de brilho, aplaudem ou até se deliciam com tudo aquilo. Esses, raros, é bem verdade. Políticos engravatados e intelectuais gaúchos misturam-se a protótipos do movimento hippie, com suas batas indianas combinadas com fitas nos cabelos. Há ainda na platéia uma legião de estudantes politizados, estudiosos de Marx e de Engels, acostumada a correr da polícia em passeatas no centro da cidade. Estarrecidos, todos participam da apresentação do novo grupo de teatro da Capital. Os atores invadem a platéia com seus grunhidos e seu texto arrojado, para sentar no colo de um espectador, abraçar outro e experimentar uma interação com todos. Há corre-corre. Gritos. Uns abafados, outros descaradamente apavorados. A maioria do público corre e se concentra em grupos. Público que, instantes antes, fora alvo dos respingos de leite de uma cena que se desenrolara no palco. Enquanto os atores encontram raros espectadores mais corajosos para interagir diretamente, a maior parte esgueira-se pelas laterais do auditório da Assembléia Legislativa do Estado. Quando o ator faz menção de ir para um lado, todos vão para o outro. Ninguém fica imune. De repente, tudo parece voltar ao seu lugar. Com os atores novamente no palco, contingentes da platéia, mesmo desconfiados, retomam suas cadeiras. Não demora muito para pedaços de carne crua, escorrendo sangue, começarem a voar pelos ares da quase imaculada sala do Legislativo estadual. Caem no colo dos menos avisados.
Definitivamente o teatro gaúcho havia inaugurado uma fase radical, típica de grupos de vanguarda norte-americanos como o Living Theatre ou o Bread and Puppet.

Naqueles meados de 1978, quando transcorria o 2º Encontro Gaúcho de Teatro, o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz surpreendeu com as encenações das peças A Felicidade Não Esperneia, Patati, Patatá e A Divina Proporção, de Júlio Zanotta Vieira, com direção de Paulo Flores. Levou a polêmica para a Assembléia Legislativa, reduto de resistência ao regime militar, onde se reuniam alguns dos mais atuantes intelectuais da época. O Ói Nóis ousou. Chocou como seu primeiro trabalho.

Quem viu, ouviu, sentiu, correu, temeu, gostou, refletiu, jamais esqueceu. Como se fora uma bofetada.

A Divina Proporção e A Felicidade não esperneia,
Patati, Patatá [1978] - Arquivo da Tribo


domingo, 26 de novembro de 2017

A Desmontagem “Evocando os Mortos Poéticas da Experiência” vai girar pelo Sul!!!

A circulação de Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência pelo Rio Grande do Sul terá início nos dias 14, 15 e 16 de dezembro no Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo em  Morro Reuter.

Nos dias 14, 15 e 16 de dezembro o Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo receberá o projeto Desmontagem “Evocando os Mortos Poéticas da Experiência”, que prevê a apresentação da Desmontagem da atuadora que há mais de 20 anos desenvolve sua pesquisa na Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz – grupo que completa 40 anos de atuação, de um teatro de estética singular.


“Desmontagem” é um conceito relativamente novo no âmbito das artes cênicas, constitui uma análise e desconstrução do próprio trabalho artístico e, ao mesmo tempo, é obra de arte. Tânia Farias é uma das pioneiras dessa pesquisa inovadora no Brasil e tem sido responsável pela disseminação dessa investigação do trabalho de ator em todo o país. Em dezembro deste ano a circulação da Desmontagem “Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência” terá seu início no Rio Grande do Sul, e a primeira cidade contemplada será Morro Reuter. A apresentação acontecerá na Comuna do Arvoredo, no dia 16 de dezembro às 20h com entrada franca.

“Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência” refaz o caminho da atriz na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Esse trabalho constitui um olhar sobre as discussões de gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz. Ao seguir a linha de investigação sobre teatro ritual de origem artaudiana e performance contemporânea, a desmontagem de Tânia Farias propõe um mergulho num fazer teatral onde o trabalho autoral da atriz condensa um ato real com um ato simbólico, provocando experiências que dissolvam os limites entre arte e vida e ao mesmo tempo potencializem a reflexão e o autoconhecimento. 

Logo após a apresentação haverá um bate-papo sobre o processo de criação com a atriz Tânia Farias. O debate aborda as questões de gênero no teatro contemporâneo, assim como as questões éticas e estéticas que compõem a formação do ator e os processos de criação no teatro de grupo. 

Nos dias 14, 15 e 16 de dezembro Morro Reuter também receberá a “Imersão e Vivência com o Ói Nóis Aqui Traveiz”, que consiste em um encontro coordenado pela atuadora, que investiga o movimento e a voz para a ampliação do corpo do ator e a ocupação do espaço teatral e urbano. As inscrições serão mediante carta de intenção. Todas as atividades serão gratuitas e para o público maior de 16 anos. 

Outras sete cidades do Rio Grande do Sul receberão as atividades: Rosário do Sul, Santana do Livramento, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Gramado, Caxias do Sul e Viamão. Em cada uma das cidades contempladas será realizada uma apresentação da Desmontagem “Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência” e um bate-papo sobre o processo de criação com a atriz. Todas as atividades serão gratuitas e abertas. 

