Ói Nóis Aqui Traveiz celebra 40 anos de trajetória!

Sob a tríade UTOPIA, PAIXÃO e RESISTÊNCIA surgiu em 1978 um coletivo que transformaria radicalmente a cena teatral no sul do país. Era a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz que chegava para deixar os seus rastros de liberdade. E é com imensa alegria que neste ano de 2018 estaremos celebrando os 40 ANOS de VIDA deste grupo! 
A programação comemorativa, que será de 24 a 30 de março, conta com apresentações do premiado espetáculo de vivência “Medeia Vozes”, do espetáculo de teatro de rua “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” e da performance “Onde? Ação nº2”, além do lançamento do livro “Tânia Farias – O Teatro é um Sacerdócio” de Fábio Prikladnicki.



Confira:

- Dia 24 de março, a partir das 16h, no Vila Flores: Festa Viva a Tribo – 40 anos de Utopia, Paixão e Resistência.

- Dia 27 de março, 21h, no Cine Bancários: Viúvas Performance sobre a Ausência

- Dia 28 de março, 19h, no Centro Municipal de Cultura: Lançamento do livro “Tânia Farias – O Teatro é um sacerdócio” de Fábio Prikladnicki.

- Dia 29 e 30 de março, 19h30 na Terreira da Tribo: Espetáculo “Medeia Vozes”.

- Dia 31 de março, 11h na Redenção: Performance “Onde? Ação nº2”.

- Dia 1 de abril, 15h, no Parque da Redenção: Espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal

Caliban – A Tempestade de Augusto Boal
Foto: Fabiano Ávila

A peça de Boal é uma resposta ao clássico “A Tempestade” de William Shakespeare. A história é vista pela perspectiva de Caliban, metáfora dos seres humanos originários da América que foram dizimados e escravizados pelos invasores colonizadores representados pelo personagem Próspero. Na versão de Boal, Próspero é tão perverso quanto os nobres europeus que usurparam o seu poder. Todos representam a violenta dominação colonial e cultural. A filha de Próspero, Miranda, e o príncipe de Nápoles, Fernando, fazem uma aliança não por amor como na peça de Shakespeare, mas sim por interesses capitalistas. Ariel, o “espírito do ar”, representa o artista alienado, mescla de escravo e mercenário a serviço da ordem constituída. Somente Caliban se revolta até ser, finalmente, derrotado. Os vilões permanecem na “ilha tropical” para escravizá-lo. Mesmo escravo, Caliban resiste. Como em todo bom teatro político, o público deve perceber que os símbolos da obra remetem à realidade, para despertar neles – emotiva e racionalmente – uma resposta crítica fora da ficção. Caliban simboliza hoje a resistência ao neo-colonialismo.  

Medeia Vozes

Foto: Pedro Isaias Lucas

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz toma uma versão antiga e desconhecida do mito, trazendo uma mulher que não cometeu nenhum dos crimes de que Eurípides a acusa. O mito é questionado e reelaborado de maneira original, para analisar o fundamento das ordens de poder e como estas se mantêm ou se destroem. Medeia é uma mulher que enxerga seu tempo e sua sociedade como são. As forças que estão no poder manifestam-se contra ela, chegando mesmo à perseguição e banimento, ela é um bode expiatório numa sociedade de vítimas. A voz de Medeia somam-se vozes de mulheres contemporâneas como as revolucionárias alemãs Rosa Luxemburgo e Ulrike Meinhof, a somali Waris Diriiye, a indiana Phoolan Devi e a boliviana Domitila Chungara, que enfrentaram de diferentes maneiras a sociedade patriarcal em várias partes do mundo.
Performance “Onde? Ação nº2”

Performance “Onde? Ação nº2”


A performance “Onde? Ação nº2” de forma poética provoca reflexões sobre o nosso passado recente e as feridas ainda abertas pela ditadura militar. A ação performática se soma ao movimento de milhares de brasileiros que exigem que o Governo Federal proceda a investigação sobre o paradeiro das vítimas desaparecidas durante o regime militar, identifique e entregue os restos mortais aos seus familiares e aplique efetivamente as punições aos responsáveis. 

Lançamento do livro 
“Tânia Farias – O Teatro é um sacerdócio” de Fábio Prikladnicki.

Foto Rafael Saes


Acompanho o trabalho de Tânia Farias há pouco mais de uma década, o que representa cerca de metade de sua trajetória na Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Seus mais de vinte anos no grupo, da mesma forma, somam mais ou menos a metade da história do Ói Nóis, que completará 40 anos em 2018. Essa curiosa coincidência matemática ronda o oitavo volume da série Gaúchos em Cena.
Embora a bibliografia sobre o grupo – um dos mais destacados no teatro brasileiro – já conte com um número significativo de livros, publicados pelo selo próprio Ói Nóis na Memória, este é o primeiro que aborda o percurso profissional e pessoal de Tânia. No decorrer das páginas da entrevista que constitui seu cerne, fica claro que, para ela, vida e teatro são indissociáveis. O mesmo pode ser dito sobre sua relação com o grupo. Ao falar de Tânia, falamos do Ói Nóis, como diz a pesquisadora Vivian Martínez Tabares em um texto incluso no volume.
O livro aborda sua carreira, rememorando alguns dos espetáculos mais marcantes, mas principalmente registra um momento de vida. Esse momento é de maturidade como atriz e mulher, mas também de crise, como ela explica na entrevista. Tânia não apenas conta os bastidores de suas criações no Ói Nóis como expõe sua visão de mundo a respeito de assuntos como política, ética, feminismo, religião e espiritualidade.
Mesmo os espectadores que a acompanham há tempos descobrirão novas dimensões. Está aqui uma verdadeira pensadora do teatro, cujas opiniões ousam ir na contracorrente das expectativas. Mas para ela a teoria só tem sentido na prática, ou seja, no dia a dia do incansável trabalho do atuador – no vocabulário do Ói Nóis, esta palavra designa a fusão do ator com o ativista.
Com prefácio do parceiro de longa data e mestre, Paulo Flores, além de textos reflexivos de seus pares no teatro e um ensaio crítico de Valmir Santos, o volume conta ainda com poemas escritos por Tânia, aqui publicados pela primeira vez em livro. Será uma revelação para a fatia significativa do público que ainda não havia tido acesso a essa vertente de sua produção.
Diferentemente de livros que honram artistas em fim de carreira ou cujo auge ficou no passado, este registra uma atriz em plena ebulição: inquieta e inconformada, Tânia sempre mira além. Os interessados na criação teatral entenderão como ela constituiu sua singular técnica de atuação e ajudou a moldar a poética do Ói Nóis com seus múltiplos talentos – entre eles, a elaboração de figurinos. Os que não desejam se aprofundar nas entranhas dos processos mas se interessam pelas coisas da arte e da vida terão, ainda assim, farto material à disposição no afiado discurso de Tânia.
Ao final da leitura, assim espero, será impossível não se interrogar, com avidez, sobre os próximos passos dessa atuadora exemplar. Fica a sensação de que a maturidade, uma fase que só chega com muito suor e dedicação, está apenas começando para ela.

CONTATO:
Paula Carvalho
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