Santos Amargos

Paulo Bio Toledo - (Cavalo Louco Revista de teatro, dezembro de 2009)
[...] O dom de Despertar no passado as centelhas da esperança é um privilégio exclusivo do Historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
Walter Benjamin Sobre o conceito da história
Necrofilia é o amor ao futuro Heiner Müller

Fotos de Pedro Isaias Lucas 
Anjos
A famosa metáfora do anjo da história do pensador alemão Walter Benjamin – interpretação poética da pintura Angelus Novus, de Paul Klee – retrata um anjo que observa o passado amontoado de entulho e destroços da civilização, mas não pode parar, é incessamente puxado ao futuro pelos ventos do Progresso.
Heiner Müller reescreve a imagem. Seu anjo olha a frente. Observa o futuro “represado, esmagando seus olhos”, mas a pilha de destroços é mais rápida que ele e o comprimento no instante: entre o passado e o futuro.Imobilizado, esmagado. Até que: “um renovado rufar de pod…

Onde? Ação nº2 - ARGENTINA

Confira as imagens da Performance Onde? Ação nº2 nas províncias de San Juan e Mendoza.

San Juan

A água sabe, a água passou por aí, a água tem curiosidade, quer saber...
       Inunda os ouvidos, inunda teus olhos...

Dentro da boca deposita e leva  as palavras,
desde os lugares mais profundos,  as memórias, a dor vai levar...


Vai levar as histórias pelo rio dos rios, contando e cantando as histórias para  o mar.
Cantará aos vales com a voz de pedra,  a água que a garganta bebe.


A chuva que ele vê,  o barro em que ele anda, a sopa suja que eles comem, o suor que cai.


 E essa outra água,  essa outra água e os ecos da água...
Porque alguns rios são largos e calmos, verdes e suaves.


E alguns são altos e cortantes,  caem desde as montanhas, e o nosso é  um rio, liso, frio e ocre, e nos traz nossos homens.



Sobre as pedras dormidas,  roda até onde esperamos, mas são tantos os homens que desapareceram,
ou foram mortos, tantos que o rio não pode levar.


Mendoza 

Demasiadas histórias, para que o rio as relate,
demasiadas histórias,  assim nos trouxe um dos homens,


e o queimaram, e nos trouxe outro mais,
para que o enterrássemos sobre a colina,  e rodou o corpo, e o carregou.


E o murmurou até que todos os traços ficassem polidos,
e nos encontrou este corpo e o fez um corpo qualquer, e o fez todo corpo.


É meu, é meu, queira Deus que não seja meu.
É meu, é meu, por favor que não seja meu.


É meu, é meu, queira Deus que não seja meu.


É meu, é meu, por favor que não seja meu...

Texto da obra "Viúdas" de Ariel Dorfman
Fotos: Pedro Rosauro