Este projeto é uma produção da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (Pró-Cultura RS FAC), Lei n° 13.490/10. Ao circular por oito cidades gaúchas, ele pretende disseminar essa pesquisa desenvolvida no Rio Grande do Sul, aproximar as cidades do estado através da ação cultural e propiciar um espaço de reflexão e debate sobre a produção do teatro de grupo brasileiro e questões sociais e políticas. 

Confira a programação completa abaixo:

APRESENTAÇÃO 

16 de dezembro
20h - Desmontagem “Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência” com Tânia Farias
no Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo - Morro Reuter

Expondo os processos de criação de diferentes personagens, criadas entre 1999 e 2011, a atriz Tânia Farias mostra quanto as suas vivências pessoais e de seu grupo, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, atravessam os mecanismos de criação. Por meio da ativação da memória corporal, a atriz faz surgir e desaparecer as personagens, realizando uma espécie de ritual de evocação de seus mortos para compreensão dos desafios de fazer teatro nos dias de hoje. A performance constitui um olhar sobre as discussões de gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, e também sobre a importância do autoconhecimento no processo criativo.

OFICINA

14, 15 e 16 de dezembro
“Imersão e Vivência com o Ói Nóis Aqui Traveiz”
no Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo - Morro Reuter

• Inscrições para imersão serão realizadas nos dias 11 e 12 de dezembro e devem ser feitas através do e-mail terreira.oinois@gmail.com, com o envio de carta de intenção (a partir de 16 anos).

Sobre o Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo: 
www.valearvoredo.com.br

Informações para a imprensa:

Tânia Farias 

(51) 3028.8051 e 99999.4570 / www.oinoisaquitraveiz.com.br

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

TEATRO E VIVÊNCIA DE CRISE Claudio Heemann (jornal Zero Hora, 10 de abril de 1989)

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
40 Anos

O texto desta quinta feira é datado de abril de 1989, quando a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz completava 11anos!
Teatro e Vivência de Crise.
Confira!


Em 1978 o grupo experimental Ói Nóis Aqui Traveiz surgiu em Porto Alegre conduzido por Paulo Flores. Sua proposta diferia de tudo quanto o teatro da cidade tinha praticado até então. Apresentava uma atitude radical de repúdio às convenções estabelecidas. Abolia o palco e derramava-se no cotidiano dos espectadores. Realizava uma procura de rompimento com a linguagem e as posturas tradicionais. O grupo surgiu num espaço próprio e alternativo, uma garagem  que tinha sido boate. Logo fez-se notar pelo inconformismo, o ímpeto revolucionário e anárquico e as intenções devastadoras. Usou técnicas de choque para tratar temas sociais, influir em acontecimentos do dia e romper com os lugares comuns do teatro burguês. 

No espaço cênico ou fora dele, ou na transformação de qualquer lugar em espaço cênico, o Ói Nóis Aqui Traveiz levava suas convicções para fora do momento da representação. Representando suas ideias em qualquer lugar ou instância do existir. A anarquia contestátoria, o ritual surrealista, a agressão à plateia, o nudismo desbragado, a força simbólica da encenação, o grotesco e a imagem onírica, as denúncias pantomímicas contra a opressão e o absolutismo, a revolta irracional, a interferência do cotidiano pessoal, o manifesto contra as forças de dominação e controle social, o ódio ao capitalismo, identificaram o Ói Nóis Aqui Traveiz e sua maneira de ser e definir propósitos.

Em síntese, o Ói Nóis Aqui Traveiz preocupou-se em conscientizar plateias, buscando influenciá-las a repensar a realidade. Autodefinindo-se como tribo de atuadores o conjunto procura funcionar como agente de provocação, integrando-se à agitação de temas políticos e ao exame de questões conflituadas. A princípio trabalhando com um dramaturgo próprio (Júlio Zanotta Vieira) e sempre organizando a contextualidade das encenações através de adaptações especiais, o Ói Nóis Aqui Traveiz não deixou de aproveitar autores como Genet, Beckett, Brecht e Augusto Boal. Nestas variações de repertório o nível das montagens tem sofrido oscilações. Mas sempre num sentido de crescimento formal do grupo e coerência temática. Fiel ao ideário de reforma e denúncia a que se impôs.

Foto: Isabela Lacerda
Espetáculo: Fim de Partid
a
A intensa atividade do grupo em oficinas, sessões de estudo e experiências de laboratório e treinamentos fornecem uma equipe de sustentação sempre renovada que trabalha no  sentido de aproveitar a soma de contribuições que a orientação coletivista proporciona. Chegando aos onze anos de existência o Ói Nóis Aqui Traveiz , sediado em seu segundo espaço específico (a Terreira da Tribo), continua com o mesmo ímpeto e preocupação de ruptura em relação à ordem e aos códigos dominantes, que usou ao surgir de modo devastador e juvenil. A coerência com suas bases de lançamento e a persistência no caminho que escolheu trilhar parecem ter amadurecido e solidificado com a passagem do tempo.

