quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"O Teatro de Rua e o Teatro de Vivência da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz comungam do mesmo ímpeto de ruptura, invenção e intervenção para a transformação do teatro e da sociedade..." p.f


Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

Compartilhamos abaixo, a sequencia da entrevista com o atuador Paulo Flores, publicada originalmente na revista Sextante/Resistência em 2016.

Você ainda assiste teatro hoje? Quais os principais grupos atuantes no cenário nacional? E internacional?
Assisto teatro bem menos do que eu gostaria em função das minhas atividades na Terreira da Tribo que tomam quase todo o meu tempo. A idéia de teatro de grupo se espalhou pelo país e existem em diferentes estados grupos com atuação e relevância histórica. Para citar dois grupos que o Ói Nóis Aqui Traveiz tem compartilhado ações conjuntas: a Companhia do Latão e o Grupo Pombas Urbanas, ambos de São Paulo. No campo internacional interessa prioritariamente ao Ói Nóis o contato com o teatro latino-americano. Temos trazido para o nosso Festival de Teatro Popular: Jogos de Aprendizagem representantes deste múltiplo cenário como o Yuyachkani do Perú, o Malayerba do Equador e Teatro Taller de Colômbia.

Espetáculo A Missão - Lembrança de uma Revolução
Foto: Cláudio Etges
Quais os trabalhos que mais te marcaram?
As primeiras peças assistidas no Teatro de Arena de Porto Alegre, no início dos anos 70, que traziam duas características que foram motivadoras para mim e que influenciaram na minha maneira de ver e fazer teatro: a proximidade física entre o ator e o espectador, e o teatro como instrumento de reflexão política. Depois foi tudo que eu li sobre teatro e os seus grandes mestres – Artaud, Brecht, Julian Beck, Grotowski, Augusto Boal, Eugenio Barba, entre outros, e a história do Teatro Oficina e do Teatro de Arena de São Paulo. Nos anos 80, o meu encontro com o teatro de rua que se fazia em outras partes do país como o Grupo Galpão de Belo Horizonte, o Imbuaça de Aracajú e o Tá na Rua do Rio de Janeiro.


Porto Alegre é considerada uma das principais cidades do país em qualidade cênica. Como você enxerga o teatro gaúcho hoje?
O teatro de Porto Alegre é certamente um dos melhores do país. Tem uma qualificação de encenadores, de atores, de cenógrafos, que visivelmente está, em termos de tamanho da cidade, em pé de igualdade com Rio e São Paulo. O que falta é recursos para fomentar essa produção. Falta ação do poder público para criar uma política cultural para a manutenção das sedes dos grupos, incentivando o trabalho continuado, com projetos de formação de platéia e de circulação de espetáculos dentro do Rio Grande do Sul e fora do estado.

Conseguir se manter financeiramente é um dos maiores desafios para os grupos de teatro, principalmente no início. Como, em 2015, o ator de teatro consegue sobreviver? Existe algum incentivo para que aumente o número de pesquisas, grupos...?
A falta de uma efetiva política pública de fomento as artes cênicas leva o teatro brasileiro, principalmente os grupos de trabalho continuado, viver na corda bamba. Um grupo jovem só vai conseguir sobreviver se tiver muito claro para si ‘o porquê fazer teatro’ e ter muita persistência. Existem poucos editais públicos e a demanda é sempre muito maior que os poucos recursos. Vivemos num país onde as verbas para cultura não alcançam nem 1% do orçamento geral. O dinheiro público está nas mãos das empresas privadas através das leis de “incentivo à cultura” que não têm nenhum interesse na democratização e descentralização do teatro. E a situação no estado e no município é ainda pior.
Mesmo com todas as dificuldades em manter um grupo teatral, o  Ói Nóis se destaca pela quantidade de atores envolvidos em suas apresentações. Quantos Atuadores fazem parte da Tribo hoje?
Nas encenações dos espetáculos do Ói Nóis Aqui Traveiz "Medeia Vozes", "O Amargo Santo da Purificação" e da performance "Onde? Ação n. 2" estão envolvidos 25 atuadores. Na organização, produção e administração do grupo, dos projetos e do espaço da Terreira da Tribo formamos hoje um núcleo de sete atuadores. 

