A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

Rememorando os 21 anos de um massacre

Exercício Cênico
Os Sinos da Candelária 

Foto: Eugenio Barboza


Em 23 de julho de 1993 o Rio de Janeiro foi sacudido por um crime covarde, onde crianças foram assassinadas enquanto dormiam em frente à Igreja da Candelária. Na próxima quarta feira, data que marca os 21 anos deste massacre, a Oficina Popular de Teatro, do projeto Teatro Como Instrumento de Discussão Social da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz estará apresentando o exercício cênico “Os Sinos da Candelária”. A montagem aborda uma das questões mais agudas da exclusão social no Brasil – o menor abandonado, e através de cenas do cotidiano retrata os meninos e meninos de rua nos dias que antecedem a chacina. 

A apresentação será dia 23 de julho, às 20h30 na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186). Entrada Franca!

O aniversário do crime é motivo para reflexão sobre a persistência da violência policial no Brasil. No caso do Rio de Janeiro, passadas mais de duas décadas, ocorreu uma sucessão de execuções extrajudiciais do mesmo tipo. Desde a Candelária, houve chacinas em Vigário Geral (1993), com 21 mortos; no morro do Borel (2003), com quatro mortos; na Via Show (2003), com 4 mortos; e na Baixada Fluminense (2005), com 29 mortos. Todas foram cometidas por policiais e as vítimas foram majoritariamente adolescentes negros e pobres

“Os Sinos da Candelária”

Os Sinos da Candelária é um exercício cênico da Oficina Popular de Teatro, que a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz ministra na cidade de Canoas. Esta oficina faz parte do projeto “Teatro com Instrumento de Discussão Social”.

O projeto “Teatro com Instrumento de Discussão Social” é desenvolvido através de oficinas de teatro realizadas pelos atuadores da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em diversos bairros da cidade de Porto Alegre e no centro de Canoas. As oficinas pretendem abrir espaço para sensibilização e experiência do fazer teatral, apostando no teatro como instrumento de indagação e conhecimento de si mesmo e do mundo, assim como veículo de formação, informação e transformação social. Entendendo a cultura como agente formador de mentalidades com conseqüente influência direta na condução dos rumos da sociedade, e a atividade teatral como a mais objetiva das manifestações artísticas na reflexão do homem sobre si e sua realidade social.

Foto: Eugenio Barboza
Sobre a peça:
Em 1993 o Rio de Janeiro foi sacudido por um crime covarde, onde crianças foram assassinadas enquanto dormiam em frente à Igreja da Candelária. Este fato originou a peça “Os Sinos da Candelária” da escritora e compositora Aurea Charpinel. E é sobre este texto teatral que a Oficina Popular de Teatro da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz na cidade de Canoas vem desenvolvendo o seu trabalho no ano de 2013/2014, abordando uma das questões mais agudas da exclusão social no Brasil – o menor abandonado. 
Adaptação livre do texto de Aurea Charpinel a peça traz para cena esses meninos e meninas de rua no seu cotidiano, personagens reais trazendo no corpo e na alma a marca da violência. Através de cenas do cotidiano – nas ruas e nas instituições do governo - a peça conta a história de um grupo de crianças e adolescentes nos dias que antecederam o Massacre da Candelária, culminando na cena de violência extrema que consternou o mundo “civilizado” e encheu de vergonha e tristeza os muitos brasileiros que não compactuam com este tipo de bestialidade.

Este trabalho é orientado pela atuadora Paula Carvalho da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. A Oficina tem parceria com o grupo “Pode ter Inço no Jardim” da cidade de Canoas.

Sonoplastia: Pascal Berten

Com:
Eduarda Gheller, Lucas Gheller, Sirlandia Gheller, Thaynan Kraetzig, Janete Costa, Raquel Amsberg, Giovane Nunes, Cláudia Cezar, Júlio César Santos, Maitê Masiero, Débora Duarte Campos, Fabiane Amorim, Ana Mengue, Sara Aparecida Santos, Maria Senilda, e Djean Costa . 


Foto: Eugenio Barboza