Nem mesmo as premiações oficiais destinadas ao teatro gaúcho que  Ói Nóis Aqui Traveiz conquistou com realizações como Fim de Partida (1986) e Ostal (1987) parecem ter diminuído ou aplacado a inquietação do conjunto. Ele permanece convicto de sua marginalidade em campanhas e combatees alertas ao aqui-e-agora da situação contemporânea. Buscando deflagrar - onde quer que surja um assunto ou tema socialmente sensível - seu posicionamento e luta. Mostrando-se polêmico, revolucionário, crucial, persistente no agitar de sua bandeira. Nenhum outro grupo teatral tinha antes entre nós levado o comprometimento com causas sociais a este nível de identificação. O Ói Nóis Aqui Traveiz procura vivenciar e participar das crises do mundo das quais ele é ao mesmo tempo, reflexo. Essa originalidade, ao lado dos momentos de maior alcance expressivo de seus trabalhos, confere uma posição especial no panorama do teatro de Porto Alegre, aos companheiros de Paulo Flores, em suas cerimônias tribais. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Palco Giratório 2017 na reta final!

A Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz encerra nesta semana em Pernambuco o Circuito Nacional Palco Giratório. Ao todo foram 7 meses de idas e vindas, realizando seminários, workshops, intercâmbios e diversas apresentações. 

Nesta reta final o grupo retorna a Arcoverde, cidade onde encenou Medeia Vozes no ano de 2013 em uma temporada inesquecível, desta vez para apresentar “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal”. Após, seguirá para Recife onde além do espetáculo de rua, apresentará também a desmontagem “Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência”.

A Tribo que está em vésperas de completar 40 anos de trajetória foi o grupo homenageado desta edição do Festival. 

Confira abaixo a programação:

ARCOVERDE:

- Dia 18 de novembro, 20h em frente à Estação Cultural: Espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal.

- Dia 19 de novembro, às 14h no SESC Arcoverde: Workshop/vivência com a Tribo.

RECIFE:

- 21 de novembro, 16h no Pátio do Carmo (Sto. Antônio): Espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal.

- 22 de novembro, 19h30, no Teatro Capiba: Desmontagem Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência. 

Caliban – A Tempestade de Augusto Boal

Foto: Pedro Isaias Lucas

Impulsionada pela ideia de que ‘somos todos Caliban‘, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz analisa criticamente a ‘tempestade‘ conservadora que hoje sofre a América Latina, e especialmente o grande retrocesso nos direitos sociais e na luta pela autonomia econômica, política e cultural que vivemos no Brasil. A encenação é criada a partir do texto “A Tempestade” de Boal, escrita pelo autor no exílio, em 1974, período em que os movimentos sociais latino- americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo dos EUA e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares. A Tribo, sem trair a sua vocação artística, quer com o seu teatro de rua instaurar a alegria e a indignação nos seus espectadores. 

Desmontagem Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência

Foto: Eugênio Barboza

A desmontagem “Evocando os mortos – Poéticas da experiência” refaz o caminho da atriz na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Constitui um olhar sobre as discussões de Gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz. Desvelando os processos de criação de diferentes personagens, a atriz deixa ver quanto as suas vivências pessoais e do coletivo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz atravessam os mecanismos de criação.

O espetáculo foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2015 e faz parte do Projeto Caliban – Apontamentos sobre O Teatro de Nuestra América, selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural, na edição 2015-2016

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"O Teatro de Rua e o Teatro de Vivência da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz comungam do mesmo ímpeto de ruptura, invenção e intervenção para a transformação do teatro e da sociedade..." p.f


Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

Compartilhamos abaixo, a sequencia da entrevista com o atuador Paulo Flores, publicada originalmente na revista Sextante/Resistência em 2016.

Você ainda assiste teatro hoje? Quais os principais grupos atuantes no cenário nacional? E internacional?
Assisto teatro bem menos do que eu gostaria em função das minhas atividades na Terreira da Tribo que tomam quase todo o meu tempo. A idéia de teatro de grupo se espalhou pelo país e existem em diferentes estados grupos com atuação e relevância histórica. Para citar dois grupos que o Ói Nóis Aqui Traveiz tem compartilhado ações conjuntas: a Companhia do Latão e o Grupo Pombas Urbanas, ambos de São Paulo. No campo internacional interessa prioritariamente ao Ói Nóis o contato com o teatro latino-americano. Temos trazido para o nosso Festival de Teatro Popular: Jogos de Aprendizagem representantes deste múltiplo cenário como o Yuyachkani do Perú, o Malayerba do Equador e Teatro Taller de Colômbia.

Espetáculo A Missão - Lembrança de uma Revolução
Foto: Cláudio Etges
Quais os trabalhos que mais te marcaram?
As primeiras peças assistidas no Teatro de Arena de Porto Alegre, no início dos anos 70, que traziam duas características que foram motivadoras para mim e que influenciaram na minha maneira de ver e fazer teatro: a proximidade física entre o ator e o espectador, e o teatro como instrumento de reflexão política. Depois foi tudo que eu li sobre teatro e os seus grandes mestres – Artaud, Brecht, Julian Beck, Grotowski, Augusto Boal, Eugenio Barba, entre outros, e a história do Teatro Oficina e do Teatro de Arena de São Paulo. Nos anos 80, o meu encontro com o teatro de rua que se fazia em outras partes do país como o Grupo Galpão de Belo Horizonte, o Imbuaça de Aracajú e o Tá na Rua do Rio de Janeiro.