O que você vê de pior nos jovens atores?  E de melhor?
O de melhor é a audácia e o despojamento para ir para cena. E o de pior é como facilmente cedem aos apelos da sociedade consumista e caem no individualismo e no egocentrismo que são idéias contrárias ao teatro que é uma arte coletiva e requer um individuo generoso e solidário.

Pode-se dizer que o teatro de grupo é uma forma de resistência. Qual a importância do trabalho continuado para a existência de um grupo de teatro? 
A existência de um grupo de teatro só se dá pelo trabalho continuado. O trabalho não se encerra na encenação de um espetáculo. Que está associado a uma idéia de trabalho coletivo aonde vai se desenvolver uma ética e uma estética própria. O teatro de grupo é que vai pesquisar novas linguagens para a cena, vai inovar no sentido da atuação e no treinamento do ator. Por isso a importância do trabalho continuado porque é ele que vai trazer para o teatro relevância histórica.

Além de 6 livros e 4 DVDs publicados sobre a Tribo de Atuadores, o grupo ainda produz uma revista especializada em teatro: a Cavalo Louco. A revista acaba de completar 10 anos de existência com sua edição número 16, sendo referência de pesquisas e com circulação gratuita. A Cavalo Louco sobrevive hoje através de algum apoio? Qual a realidade das publicações teatrais no Brasil? A Cavalo Louco Revista de Teatro da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é uma publicação independente como todas as ações do grupo. Os recursos para impressão e distribuição da revista vem do apoio que o grupo consegue para outros dos seus projetos e dos cachê de espetáculos de teatro de rua pago por alguma instituição. De todo o recurso que a Tribo recebe uma parte é destinada para a manutenção da Cavalo Louco. Hoje diversos grupos brasileiros mantém publicações, como o Grupo Galpão (Revista Subtexto), Pequeno Gesto (Folhetim), Anõnimo (Anjos do Picadeiro), Cia do Latão (Vintém), Clowns de Shakespeare (Balaio) e o Vila Vox. Isto mostra a importância para os grupos de teatro do registro e a reflexão sobre o fazer teatral contemporâneo.

O profano e o sagrado são considerados pela maioria das pessoas como coisas opostas. No teatro do Ói Nóis elas aparecem juntas. A arte hoje também é colocada em um local “sagrado” - separada entre os que entendem a arte do resto da população. O Ói Nóis se propõe a fazer do teatro uma experiência ritual e popular. Quem pode fazer teatro? Como começar?
O Teatro de Rua e o Teatro de Vivência da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz comungam do mesmo ímpeto de ruptura, invenção e intervenção para a transformação do teatro e da sociedade. A convivência dessas duas vertentes no trabalho do Ói Nóis vai ser fundamental para o desenvolvimento do grupo, tanto no nível de fortalecer a sua identidade político-social como para a sua pesquisa de linguagem e trabalho do ator.  Estas vertentes estão ligadas uma a outra, e acredito que uma reforça a outra. O Teatro de Rua comunica-se com um grande público, e o Teatro de Vivência com um público restrito, onde possa se realizar uma cena dos sentidos com o envolvimento completo do espectador. Mas nas duas vertentes o contato do ator com o espectador para que se estabeleça uma relação viva é a premissa primeira. Quem pode fazer teatro? Para o Ói Nóis todo ser humano pode se expressar através do teatro. Basta desejar e ter um espaço apropriado. Para isso constituiu a Terreira da Tribo e sua Escola de Teatro Popular que oferece oficinas de iniciação teatral, formação e treinamento para atores, e de pesquisa de linguagens. Todas gratuitas e abertas aos interessados.

