A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

A dez dias a Tribo performa sobre a ausência em solos Argentinos...


A ação performática “Onde? Ação nº2”, que de forma poética contribui para a discussão sobre os desaparecidos políticos na America Latina está sendo apresentada em diversas províncias da Argentina, através do 9º Circuito Nacional de Teatro.

Em um primeiro momento da performance cada mulher com sua cadeira vazia, realiza seu protesto silencioso, onde a ausência se faz presente. Um olhar mais atento observa que aos poucos vão surgindo mais mulheres e mais cadeiras. Elas encontram-se, e ali, evocam nomes de homens e mulheres que construíram a história do nosso país e que lutaram por um Brasil livre.

Já é sabido que o Brasil ainda está muito atrasado na discussão que diz respeito à preservação da memória e a efetivação da justiça pelos crimes cometidos pelo Estado, durante os anos sangrentos da ditadura militar. Observando as mais diversas cidades por onde a Tribo passou até o momento, percebemos que existe uma reflexão muito mais profunda sobre a verdadeira história do país. Centros de memória espalhados por diversos cantos da cidade, monumentos com nomes dos seus desaparecidos ao alcance do olhar, um país, onde é constante a busca por manter viva a memória destes tenebrosos tempos de autoritarismo e de violação à vida. 

Podemos ver de perto exemplos como o das Madres e Abuelas de Maio que corajosamente perpassaram décadas realizando os seus protestos e ainda hoje contribuem para o resgate da identidade do povo argentino. 

E no Brasil?! Onde? Onde? Onde? Eis a questão que ecoa pelos ares em busca de respostas! Até quando vão manter a História trancada nos porões clandestinos da ditadura?

El otro soy yo! Histórias de vidas que se mesclaram com a história de um continente que tentaram calar, sufocar. Mas que pulsa, grita, se debate. Intensamente!

Confira abaixo imagens da Tribo em Rosario e Santa Rosa de la Pampa:

Rosario - Santa fé
(Clique para ampliar)











Santa Rosa - La Pampa













Fotos: Pedro Rosauro e Eugênio Barbosa.