As raízes da liberdade abrem as asas sobre nós

Ainda sobre Medeia Vozes, o texto desta semana é do amigo, diretor teatral, escritor, produtor e pesquisador Caco Coelho.

Medeia Vozes que tem sua reestreia em Porto Alegre prevista para março deste ano, no ano 2013 recebeu oito das dez categorias na qual estava indicada ao Prêmio Açorianos, arrematando também o troféu do Júri Popular. Foram eles: Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Atriz para Tânia Farias, Melhor Cenografia, Melhor Iluminação, Melhor Trilha para Johann Alex de Souza, Melhor Dramaturgia, Melhor Produção e o Troféu Juri Popular.



As raízes da liberdade abrem as asas sobre nós
Caco Coelho

Primeiro houve o Caos e a Terra, assim como o Amor; Caos, engendrou a Noite; a Terra, deu à luz ao Céu e aos Oceanos. Recebeu este conhecimento Hesíodo de suas musas, isto é, de sua própria reflexão. O mundo apolíneo, fruto dos sonhos, o princípio individual.
A lenda a narrativa, a epopeia, faziam um caminho milenar. Uma literatura antes da literatura. Os homens ouviam dos poetas invenções que não tinham o interesse em separar o verdadeiro da imaginação. O Universo era, exclusivamente, uma especulação da criação.
Certa feita, Dioniso espremeu suculentas uvas em taças de ouro e bebeu, em companhia de Ninfas e Sátiros, repetidas vezes, até atingirem o ékstasis. O novo nectar acabava de nascer. Todo o ano, por ocasião das vindimas, celebravam. Este mergulho em Dioniso, em êxtase e entusiasmo, tornava o simples homem em um herói, que ultapassava o métron, ipso facto, hipocrités, quer dizer, aquele que responde em êxtase, no caso, o ATOR.
Esta démesure, essa ofensa a si e aos Deuses, necessitava da purificação para receber o poder divino, a kátharsis. A purificação por meio da arte. O mundo dionisíaco, fruto do delírio, o princípio coletivo.
Os gregos criaram a arte trágica e, com isso, realizaram uma das maiores façanhas no campo do espírito. Durante 80 anos, há cerca de 2.500 anos, viveu o homem uma espécie de apogeu. Foram escritas 1.000 tragédias, das quais, 30 são o relato que nos sobrou, sendo que, no Brasil, somente existem 17. De Ésquilo, o poeta divino, chegou até nós, sete; de Sófocles, o poeta dos heróis, iguais sete; e de Eurípides, o inventor da trama, dezesseis.
A história da gênese da tragédia nos diz, com luminosa precisão, que esta obra de arte surgiu realmente do espírito da música, Nietzsche. Este caminho só é possível, diante da sensibilização que a música provoca. Este contágio sensível é a grande percepção grega que se introjeta, até hoje, na humanidade inteira. A disponibilização do sensível como instrumento da arte proporciona o princípio coletivizante, na medida em que causa esta comunhão, esta celebração.
A historicização principia com a ideia filosófica da Verdade. A trajetória da Verdade é estranhamente constituída através dos séculos. A Verdade muda, observa Nietzsche. É a Arte, e não a História, que é mestra da vida, como quer Fernando Pessoa. A história é, em muitos casos, o relato daquele que venceu.
A arte grega começa com o vitorioso se colocando no ponto de vista do derrotado, para falar da dor causada ao outro. A ponte que vai de mim para o outro, diz outro português. É por isso que Derrida vai buscar nos Arcontes o próprio sentido da democracia, também invenção dos gregos. Pode-se medir a democracia de um povo através do acesso ao arquivo e a reflexão que daí emana. A força da consignação, onde tudo é simbólico. O que está em questão é a alma, impõe o gênio alemão, Schiller.
Logo, é imperioso que a tragédia seja a representação de uma ação grave, a fim de permitir esta ruptura do sentido individualizante. A precipitação ao abismo se dá por intermédio de uma monstruosa transgressão da natureza humana, inspirando pena e terror. Neste abismo, onde o nosso herói se lança, encontrará o universo, por isto é vital ter asas, proclama o mesmo Nietzsche. 