O ói nois surge com o retorno de manifestações de rua em 1978 – um momento em que jovens artistas e manifestantes se uniram para usar a arte como uma forma de contestação política e de discussão da ditadura. Você continua fazendo teatro de rua. A rua ainda consegue ser comunicadora e transmissora de pensamento?
O Ói Nóis Aqui Traveiz desejava encontrar o público que estava afastado das salas de espetáculos. A busca em sair do circuito do público habitual de teatro e realizar um teatro de combate, presente no dia-a-dia da cidade, levou o grupo a atuar nas ruas. Acredito que o teatro de rua é da maior importância para a cultura do nosso país. Lembrando que 90% das cidades brasileiras não têm salas de espetáculos. O teatro de rua do Ói Nóis tem chegado a um grande público na periferia das cidades e também na zona rural. Na sociedade de consumo a rua significa a libertação do teatro enquanto mercadoria, já que busca o envolvimento direto entre o público e a criação artística. Representa uma forma de escapar do sistema capitalista e do aparelho cultural, não apenas trazendo para a cena uma estética e uma ética libertária, mas também uma reavaliação completa dos meios de produção dessa cultura hegemônica. Atuar nas ruas, nas praças públicas e nos parques, atuar para todos os que estão ali, de forma gratuita. Atuar como uma forma constante de se compreender e repensar a vida, no espaço onde a vida acontece com maior agilidade, diante de um público vivo, é quando o teatro torna-se revolucionário.

Depois de 38 anos, o que o Ói Nóis ainda busca? Os ideais mudaram?
Impulsionado por princípios libertários o Ói Nóis Aqui Traveiz tem desenvolvido a sua trajetória até hoje. A idéia do teatro como força de transformação tem sido o pólo aglutinador da Tribo, que faz com que novas pessoas se interessem e se envolvam pela proposta do grupo. As idéias anarquistas que são colocadas na prática no dia-a-dia do grupo, tanto na criação artística como na sua organização, é que vão apaixonar ou não os novos participantes. Ao mesmo tempo em que estas idéias e práticas, como a autonomia, autogestão, criação coletiva, são sólidas na atuação da Tribo, a constante renovação de atuadores não permite que nada possa ser cristalizado. Esse movimento contínuo reafirma a prática libertária.

É possível ver claramente quem são os inimigos nas apresentações do ói nóis. Quem são seus inimigos hoje?
O grande inimigo é o mesmo, que é o sistema capitalista e a sua sociedade de consumo. Ontem como ditadura civil-militar e hoje como neoliberalismo. A miséria e a fome que se espalha pela maior parte do planeta, o analfabetismo, as epidemias, as guerras, o racismo, a xenofobia, a violência, a falta de liberdade, as injustiças sociais, e a degradação do planeta são frutos do capitalismo. Esse sistema que nos sufoca cotidianamente está sempre presente nas ações da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, tanto na criação artística como no ativismo político.

Durante muito tempo tentou-se acabar com o Ói Nóis de diversas maneiras: o grupo chegou a ter seu teatro fechado e seus atores presos. Depois de tantos anos de resistência, como você enxerga o seu futuro e do grupo?
Acredito que o Ói Nóis Aqui Traveiz continuará nos próximos anos disseminando as suas idéias e práticas coletivas, de autonomia e liberdade, compartilhando a sua experiência com o maior número de pessoas, através das suas encenações e da prática artístico-pedagógica. Certamente encontrará, como até aqui tem sido, os mais diferentes obstáculos para realizar o seu teatro de ousadia e ruptura. Mas resistir é manter abertos os vínculos com o futuro ainda sem nome e informe.


Missa para atores e público sobre a paixão e o
nascimento do Dr. Fausto de acordo com o espírito de nosso tempo
Qual a maior contribuição de Paulo Flores para o teatro brasileiro?
A minha contribuição foi ter participado da criação do Ói Nóis Aqui Traveiz e do espaço da Terreira da Tribo, que hoje já são referencias nacional.  Um grupo que nasceu com a idéia de um teatro concebido fora dos padrões convencionais. Estruturado como um coletivo autônomo desejando viver e expressar suas idéias através do teatro. Que manteve durante todos esses anos coerência e se pautou pela afirmação da diferença e da independência em relação ao mercado e às estruturas de poder, constituindo um espaço de resistência aos valores e padrões de comportamento estabelecidos pela sociedade capitalista. 




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