Porto Alegre é considerada uma das principais cidades do país em qualidade cênica. Como você enxerga o teatro gaúcho hoje?
O teatro de Porto Alegre é certamente um dos melhores do país. Tem uma qualificação de encenadores, de atores, de cenógrafos, que visivelmente está, em termos de tamanho da cidade, em pé de igualdade com Rio e São Paulo. O que falta é recursos para fomentar essa produção. Falta ação do poder público para criar uma política cultural para a manutenção das sedes dos grupos, incentivando o trabalho continuado, com projetos de formação de platéia e de circulação de espetáculos dentro do Rio Grande do Sul e fora do estado.

Conseguir se manter financeiramente é um dos maiores desafios para os grupos de teatro, principalmente no início. Como, em 2015, o ator de teatro consegue sobreviver? Existe algum incentivo para que aumente o número de pesquisas, grupos...?
A falta de uma efetiva política pública de fomento as artes cênicas leva o teatro brasileiro, principalmente os grupos de trabalho continuado, viver na corda bamba. Um grupo jovem só vai conseguir sobreviver se tiver muito claro para si ‘o porquê fazer teatro’ e ter muita persistência. Existem poucos editais públicos e a demanda é sempre muito maior que os poucos recursos. Vivemos num país onde as verbas para cultura não alcançam nem 1% do orçamento geral. O dinheiro público está nas mãos das empresas privadas através das leis de “incentivo à cultura” que não têm nenhum interesse na democratização e descentralização do teatro. E a situação no estado e no município é ainda pior.
Mesmo com todas as dificuldades em manter um grupo teatral, o  Ói Nóis se destaca pela quantidade de atores envolvidos em suas apresentações. Quantos Atuadores fazem parte da Tribo hoje?
Nas encenações dos espetáculos do Ói Nóis Aqui Traveiz "Medeia Vozes", "O Amargo Santo da Purificação" e da performance "Onde? Ação n. 2" estão envolvidos 25 atuadores. Na organização, produção e administração do grupo, dos projetos e do espaço da Terreira da Tribo formamos hoje um núcleo de sete atuadores. 

O que você vê de pior nos jovens atores?  E de melhor?
O de melhor é a audácia e o despojamento para ir para cena. E o de pior é como facilmente cedem aos apelos da sociedade consumista e caem no individualismo e no egocentrismo que são idéias contrárias ao teatro que é uma arte coletiva e requer um individuo generoso e solidário.

Pode-se dizer que o teatro de grupo é uma forma de resistência. Qual a importância do trabalho continuado para a existência de um grupo de teatro? 
A existência de um grupo de teatro só se dá pelo trabalho continuado. O trabalho não se encerra na encenação de um espetáculo. Que está associado a uma idéia de trabalho coletivo aonde vai se desenvolver uma ética e uma estética própria. O teatro de grupo é que vai pesquisar novas linguagens para a cena, vai inovar no sentido da atuação e no treinamento do ator. Por isso a importância do trabalho continuado porque é ele que vai trazer para o teatro relevância histórica.

Além de 6 livros e 4 DVDs publicados sobre a Tribo de Atuadores, o grupo ainda produz uma revista especializada em teatro: a Cavalo Louco. A revista acaba de completar 10 anos de existência com sua edição número 16, sendo referência de pesquisas e com circulação gratuita. A Cavalo Louco sobrevive hoje através de algum apoio? Qual a realidade das publicações teatrais no Brasil? A Cavalo Louco Revista de Teatro da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é uma publicação independente como todas as ações do grupo. Os recursos para impressão e distribuição da revista vem do apoio que o grupo consegue para outros dos seus projetos e dos cachê de espetáculos de teatro de rua pago por alguma instituição. De todo o recurso que a Tribo recebe uma parte é destinada para a manutenção da Cavalo Louco. Hoje diversos grupos brasileiros mantém publicações, como o Grupo Galpão (Revista Subtexto), Pequeno Gesto (Folhetim), Anõnimo (Anjos do Picadeiro), Cia do Latão (Vintém), Clowns de Shakespeare (Balaio) e o Vila Vox. Isto mostra a importância para os grupos de teatro do registro e a reflexão sobre o fazer teatral contemporâneo.

O profano e o sagrado são considerados pela maioria das pessoas como coisas opostas. No teatro do Ói Nóis elas aparecem juntas. A arte hoje também é colocada em um local “sagrado” - separada entre os que entendem a arte do resto da população. O Ói Nóis se propõe a fazer do teatro uma experiência ritual e popular. Quem pode fazer teatro? Como começar?
O Teatro de Rua e o Teatro de Vivência da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz comungam do mesmo ímpeto de ruptura, invenção e intervenção para a transformação do teatro e da sociedade. A convivência dessas duas vertentes no trabalho do Ói Nóis vai ser fundamental para o desenvolvimento do grupo, tanto no nível de fortalecer a sua identidade político-social como para a sua pesquisa de linguagem e trabalho do ator.  Estas vertentes estão ligadas uma a outra, e acredito que uma reforça a outra. O Teatro de Rua comunica-se com um grande público, e o Teatro de Vivência com um público restrito, onde possa se realizar uma cena dos sentidos com o envolvimento completo do espectador. Mas nas duas vertentes o contato do ator com o espectador para que se estabeleça uma relação viva é a premissa primeira. Quem pode fazer teatro? Para o Ói Nóis todo ser humano pode se expressar através do teatro. Basta desejar e ter um espaço apropriado. Para isso constituiu a Terreira da Tribo e sua Escola de Teatro Popular que oferece oficinas de iniciação teatral, formação e treinamento para atores, e de pesquisa de linguagens. Todas gratuitas e abertas aos interessados.