Manancial do trágico, o Mito mantém com Verdade a mesma relação que o sol e o arco-iris, que dissipa a luz numa variedade de cores. O Mito é verídico, mas no sentido figurado, não é verdade misturada com impostura: é um alto ensinamento filosófico inteiramente verdadeiro, com a condição de que em vez de tomá-lo literalmente, possa se ver uma alegoria. A explicação do mito é a realidade histórica que ele reflete, posta a serviço da humanidade.
Dessa forma, diante dessa essencialidade, a tragédia cruza a história da civilização com um sentido de eternidade. Esse classicismo encontra-se lastreado pela evidência que leva à releitura. A arte é a da releitura, insiste Nelson Rodrigues. O Brasil abriu mão de abarcar o sentido trágico ao seu teatro. Este fato atinge o próprio Nelson que, ao tentar estabelecer uma tragédia de proporções nacionais, foi desconstituído deste sentido. Quando Nelson mergulha em sua grande aventura mítica - a mesma razão que entende Ésquilo ao escrever sua trilogia (a única que restou integral), a "Orestia", versa sobre uma guerra nacional; ou Eugene O ́neil, quando recorre aos gregos, com sua Electra enlutada, para cantar a Guerra da Secessão americana - esta mesma razão é negada a Nelson pela crítica especializada, preferindo ver na criação rodriguiana, um universo próprio, esquecendo que, no mesmo momento da escritura de Álbum de Família, a pátria brasileira tinha seu pai simbólico, Getúlio Vargas, autoexilado na sua Fazenda de Itu, metaforicamente batizada por Nelson como Gólgota, onde o presidente deposto viveu o seu calvário; a foto colocada na parede é a mesma do retrato do "velhinho", obrigatório nas paredes das salas de aula das escolas e nas repartições do serviço público, a partir do Estado Novo. Não consegue compreender que o Anjo Negro é o mesmo "anjo negro" que guarda Getúlio, Gregório Fortunato, antecipando um cunho trágico, antes mesmo do assassinato que levou Getúlio ao suicídio.
A partir de Getúlio e na sua sequência, começa a florescer no Brasil sua identidade. As artes ganham expressão. Surge a possibilidade de um país tropical afirmar-se. Mas não. A ameaça da liberdade impõe toque de recolher e os quarteis assumem o poder para exercer um papel vergonhoso, de condicionar a pátria aos desígnios estadunidenses. Decorrencia disto, o espaço que ficou reservado à arte hoje no cenário nacional é de complacência, onde só os que se alinham obtem projeção, as tais'celebridades'. O Brasil tinha adquirido um sentido coletivo antes do golpe militar de 64, veio a ditadura, e caiu, como conclusão macabra, a celebridade. Antes da ditadura, não havia um grande ator que não fizesse parte de uma companhia; depois da ditadura, não existe nenhum grande ator, com mídia, que faça parte de uma companhia. Primeiro, foi a deculturação e, depois, a aculturação, denuncia Darcy Ribeiro. Estratégica e cruelmente, foram sendo dissuadidos do povo brasileiro grandes referenciais. O Palácio Monroe, símbolo da república, sede do Senado Federal, prédio onde os pracinhas foram entregar à Nação sua vitória na II Guerra Mundial, foi posto pelo canetaço de um general de plantão. As companhias de teatro, desfeitas. Os livros de educação básica, desregionalizados. Assim, somos uma pátria sem memória, ou, como explicitou Derrida, sem Democracia.
A tragédia pode ser entendida como margens inconciliáveis. Uma força que parte tuas espáduas e te pende sobre a terra, diz o poeta da decadência e das flores, Baudelaire. A força que faz "desenvergar" este arco é o que constitui os princípios estéticos. O Brasil criou descaminhos que fez a arte distanciar-se dessa função primordial. Um dos resultados mais diretos e, evidentemente, obscurecido, é a sua ressonância na educação. Hoje a educação brasileira gera mais analfabetos funcionais que o número da evasão escolar dos anos 50. A consequência de abandonar este sentido primordial, dissociando a arte da vontade de seu povo, visto no sentido helênico, atualizando o uso do termo, é verdadeiramente trágico.
Para isso que serve a releitura de uma tragédia, a partir de um mito ancestral. Espelho do mundo, a poesia quer elevação, para que isto ocorra, ela tem de estar fincada em uma situação e devem ser criadas condições para entender o percurso do ser humano nesta sociedade.

