VEM AÍ, MEIERHOLD

 
A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz ensaia a sua nova encenação “Meierhold” que deverá estrear em setembro na Terreira da Tribo. “Meierhold” traz para a cena as ideias fundamentais do célebre encenador russo. Vsevólod Meierhold rompeu as fórmulas em uso no seu
tempo, a velha tradição da cena teatral, abrindo novos caminhos e oferecendo inéditas alternativas à representação dos textos dramáticos, procurando levar para as artes cênicas as inquietações e
fermentações intelectuais da época que vivia. A encenação do Ói Nóis Aqui Traveiz é uma adaptação livre da peça “Variações Meierhold” do argentino Eduardo Pavlovsky. “Meierhold” mostra o diretor russo num tempo fora da realidade, póstumo, como um espectro que reflete sobre as injustiças, torturas e boicotes que sofreu por parte do regime stalinista. Ao mesmo tempo, no entanto, esse espectro diz estar na prisão, um velho que tem que suportar torturas diárias 'por um problema estético'. No monólogo estruturado em fragmentos que passam de pensamentos em voz alta a relatos e diálogos imaginários com diferentes interlocutores, Meierhold reclama que até os exercícios de
sensibilização do corpo eram questionados pelos guardiões da arte socialista. Coerente com seus princípios, enfrentou, sem jamais se curvar e ceder, a pressão da ditadura stalinista contra a liberdade de criação artística, terminando por cair vítima de sua própria honestidade de artista, da intransigência com que lutou em defesa das suas ideias nos dias sombrios que se abateram sobre a cultura e as artes russas. A encenação e sua própria dinâmica busca perguntar aos espectadores como Meierhold nos afeta e nos comove no Brasil de hoje.


A HISTÓRIA DE MEIERHOLD

Vsevolod Emilevich Meierhold nasceu em 1874, em Penza, na Russia. Foi um importante encenador, ator e teórico do teatro. Em oposição ao naturalismo teatral, desenvolveu uma técnica de encenação
antinaturalista denominada de Biomecânica. Formando-se ator, em 1898 foi convidado a se juntar à trupe do recém-fundado Teatro de Arte de Moscou (TAM), de Stanislavski, onde trabalhou por quatro anos. Danchenko e Stanislavski criaram o TAM para escapar e se contrapor ao tradicionalismo teatral de então, aos clichês repetitivos e enfadonhos, às interpretações baseadas na imitação pela imitação, na cópia servil. Templo do naturalismo e do realismo psicológico, o Teatro de Arte foi a grande escola de Meierhold, que em 1902 decide percorrer caminhos próprios fundando uma nova trupe, a Sociedade do Drama Novo. Passa a inspirar-se no simbolismo, no cubismo e finalmente no expressionismo alemão para desenvolver uma pesquisa de trabalho muito particular. Propôs uma nova abordagem: um teatro que “intoxicaria o espectador com força dionisíaca do eterno sacrifício”.
Em 1905, Stanislavski convida Meierhold para dirigir o recém criado Estúdio do Teatro de Arte. Mais uma vez, ambos irão se desentender artisticamente e o projeto de desenvolverem novamente um trabalho em conjunto é desfeito. Apesar de Meierhold e Stanislavski serem tratados como opostos teatrais – um preocupado com a teatralidade, outro com o conteúdo interno – os dois se admiravam e respeitavam mutuamente. Meierhold foi sempre um crítico e admirador persistente do Teatro de
Arte e declarou certa vez: “serei sempre um aluno de Stanislavski”.