O ói nois surge com o retorno de manifestações de rua em 1978 – um momento em que jovens artistas e manifestantes se uniram para usar a arte como uma forma de contestação política e de discussão da ditadura. Você continua fazendo teatro de rua. A rua ainda consegue ser comunicadora e transmissora de pensamento?
O Ói Nóis Aqui Traveiz desejava encontrar o público que estava afastado das salas de espetáculos. A busca em sair do circuito do público habitual de teatro e realizar um teatro de combate, presente no dia-a-dia da cidade, levou o grupo a atuar nas ruas. Acredito que o teatro de rua é da maior importância para a cultura do nosso país. Lembrando que 90% das cidades brasileiras não têm salas de espetáculos. O teatro de rua do Ói Nóis tem chegado a um grande público na periferia das cidades e também na zona rural. Na sociedade de consumo a rua significa a libertação do teatro enquanto mercadoria, já que busca o envolvimento direto entre o público e a criação artística. Representa uma forma de escapar do sistema capitalista e do aparelho cultural, não apenas trazendo para a cena uma estética e uma ética libertária, mas também uma reavaliação completa dos meios de produção dessa cultura hegemônica. Atuar nas ruas, nas praças públicas e nos parques, atuar para todos os que estão ali, de forma gratuita. Atuar como uma forma constante de se compreender e repensar a vida, no espaço onde a vida acontece com maior agilidade, diante de um público vivo, é quando o teatro torna-se revolucionário.

Depois de 38 anos, o que o Ói Nóis ainda busca? Os ideais mudaram?
Impulsionado por princípios libertários o Ói Nóis Aqui Traveiz tem desenvolvido a sua trajetória até hoje. A idéia do teatro como força de transformação tem sido o pólo aglutinador da Tribo, que faz com que novas pessoas se interessem e se envolvam pela proposta do grupo. As idéias anarquistas que são colocadas na prática no dia-a-dia do grupo, tanto na criação artística como na sua organização, é que vão apaixonar ou não os novos participantes. Ao mesmo tempo em que estas idéias e práticas, como a autonomia, autogestão, criação coletiva, são sólidas na atuação da Tribo, a constante renovação de atuadores não permite que nada possa ser cristalizado. Esse movimento contínuo reafirma a prática libertária.

É possível ver claramente quem são os inimigos nas apresentações do ói nóis. Quem são seus inimigos hoje?
O grande inimigo é o mesmo, que é o sistema capitalista e a sua sociedade de consumo. Ontem como ditadura civil-militar e hoje como neoliberalismo. A miséria e a fome que se espalha pela maior parte do planeta, o analfabetismo, as epidemias, as guerras, o racismo, a xenofobia, a violência, a falta de liberdade, as injustiças sociais, e a degradação do planeta são frutos do capitalismo. Esse sistema que nos sufoca cotidianamente está sempre presente nas ações da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, tanto na criação artística como no ativismo político.

Durante muito tempo tentou-se acabar com o Ói Nóis de diversas maneiras: o grupo chegou a ter seu teatro fechado e seus atores presos. Depois de tantos anos de resistência, como você enxerga o seu futuro e do grupo?
Acredito que o Ói Nóis Aqui Traveiz continuará nos próximos anos disseminando as suas idéias e práticas coletivas, de autonomia e liberdade, compartilhando a sua experiência com o maior número de pessoas, através das suas encenações e da prática artístico-pedagógica. Certamente encontrará, como até aqui tem sido, os mais diferentes obstáculos para realizar o seu teatro de ousadia e ruptura. Mas resistir é manter abertos os vínculos com o futuro ainda sem nome e informe.


Missa para atores e público sobre a paixão e o
nascimento do Dr. Fausto de acordo com o espírito de nosso tempo
Qual a maior contribuição de Paulo Flores para o teatro brasileiro?
A minha contribuição foi ter participado da criação do Ói Nóis Aqui Traveiz e do espaço da Terreira da Tribo, que hoje já são referencias nacional.  Um grupo que nasceu com a idéia de um teatro concebido fora dos padrões convencionais. Estruturado como um coletivo autônomo desejando viver e expressar suas idéias através do teatro. Que manteve durante todos esses anos coerência e se pautou pela afirmação da diferença e da independência em relação ao mercado e às estruturas de poder, constituindo um espaço de resistência aos valores e padrões de comportamento estabelecidos pela sociedade capitalista. 




terça-feira, 14 de novembro de 2017

Últimos dias para inscrição!!!

Confira as Informações sobre a mais nova oficina que será ministrada na Terreira da Tribo!!!

Teatro Ritual
Oficina com a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz lança neste mês, o primeiro módulo da Oficina Teatro Ritual, que será desenvolvida de 4 de dezembro de 2017 a 23 de fevereiro de 2018, de segundas a sextas-feiras, das 9 às 13 horas, na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont 1186).
A oficina é gratuita a qualquer interessado a partir dos 18 anos e a seleção será feita nos dias 13,14, 15 e 16 DE NOVEMBRO das 9 às 13 horas na Terreira da Tribo, através de inscrição (pessoalmente) e carta de intenção.

