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Beckett e Richard Foreman são encenados na Terreira da Tribo!

A Mostra Ói Nóis Aqui Traveiz - Jogos de Aprendizagem 2013 apresenta a partir desta quinta feira, na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186 – São Geraldo), dois trabalhos da Oficina Para Formação de Atores da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo. De 4 a 7 de abril será apresentado o exercício cênico “Fragmentos Beckett”, com encenações de três peças curtas de Samuel Beckett, e de 9 a 12 de abril o exercício cênico “Minha Cabeça Era Uma Marreta”, uma das mais polêmicas e enigmáticas peças de Richard Foreman, um dos dramaturgos mais controvertidos e badalados dos Estados Unidos. Entrada Franca! Sempre às 20h, distribuição de senhas a partir das 19h30. Mais informações pelo fone 3286 57 20.

EXERCÍCIO CÊNICO: FRAGMENTOS BECKETT

Exercício de encenação da Oficina para Formação de Atores da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo com coordenação de Tânia Farias, Paulo Flores e Clélio Cardoso.

O Exercício Cênico: Fragmentos Beckett é composto por três peças curtas de Samuel Beckett. Nestes fragmentos Beckett mostra a solidão e a incomunicabilidade do homem moderno, vivendo sem esperanças num mundo ilógico, inóspito, lúgubre e vazio.

CATÁSTROFE 
Catástrofe, escrito a pedido da Associação Internacional de Defesa dos Artistas é dedicado a um escritor checo, feito prisioneiro em 1979: Vaclav Havel. Uma espécie de texto pirandelliano, em que o teatro aparece dentro do teatro, Catástrofe coloca em cena um diretor teatral (D) que dá ordens e corrige falhas, sua assistente (A) atenta e anotando as observações, Lucas, o iluminador, o único que tem nome, e o protagonista (P), silencioso e imóvel, dócil ao papel que querem vê-lo representar. Seria P um verdadeiro prisioneiro representando seu próprio papel? Ou um ator vivendo o papel de prisioneiro? Ou o artista que não pode ter liberdade? 

Elenco                                                                      Personagens
Antonio Fernandes Neto                                             D
Pâmella Priscilla Rosa Rodrigues                                A
Thales Rangel                                                            P
Clélio Cardoso                                                           Lucas

Foto: Paula Carvalho

FRAGMENTO DE TEATRO I
Fragmento de Teatro i, da década de 60, põe em cena, num canto de rua, dois inválidos, em vias de decomposição. São: um cego, designado como A, que, sentado, arranha seu violino e só se detém para esmolar, voltando porém novamente à sua música; e um paralítico, B,  que chega numa cadeira de rodas, movida graças a uma vara. E embora o paralítico proponha ao cego uma espécie de sociedade – viverem juntos -, isto é inviável. Não podem ajudar-se; são os eternos carrasco e vítima,um do outro. O aleijado golpeia o cego, e o cego arranca-lhe a vara que é seu apoio, sua proteção, reduzindo-o à impotência. Impossível a amizade. Impossível a ajuda recíproca que seria benéfica a ambos... É a dificuldade do relacionamento humano, presente já em Esperando Godot e Fim de Partida, entre outros.

Elenco                                                                         Personagens
Gabriel Fraga                                                               A
Aramis Dalisio Freire Model                                           B

Foto: Eugênio Barboza
FRAGMENTO DE TEATRO II
Também da década de 60, é essa peça de teatro interrompida. Suas últimas palavras são de surpresa: “Bem, eu quero ser...!”, proferida por um dos secretários da personagem C. Esta contratara dois, designados A e B, para realizarem uma pesquisa de sua vida. C está imóvel e mudo, de costas para o público, diante de uma alta  janela aberta para o céu, à noite, enquanto os secretários que vieram instalar-se às suas mesas de trabalho, tagarelam todo o tempo e comentam sobre a vida do pesquisado, que parece ser alguém importante. Mas a peça se interrompe, quando um dos secretários manifesta sua surpresa: tendo-se aproximado da janela onde se encontra C, olhara o seu rosto.

Elenco                                                                      Personagens
Thales Rangel                                                           C
Madalenna Leandra Alves Martins                               A
Laercio Giovanni Santos Oliveira                                 B

Foto: Paula Carvalho

O TEATRO DE SAMUEL BECKETT 
Beckett nasceu em Dublin, na Irlanda, em 1906; viveu fora de seu país a maior parte da vida, ganhou o prêmio Nobel , em 1969, e faleceu em Paris em 1989. Considerado o grande trágico do século XX, que pinta o absurdo da condição humana, as grandes dificuldades do homem moderno, sem absoluto, sem Deus, completamente desamparado num universo hostil, desprovido de qualquer sentido. Seus personagens são seres conformados com as mais absurdas situações. Falam, porém, ininterruptamente, como para esquecer as suas amarguras e dar um sentido à própria vida. Este tema trágico se inicia com sua primeira e mais famosa peça Esperando Godot  (1953) onde a única esperança de dois vagabundos consiste em “esperar Godot”, isto é, esperar que algo aconteça. Por mais miserável e dolorosa que seja a condição humana, na qual todas as provações são gratuitas, ela presta-se a um riso cruel, um riso masoquista. Um humor negro rangente, ridículo, trivial percorre a obra dramática de Beckett tanto nas situações imutáveis como na linguagem. E essa linguagem, que exclui todos os atrativos do estilo, do pitoresco, da descrição e da anedota, constitui, no fim das contas, o poema do nascimento da linguagem. A mensagem, nas peças de Beckett, não vem enunciada explicitamente, mas é transmitida ao espectador através do gestual e da linguagem simbólica. 