O Ói Nóis Aqui Traveiz é um centro de investigação e elaboração de linguagem cênica, tanto do teatro de vivência, quanto do teatro de rua, bem como do ambiente formativo continuado. Seu campo de atuação é uma Terreira, onde a Tribo de Atuadores faz do teatro um ato de consciência, dispostos a vivenciar qualquer situação que encontram por uma senda libertária. O espetáculo mais recente do coletivo - é assim que deve ser tratada a Companhia, porque tudo ali é trama do coletivo – Medeia Vozes propõe uma celebração. O Mito de Medeia é apedrejado pela história como uma mulher que ousou matar os filhos por paixão. O Ói Nóis se utiliza da versão que Christa Wolf deu ao mito, lançando a oportunidade da dúvida sobre seus atos bárbaros.
O Mito foi tratado, originalmente, por Eurípides. Lá, Medeia é vista como infanticida, vingativa, feiticeira, onde a comunidade, carregada de culpa, quer limpar suas mãos. Ói Nóis prefere dar outras vozes ao imaginário ocidental cauterizado. Wolf propõe ver através do reconhecimento de nossas fraquezas. Um novo paradigma se estabelece, libertando o grito preso na garganta, lançando com atenção outro olhar sobre a mulher bárbara. Não importa mais a verdade em torno do Mito, a questão é colocá-lo em xeque.
Já no prólogo, Medeia se apressa em explicitar a sua loucura. Ela está enraizada na cama de molas que rangem, chocalhando com o corpo. A cama de ferro projeta raízes, mas elas estão secas. Não há frutos, portanto, seu campo de ação será o absurdo. Esta opção interpretativa deveria trazer consigo uma limitação, na medida em que o distanciamento da razão aparente, comprometeria a elucidação de alguma verdade necessária. Ao contrário, é justamente no esgotamento de caminhos, restando apenas a linha limítrofe, e tênue, do transbordamento, que se manifesta o enorme talento da atriz Tania Farias, constituindo-se, por vezes, num verdadeiro réquiem. Ela ultrapassa o métron. Este aspecto, craveja uma característica do teatro de outro trágico, Sófocles, em que suas heroínas estão condenadas a enfrentar sozínhas seus desígnios. Logo, à mesa do banquete do rei de Corinto, está inclinada sobre ela, aquela que não sabe ser condizente. O barco, feito de taquaras cortadas em toras suspensas, indica a travessia em que será conduzida a plateia. A criança morta estará na caverna erma e claustrofóbica. O ardil dos que querem se livrar das culpas, é urdido na torre de aço torcida. É da onde emana a voz tonitroante do ancestral estético dessa caminhada, Paulo Flores. Ancestralidade no sentido de disponibilização, de vigor, de sabedoria. O teatro gaúcho tem nesse artista sua maior expressão teatral. Sua trajetória é de grande referência, favorecendo a constituição de uma linguagem claramente identificável, sobretudo, na praxis de um território cultural. O exercício cênico permanentemente voltado à formação, se estabeleceu como um caminho revelador de variados talentos, guardando sempre um teor de originalidade, mesmo diante de tamanha consolidação, o que é um risco e, ao mesmo tempo, serve como fôlego que mantém viva essa dimensão teatral tão característica das terras gaúchas.
A areia branca coloca todos na mesma insegurança para, a seguir, começar o manuseio da plateia em níveis e ambientes distintos, elevando o propósito da celebração. Esta celebração só não é ainda maior, porque as músicas, em que pese constituir alguns momentos de beleza, pela opção das letras sempre estar em outro idioma, tornam alguns encontros circunscritos ao coro. O fogo e os caminhos sem guarida assumem a função de mexer com as sensações. A noiva que vai morrer - porque o amor filho da traição deverá ser punido - deixa próxima a nudez tão alva. Jasão está engaiolado. Seu amor bateu asas. Mas as asas também estão secas, como as raízes da árvore morta. Os cenários são prenhes de referências ao Oriente médio, com tapetes persas formando corredores do passado. As roupas e cantos africanos, dão um colorido impregnado de tropicalidade. Os ritmos tocados ao som da pele de cabra e o pulmão da gaita de fole posto pra fora até o seu estertor, são os sons instrumentais de Medeia, além das vozes polifônicas libertárias. Existe uma invasão de códigos de linguagem, a partir do momento em que são colocados em cena uma série de fragmentos de várias peças do amplo repertório do grupo, mostrando uma bagagem de identidades, proporcionando a mímesis de um universo reconhecível. Este manifesto permite arriscar cenas fora do eixo convencional, como rascunhos de uma linguagem que surgirá, diante do frescor provocado pela atualização do Mito. A propriedade na utilização dos mais variados recursos cênicos que o espetáculo Medeia demonstra, está associado aos mecanismos utilizados ao longo da trajetória da Tribo. A força estética reside sobre uma luta incansável - vide os quarenta anos na estrada - em prol dos direitos humanos, nos mais diversos níveis, seja como expressão política da sociedade, ou como instrumento de transformação de comunidades carentes.