Mais informações pelo fone: 3028 13 58
TEATRO RITUAL
(Módulo I)

OFICINA COM A TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ
De 4 de dezembro de 2017 a 23 de fevereiro de 2018
De segundas a sextas-feiras das 9 às 13 horas
INSCRIÇÕES DIAS 13,14, 15 e 16 DE NOVEMBRO
das 9 às 13 horas

O resultado da seleção será divulgado a partir das 14 horas do dia 30 de novembro de 2017.
TERREIRA DA TRIBO
Rua Santos Dumont, 1186 - 3028-1358
terreira.oinois@gmail.com




OFICINA DE TEATRO RITUAL
O Teatro de Vivência da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz procura uma forma de relação aberta e sincera com o público, em que atores e espectadores partilhem de uma experiência comum, que tenha a intensidade de um acontecimento, capaz de produzir novas formas de percepção da realidade. No Teatro Ritual entra-se em uma outra dimensão de tempo e espaço, fora do tempo cotidiano, instaurando no público uma dilatação da sua percepção. A Oficina de Teatro Ritual investigará os recursos expressivos do ator a partir do treinamento sobre as ações físicas. As ações físicas ou o gesto orgânico – no sentido dado por Grotowski – é meio privilegiado para encontrar o fluxo de vida do ator. 
As aulas da Oficina de Teatro Ritual serão ministradas na Terreira da Tribo (rua Santos Dumont 1186) e serão desenvolvidas de 4 de dezembro de 2017 a 23 de fevereiro de 2018, de segundas a sextas-feiras, das 9 às 13 horas. O resultado da seleção será divulgado a partir das 14 horas do dia 30 de novembro de 2017.

“O ato ritual busca uma conexão com as forças da Vida, como imaginava Artaud, buscando uma alteração da percepção usual da realidade, transformando as relações do homem consigo mesmo e com o mundo, revelando uma cultura autêntica e eficaz, através de uma comunicação que é a encarnação das forças e não mera representação – uma linguagem concreta destinada aos sentidos, capaz de entrar em contato com as forças latentes sob as formas. O rito é uma experiência de reatualização do mito, mas como recriação, recomeço, é sempre uma presentificação das forças que o mito personifica, um ato de recriação do mundo e modificação dos estados perceptivos. O pensamento mítico caracteriza-se por uma identidade entre essência e aparência, entre o concreto e o abstrato, matéria e espírito. Limites e referências habituais são rompidos e rearticulados em um outro plano/dimensão mítica onde instaura-se uma percepção diferenciada de tempo e espaço, uma sintonia profunda com o nível inconsciente, em que já não há mais uma distinção absoluta entre o ego e o mundo exterior, entre sujeito e objeto. Um espaço de transformação permanente e de ampliação da consciência. “ (Uma Tribo Nômade – A Ação do Ói Nóis Aqui Traveiz como Espaço de Resistência de Beatriz Britto)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

TODAS CONTRA 18!


Nesta segunda feira, dia 13 de novembro, às 18h, na Esquina Democrática em Porto Alegre, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz soma-se à luta de milhões de mulheres de todo o Brasil, pela autonomia de decidir sobre seus próprios corpos! Na última quarta-feira, dia 08 de novembro, uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprovou por 18 votos (todos os homens) contra 1 (a única mulher) a PEC 181, que acaba com o direito das mulheres de realizarem aborto em caso de estupro, anencefalia do feto ou risco de vida para a mãe, obrigando-as a manterem a gravidez até o fim, mesmo correndo risco de morte ou gerando grandes traumas psicológicos e sociais. 
Nesta avalanche de retrocessos e perda dos direitos conquistados, mais uma vez as mulheres são atacadas! Como grupo feminista e de origem nas manifestações sociais, a Tribo de Atuadores repudia esta ação da Câmara dos Deputados, somando-se à luta das mulheres em todo o Brasil, e manifesta nas ruas de Porto Alegre nesta segunda feira sua indignação a esta onda fascista que assola nosso país. 

Estaremos nas ruas! Todas contra 18! Te esperamos!


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Há 40 anos atrás...

Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só
 Mas sonho que se sonha junto é realidade!

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

“A aventura da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz começou a ser gestada no final de 1977 com o encontro de jovens artistas descontentes com o teatro que se fazia em Porto Alegre e no país. O ano tinha sido marcado por uma grande ebulição social com a volta das grandes manifestações de rua exigindo liberdades democráticas e anistia aos presos e exilados políticos.
Vivia-se ainda os anos de intolerância e repressão policial da ditadura civil-militar que se instalara no Brasil em abril de 1964. O núcleo que deu origem ao Ói Nóis Aqui Traveiz queria um teatro comprometido com o momento político vivido no país. O grupo nascia com a ideia de um teatro concebido fora dos padrões convencionais. Estruturado como um coletivo autônomo desejando viver e expressar suas ideias através do teatro. Influenciado pelos movimentos de vanguarda e principalmente pelo teatro revolucionário que acontecia em diferentes partes do mundo,  o Ói Nóis Aqui Traveiz começou a desenvolver a sua expressão cênica a partir da criação coletiva, do contato direto entre atores e espectadores e do uso do corpo em oposição ao primado da palavra. O nome em grafia propositadamente iletrada era um aviso de que o grupo se propunha a tomar atitudes inusitadas e contestadoras.”

