DUAS CARTAS PARA MEIERHOLD (Continuação)

  Caríssimo Meyerhold, Desculpe a formalidade, mas ela deve-se ao fato de ter te conhecido há pouco tempo, apesar de já fazer praticamente 1 ano (ou seria mais?) desde que fui convidada pelo Henrique Saidel a ver a encenação de um texto criado pelo dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky que mistura sua trajetória com os desassossegos vividos por ti no cárcere. Ao lembrar daquela noite muitas sensações e sentimentos se misturam, há pouco havia me mudado para Porto Alegre, era a primeira vez no espaço Terreira da Tribo e que via a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em um espaço fechado. Mergulhar no seu imaginário criativo naquele momento acompanhava novas aberturas no meu próprio cárcere privado que constantemente é renovado pelo nomadismo voluntário que me impulsiona a viver em constante revolução cultural, estética e política por esse Brasil.     No entanto, me sinto um pouco envergonhada de ter te conhecido tão tardiamente e esta ser a primeira vez que te escrevo. Sint

Terreira da Tribo completa 29 anos!


Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
Centro de Experimentação e Pesquisa Cênica e Escola de Teatro Popular


A Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é hoje um dos principais centros de investigação cênica do país. Criada em 1984 no Bairro Cidade Baixa, sob o signo do teatro revolucionário de Antonin Artaud, a Terreira é um atelier artístico onde se desenvolve múltiplas atividades. Desde as oficinas teatrais de iniciação, pesquisa de linguagem e treinamento de atores, até a elaboração e montagem dos espetáculos do Ói Nóis Aqui Traveiz. Ao mudar de endereço para o Bairro Navegantes, em 2000, a Terreira se transforma em Escola de Teatro Popular, com o objetivo de preservar, difundir e socializar a proposta estética e política desenvolvida desde 1978 pelo grupo. O nome desse espaço feminino, telúrico e anarquista vem de terreiro, lugar de encontro do ser humano com o sagrado. É um espaço que possibilita a sua utilização de muitas formas. É na Terreira que a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz cria o seu Teatro de Vivência, com seus ambientes cênicos onde o espectador integrado ao espaço torna-se participante do ato teatral.
A Terreira da Tribo abrigou desde a sua criação diversas manifestações culturais, como shows musicais, ciclos de filmes e vídeos, debates e celebrações, além de oportunizar às pessoas em geral o contato com o fazer teatral. Gerida de uma forma libertária pelo Ói Nóis Aqui Traveiz, a Terreira é uma peça fundamental para o desenvolvimento das artes cênicas porto-alegrense. Várias de suas manifestações já foram apropriadas pela cidade, como o Teatro de Rua, hoje com vários grupos atuando regularmente, e as Oficinas de Teatro nos Bairros da periferia. Atualmente, dentro do Projeto “Teatro Como Instrumento de Discussão Social”, a Tribo desenvolve Oficinas Populares de Teatro em seis bairros da Grande Porto Alegre.
A Terreira possibilitou ao Ói Nóis Aqui Traveiz empreender uma política de sistematização e consolidação da experiência do Teatro de Rua, com montagens de “Teon – Morte em Tupi-Guarani” (1985), “A Exceção e a Regra” de Bertolt Brecht (1987 e 1998), “A História do Homem que Lutou sem Conhecer seu Grande Inimigo” de Augusto Boal (1988), “Dança da Conquista” (1990), “Deus Ajuda os Bão” de Arnaldo Jabor (1991), “Se Não Tem Pão, Comam Bolo!” (1993), “Os Três Caminhos Percorridos por Honório dos Anjos e dos Diabos” de João Siqueira (1993), “Independência ou Morte!” (1995), “A Heroína de Pindaíba” (1996), “A Saga de Canudos” (1999) e “O Amargo Santo da Purificação – Vida, Paixão e Morte do Revolucionário Carlos Marighella” (2008). Desde 1988 a Tribo desenvolve o Projeto “Caminho Para Um Teatro Popular”, criando um circuito regular de apresentações em ruas, praças e vilas populares. 
Dentro do espaço da Terreira da Tribo encenou os espetáculos “A Visita do Presidenciável” (1984), “As Domésticas” de Jean Genet (1985), “Fim de Partida” de Samuel Beckett (1986), “Ostal” (1987), “Antígona Ritos de Paixão e Morte” (1990), “Missa Para Atores e Público sobre a Paixão e o Nascimento do Dr. Fausto de Acordo com o Espírito de Nosso Tempo” (1994), “A Incrível História de Heracles” (1995), “Álbum de Família” de Nelson Rodrigues (1996), “A Morte e a Donzela” de Ariel Dorfmann (1997), “Hamlet Máquina” de Heiner Müller (1999), “Kassandra in Process –  A Gênese” (2001), “Aos Que Virão Depois de Nós – Kassandra in Process” (2002),  “A Missão (Lembrança de Uma Revolução)” de Heiner Müller (2006). Em 2011 dentro da vertente de Teatro de Vivência a Tribo encenou “Viúvas – Performance sobre a ausência” na Ilha do Presídio.
A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz realiza ainda as ações Mostra Ói Nóis Aqui Traveiz – Jogos de Aprendizagem (mostra do processo pedagógico das oficinas), Festival de Teatro Popular – Jogos de Aprendizagem (com mostra de processos pedagógicos e apresentações de grupos do Brasil e da América Latina). Lançou em 2004 o selo Ói Nóis Na Memória que já publicou seis livros e três DVDs; edita a CAVALO LOUCO – Revista de Teatro que é distribuída nacionalmente a escolas de arte, universidades, bibliotecas públicas, pesquisadores, críticos e grupos de teatro.
Toda a trajetória da Terreira foi marcada pela ruptura, invenção e intervenção, buscando a transformação do teatro e da sociedade. Em 2009, novamente em outro espaço alugado (Bairro São Geraldo), a Tribo luta pela construção de uma sede definitiva no lugar de origem da Terreira, o Bairro Cidade Baixa.