Fotos: Pedro Isaias Lucas
O teatro alemão, desde Goethe, se coloca como um instrumento de interpretação do Mito, atualizando seu exemplo, dispondo su elucidação, enxergado à luz da ciência. Qualitativamente após a passagem de Brecht sobre a Terra, passou a representar os anseios sociais do seu povo. Não mais uma sociedade burguesa, mas o homem como destino do homem. Um dos principais propaladores desse caminho irreversível tomado por Brecht, Heiner Muller, entregou às novas gerações, as chaves de diversas obras clássicas, por meio de suas "Re-leituras". Este mestre alemão é tomado como uma das inspirações principais do Ói Nóis, desde a memorável encenação de "Hamletmachine", derradeira peça do lugar onde surgiu a Terreira.
Dessa forma, o projeto "Raízes do Teatro", do qual Medeia Vozes faz parte intrinseca, é a ampliação de um caminho que foi seguido desde sempre, que vocacionou ao coletivo o seu sentido social.
O Brasil vive o seu momento de maior complexidade. As conquistas sociais são postas como moeda de troca por ter-se abjurado da Ética. Está na hora, quiça, de uma releitura trágica da nossa própria história.
O teatro é uma arte essencial. A Terreira exerce, com pertinácia e astúcia, o seu papel de problematizadora. Ou seja, utilizam suas asas para bailar neste abismo. A imagem da Medeia levando um feixe de gravetos sobre a cabeça, descendo a rua negra, cheia de poças d ́agua - a mesma água que acalma, mostra que esta guerra vai longe.

Referências bibliográficas:

Bornheim, Gerd - O sentido e a máscara
Veyne, Paul - Acreditavam os gregos em seus mitos?
Nietzsche, Friedrich - O nascimento da tragédia
Romilly, Jaqueline - A tragédia grega
Vidal-Naquet, Pierre e Vernant, Jean-Pierre - Mito e tragédia na Grécia Antiga
Ribeiro, Darcy - Os brasileiros
Teixeira, Anísio - Educação não é privilégio
Derrida, Jaques -
Ricci, Conrado - Sobre o teatro grego
Aristóteles - Poética