Para relembrar uma parte desta história, a Tribo todas as quinta-feiras vai publicar no seu blog/site entrevistas, críticas, reportagens e manifestos  que acompanharam a sua trajetória. 

Em vésperas de completar 40 anos, em plena atividade artística e cidadã, estaremos revisitando nossos próprios arquivos, abrindo frestas e janelas de memória, para que através delas possamos olhar para trás e de asas e olhos abertos, caminhar para frente, reunindo forças para mais uma vez, alçar vôo.  Evoemos!

E para abrir os caminhos, compartilhamos hoje parte de uma entrevista realizada com o atuador/fundador da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, Paulo Flores.

Entrevista com Paulo Flores 
Originalmente publicada na revista Sextante/Resistência em 2016.

Foto João Matos - JC


 Paulo Flores é um dos grandes nomes que continua trabalhando através de um ideal muito claro: a utilização do teatro como forma de resistência artística e política. Fundador do grupo de teatro mais antigo do Rio Grande do Sul, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, continua levando para a população o pensamento crítico em seu teatro de vivência - sem divisão de palco e platéia - e o teatro de rua. Com o lema "Utopia, Paixão e Resistência", Paulo Flores e a Tribo mudaram o fazer teatral nos anos 70 e até hoje utilizam da arte como uma grande experiência ritualística que busca trazer ao público, por meio de sensações reflexivas, uma mudança pessoal e social.


Júlio Kaczam 

Qual foi seu primeiro contato com o teatro?
Eu me lembro de ter assistido “A Bruxinha que era boa”, da Maria Clara Machado, quando tinha 6 anos. Depois assisti durante a infância teatro de fantoches na Biblioteca Pública. Quando era criança brinquei muito de “fazer” teatro, muito influenciado pelos filmes que assistia nos cinemas e na televisão. Na adolescência junto com amigos e primos “encenamos” adaptações de filmes e novelas, como “Bonnie & Clyde” e “A Ponte dos Suspiros” para uma platéia formada de parentes. Só começo a assistir teatro com freqüência aos dezesseis anos. Alguns espetáculos vindos de Rio-São Paulo, e principalmente as peças do Teatro de Arena de Porto Alegre, que para mim vão ser uma revelação. A força que o teatro pode ter em sensibilizar o espectador para a reflexão dos problemas sociais. Esse teatro comprometido com a crítica ao mundo em que  vivíamos vai ser determinante na minha decisão em escolher o teatro como forma de expressão.

Quem ainda são os resistentes em busca de uma arte de transformação social?
Em todos os lugares do mundo uma arte comprometida com a transformação resiste. Para ficar só no campo da expressão teatral e no Brasil, podemos encontrar nas diversas regiões do país grupos de teatro investigando novas formas de expressão e desenvolvimento do ator, se contrapondo a estética imposta pelo colonialismo, trabalhando temáticas sociais com questionamentos críticos da realidade Para citar dois mestres do teatro revolucionário no nosso país: José Celso Martinez Correa do Teatro Oficina de São Paulo e Amir Haddad do Grupo Tá Na Rua do Rio de Janeiro. 

Você acredita que a resistência está atrelada a busca de uma re-existência?
Acredito que toda resistência traz em si uma re-existência. Porque ao manter os valores éticos que faz o ser humano continuar lutando por liberdade e justiça social, ele precisa se projetar para o futuro. É preciso uma participação cada vez maior do indivíduo em direção à construção de um novo tipo de sociedade.


Com a crescente tecnologia e os novos meios de comunicação, muito se discute no jornalismo o fim do jornal impresso. Assim como se discutiu o fim do rádio com a chegada da televisão. Você acredita que estamos em uma crise do teatro? É possível que ele seja extinto pela televisão e pelo cinema?
Num mundo que nos sufoca de mensagens unidirecionais, o teatro resiste e oferece-se hoje como o lugar único da comunicação imediata. Todos esses canais artificiais de comunicação são “distanciadores”, cada vez mais, o ato comunicativo separa em vez de reunir, e a comunicação  eletrônica aliena os seres humanos que cada vez mais se sentem isolados uns dos outros. Acredito que só o teatro, enquanto expressão artística poderá restituir ao homem à função natural de comunicar. A essência do teatro é reunir atores e espectadores para fazê-los partilhar de uma experiência.

Você já afirmou que "não se cristaliza uma maneira de fazer teatro, jamais. Esta arte ancestral, perseguida pelo fantasma da crise desde antanho, está condenada a reinventar-se em meio aos encantos e solavancos". Uma crise do teatro serve para surgir uma nova percepção de cultura?
Num mundo cada vez mais virtual onde os meios de informação em lugar de aproximarem realmente os cidadãos do mundo só agravam e difundem uma forma nova de solidão, acredito que só o teatro poderá ficar como o lugar privilegiado da anti-solidão, da comunicabilidade direta, do diálogo, do isolamento quebrado. Só no teatro os seres humanos reaprenderão a conhecer-se. Esse é o seu espaço no horizonte do futuro.