Stanislavski, em outra ocasião, o chamou de “filho pródigo”. Em 1906 vem então um grande acontecimento: recebe uma carta de Vera Kommissarjevskaia, considerada pela crítica como a grande atriz da Rússia, convidando-o para dirigi-la. Em Petersburgo Vera tem o seu próprio teatro, e entrega a Meierhold a direção geral. Vários são os espetáculos encenados. Imediatamente após o rompimento de Vera com Meierhold, para grande espanto da classe teatral russa, Teliakóvski, diretor dos teatros imperiais, convida Meierhold para fazer parte da Companhia Dramática Alexandrina, como ator e diretor. Para Meierhold a oportunidade foi excelente: contou com meios teatrais praticamente
ilimitados. A partir de pesquisas no teatro popular, na commedia dell'arte, as improvisações, a pantomima, o grotesco e o simbolismo cênico, desenvolveu uma disposição frontal das personagens com pesquisas voltadas a expressão vocal do ator e com a substituição da cenografia complexa do naturalismo pela iluminação como síntese e dispositivos cênicos construtivistas. Em 1913 cria o Estudio Meierhold, sua escola de teatro e passa a se dedicar também à formação de atores. Quando a Revolução Russa aconteceu em 1917, Meierhold rapidamente se juntou ao Partido Comunista e em 1920 foi apontado como o cabeça do Departamento de Teatro do Comissariado do Povo da Educação
Nacional. Em contraposição às mostras de teatro tradicionais criou o “Outubro Teatral”, movimento que transformou os teatros em espaços de discussão política e comunhão com os espectadores. Na sequência dá origem ao ator-tribuno, o artista que não se limita a interpretar seu papel, mas que também agita e atua politicamente, distanciando-se por vezes de sua personagem para fazer com que a mensagem chegue de forma mais clara e límpida ao público presente nos espetáculos. Apesar do
compromisso com a causa revolucionária, da consistência dos espetáculos, dos sucessivos sucessos de público, seu teatro começa a ser taxado pelo estado militarista de “incompreensível para as
massas”, e de cultuar em suas montagens “aspectos místicos, eróticos e de espírito associal”. Os integrantes do Partido Comunista acusavam o encenador, assim como toda a vanguarda artística, de priorizar a forma em detrimento do conteúdo. Um exemplo disso é a encenação de 'O Corno
Magnífico', em 1922. Sendo condenado pela escolha da peça por tratar-se de um melodrama “reacionário” sobre um ciúme doentio, e desprezou a montagem que privilegiava o riso grosseiro e os jogos corporais, numa clara alusão ao teatro popular, em detrimento de uma sã ideologia. Para Meierhold, o corpo tem um poder de significação muito maior que a palavra. Propõe a quebra da dicotomia corpo-cérebro com um treinamento global que envolve corpo e cérebro na ação e que
serviu de base na construção da biomecânica.

A Biomecânica é um conjunto de exercícios básicos que ajudam o ator a exercer maior controle sobre o seu corpo em situações dramáticas. A Biomecânica trabalha o vocabulário físico-gestual de modo a assegurar ao ator pleno domínio do que expressa. Esse recurso transformava o corpo do ator em uma ferramenta. As atuações pelo método da biomecânica possuíam movimentos amplos, exagerados (mas não supérfluos) e incrivelmente tensos. A capacidade comunicativa dos gestos e expressões, ou seja, a linguagem corporal, dentro da biomecânica, subjugou a linguagem oral a ponto de muitas entonações serem feitas de forma quase que inflexível. Meierhold propõe uma outra relação com o
texto e indica que a dramaturgia escrita deveria entrar somente depois que o roteiro de movimentos tivesse sido criado, como o pai da Mímica Moderna dizia que a peça teatral só poderia ser escrita depois de ensaiada. Em seu princípio básico era tornar a peça, uma “poesia em movimento”. Com a montagem de “O Inspetor Geral”, em 1926, Meierhold irá atingir o auge de sua carreira. Os burocratas continuavam defendendo e exigindo um teatro em tudo maniqueísta, por demais
simplista, esquematizado ao extremo, ao passo que Meierhold, tomado de impaciência e irritação, começou a criticar as peças e espetáculos que, em suas palavras “qualquer um pode escrever, e qualquer teatro pode montar”. Foi perseguido pela crítica oficial, pela classe teatral e por toda uma geração de artistas. Isolado e solitário, passou a fazer frente ao periodo mais sombrio do stalinismo. Sua reputação, no entanto, não é de todo abalada. Em 1935, Stanislavski irá dizer: “o
único encenador que conheço é Meierhold”. Em dezembro de 1937 é publicado um artigo intitulado “Um teatro estrangeiro”, que acusa o teatro de Meierhold de “desvio sistemático da realidade soviética, distorção política dessa realidade e calúnias hostis contra nosso modo
de vida”, finalizando com a pergunta: “a arte e o público soviéticos precisam realmente de um teatro como esse?”. A resposta oficial foi: Não. E o Teatro de Meierhold foi fechado. Stanislavski irá surpreender a todos convidando Meierhold a trabalhar com ele no novo Teatro de Ópera Stanislavski. Era uma decisão valente oferecer proteção a alguém que caíra em desgraça diante do sistema. Mas Stanislavski sabia o que estava fazendo e, aceitando as responsabilidades de sua decisão, alegou: “Precisamos de Meierhold no teatro. Ele é meu único herdeiro”.

Meierhold, após ser preso e acusado de diversos crimes, ser submetido a intensa tortura física e psicológica é executado  em fevereiro de 1940, aos 66 anos. Sua mulher, a atriz Zinaida Raikh e também atriz de sua companhia, foi encontrada morta em seu apartamento, pouco tempo depois da prisão de Meierhold. Neste período da história soviética, mais de 1500 artistas foram submetidos ao mesmo brutal ritual estalinista de seleção cultural.