EXERCÍCIO CÊNICO: MINHA CABEÇA ERA UMA MARRETA

Exercício de encenação da Oficina para Formação de Atores da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo com coordenação de Tânia Farias, Paulo Flores e Clélio Cardoso.

MINHA CABEÇA ERA UMA MARRETA
Minha Cabeça Era Uma Marreta é uma das mais polêmicas e enigmáticas peças de Richard Foreman, um dos dramaturgos mais controvertidos e badalados dos Estados Unidos. Em cena um professor, um aluno e uma aluna. Onde estão? Numa sala de aula? No santuário do saber? Ou num manicômio? Durante todo tempo o jogo incessante entre quem detém o saber e aqueles que o desejam. Fechados em conceitos, os donos da verdade condicionam a vida. A peça é a indagação do próprio processo do pensamento e dos mecanismos que intervem no pensamento. Nem o olho nem o ouvido do espectador são capazes de encontrar um ponto fixo no qual se concentrarem, bombardeado por uma multiplicidade de eventos visuais e auditivos.  O roteiro é fragmentado, composto de frases curtas, aforísticas, desconectadas. A peça funciona como um poema aberto possibilitando que os espectadores façam suas próprias associações. Seu tratamento formal é produto da reflexão de que a sociedade se expressa com uma linguagem fossilizada que se deve destruir, refletindo aquilo em que se converteu: fórmulas vazias, diálogos que na realidade são trágicos monólogos, perguntas que não exigem respostas, puros automatismos, paradoxos e incoerências. Seu teatro requer novos instrumentos de análises: se faz necessário pensar em termos de energia, tensão, linhas de força e variações de intensidade. Artistas como Foreman operam o fragmento enquanto discurso buscando uma linguagem que estruture a polifonia cênica. A cena de Richard Foreman é emblemática da narrativa caótica, fragmentária, suportada numa textualidade minimal – e plena de marcações, a exemplo de Beckett -, em estruturas invisíveis, constitutivas da linguagem, que estabelecem tensões dialéticas entre a encenação e movimento dos atores. Sobre a recepção, Foreman coloca: ‘o público precisa aprender a ver pequeno, nas entrelinhas, porque fazer isto significa engajar-se no nível quântico da realidade em que as contradições estão ancoradas’.

Elenco                                                                      Personagens
Felipe Fiorenza Nunes                                                Professor
Carlos Eduardo de Oliveira Arruda                                Aluno                              
Rochelle Luiza da Silveira                                            Aluna

Foto: Paula Carvalho



O TEATRO DE RICHARD FOREMAN
Richard Foreman (1937), que fundou em 1968 o Teatro Ontológico-Histérico, publicou na década de 70 três “manifestos ontológicos-histéricos” informais que salientam o fato fenomenológico da experiência teatral. Foreman acha que todo teatro tradicional, inclusive experiências recentes como as de Brook, Grotowski e Chaikin, se baseia na mesma premissa: a de que o espectador deve ser “apanhado” em algum tipo de comprometimento emocional. Citando Ludwig Wittgenstein e Gertrude Stein como precursores, propõe, ao contrário, um teatro que chame a atenção para a existência de cada instante e para o “processo interseccional” que é a “perpétua constituição e reconstituição do eu”. O novo teatro “deixa traços nessa intersecção” e promove “uma corajosa sintonia do velho eu com a nova consciência”. O objetivo não é colocar alguma idéia ou emoção imaginada ante os olhos da platéia mas, ao contrário, pressionar essa platéia a questionar suas premissas e, nessa desintegração, revelar o “agora fugidio” que nenhum artista pode conceber ou fixar. A obra de arte encorajará o espectador a ver o que está ali e a ver a si próprio vendo; ela nos instalará “naquilo que há para ser vivido”. Recorrendo a uma metáfora da física, Foreman sustenta que a obra de arte deve produzir uma faísca de antimatéria, sendo a matéria “as idéias persistentes que constituem o mundo, os restos mortos de antigos momentos criadores”.  Como a faísca, a obra é imediatamente aniquilada, acrescentando seu resto morto ao mundo, mas proporcionando um átimo de visão da realidade imanente e fazendo da sucessão imediata desses instantes o objetivo da arte.