Foto Cláudio Etges
Muitos atores e autores, com o surgimento da televisão, buscaram-na como nova forma de expressão achando que poderiam atingir um maior número de pessoas. Com isso, abandonaram o teatro, consequentemente, o fazer político. Qual ainda é a relevância do teatro em uma sociedade que está cada vez mais afastada dessa arte?
Todo artista dentro do sistema capitalista vive em “perigo” de ser capturado e cooptado pelo consumismo. Neste contexto cabe ao teatro então celebrar ou transgredir os mitos desta sociedade, problematizando o presente, perspectivando o passado, antecipando o futuro. O teatro pode ser o motor e o laboratório social de uma cultura em mutação e de uma comunidade sempre renovada. Constituir uma experiência estética capaz de conduzir o ser humano a viver de uma maneira mais plena e mais autêntica.

No momento em que na sociedade tudo se torna objeto de consumo, inclusive o ser humano, que deixou de ser gente, cidadão, para se transformar em cliente e consumidor, qual a maior dificuldade de fazer um teatro transgressor que vai em oposição a essa ideia proporcionada pelo sistema capitalista?
Acreditando no teatro como um modo de vida, o Ói Nóis Aqui Traveiz desde a origem dissemina idéias e práticas coletivas, de autonomia e liberdade, compartilhando a experiência de convivência e de laboratório teatral. Que através do teatro podemos construir um ser humano solidário, consciente, aberto ao outro. E é em busca desta idéia que adotamos o termo “Tribo de Atuadores”, que sugere uma nova sociedade, baseada na vivência em comunidade e na valorização das relações diretas e da responsabilidade individual. Este trabalho desenvolve dentro do grupo uma noção de ator. Que primeiro é preciso ter consciência do que se quer fazer. Não é mais o ator para ser “estrela”, para querer chegar à novela da TV Globo. Por isso nós usamos o termo “atuador”. Porque dentro do Ói Nóis se procura desenvolver no artista, além de ator, ser um ativista político. Não um militante partidário, mas político no sentido maior, como agente social, uma pessoa descontente com que existe aí, queira transformar o seu dia-a-dia e transformar a sociedade em que vive. Isso é um processo que encontra várias dificuldades, algumas quase intransponíveis, mas que a trajetória do Ói Nóis Aqui Traveiz tem mostrado que não é impossível. Mesmo se vivendo numa sociedade extremamente consumista, de valores individualistas, de cinismo exacerbado, de “cada um por si”, o Ói Nóis com a sua criação e organização se coloca na contramão deste pensamento dominante. Procurando um teatro que esteja engajado com o momento em que se vive, na busca da transformação da sociedade.  

O teatro do Ói Nóis foi um dos alvos da ditadura militar no Brasil. Hoje, como é feita a censura aos meios artísticos?
Hoje a censura é principalmente econômica. Mas nos anos 80 além da censura e da repressão policial os grupos de teatro viviam também uma situação de penúria econômica. Hoje estas dificuldades econômicas continuam para a existência de grupos de teatro que mantenham independência em relação ao mercado e às estruturas de dominação.  Essas dificuldades vão desde o espaço físico para o grupo desenvolver o seu trabalho e ter continuidade até verbas de fomento para sua criação artística e circulação dos seus espetáculos.

Qual a maior diferença entre fazer teatro nos anos 80 e hoje?
Para o Ói Nóis Aqui Traveiz os anos 80 foi o momento de descoberta, de desenvolver as linguagens da Tribo: o teatro de rua e o teatro de vivência. Tudo era muito novo para nós criadores como também para o nosso público. Hoje com essas linguagens definidas o desafio é como não cristalizar as formas e estar sempre atento ao público de hoje.

Qual a principal diferença do público hoje pro dos anos 80? É mais difícil conquistar o estado de atenção no espectador contemporâneo?
Para esse público de hoje que na sua grande maioria passa todo tempo conectado ao mundo virtual o teatro do Ói Nóis Aqui Traveiz ganhou uma dimensão maior. Mergulhados num ambiente saturado de informação eletrônica cada vez mais nos sentimos desligados da materialidade dos fatos, do real objetivo, do acontecimento palpável. O teatro do Ói Nóis ao propor uma vivência, onde o espectador está dentro dos acontecimentos, podemos vislumbrar o teatro como espaço de um encontro autêntico.  Acredito que só o teatro ficará como lugar da desalienação, lugar onde o ser humano redescobrirá essa unidade perdida do pensamento com a ação, lugar onde se refará a potência criadora do gesto. Lugar onde o ser humano se reencontrará com o ser humano, olhos nos olhos, carne com carne.

Foto: Pedro Isaias Lucas
Uma das críticas que o Ói Nóis recebe é o de que, por utilizar uma linguagem própria e poética, usa de diversas referências que o público em geral, leigo, não conseguiria compreender. Como lidar com o fato de que o público em geral está inserido nessa cultura que o Ói Nóis justamente pretende romper?
Este processo de reprimir e instrumentalizar a imaginação, proveniente de uma política cultural das sociedades capitalistas, levou Heiner Müller a dizer que a tarefa política da arte seria mobilizar a imaginação do espectador.  Acredito que o papel do teatro é desalienar o espectador dessa cultura massificante. O teatro do Ói Nóis Aqui Traveiz através de uma linguagem poética que envolve todos os sentidos do espectador busca liberar os automatismo da percepção e os hábitos perceptivos já cristalizados. Concordo quando Müller diz que o ato cognoscitivo vem a posteriori, precedido pela experiência estética, por algo que não pode ser definido de imediato, mas que só assim se transforma em experiência durável.

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