ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 2]

    Com um mês de atividades o Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz foi interditado pela Secretaria de Segurança. Aí começou uma longa campanha pela reabertura do teatro. O fechamento agravou a situação econômica do grupo e a saída de alguns dos seus integrantes. Para vencer a crise o grupo buscou outros espaços para encenar o seu espetáculo. Também é o momento em que o grupo começou a compartilhar as suas experiências através de uma oficina de teatro. E é principalmente com os jovens desta oficina que criou a montagem de “A Bicicleta do Condenado”, do espanhol Fernando Arrabal: um preTexto para a reVolta do Ói Nóis Aqui Traveiz. Durante o processo de criação integrantes do grupo foram presos em manifestações contra a ditadura. Essa experiência de repressão e violência foi canalizada para a cena. A reabertura do Teatro trouxe para a encenação uma história de opressão e horror, onde duas pessoas tentam sobreviver em um lugar comandado por uma ordem militar. Se no primeiro espetáculo o público fi

Viúvas Performance sobre a Ausência no Forte de Santo Amaro - Santos set/2016

Por Cris Komesu/Sesc SP

Final de tarde no porto. A experiência de Viúvas começa com o pôr do sol entre os navios: chegamos bem a tempo de ver os cargueiros e pequenos barcos desfilarem pelo canal, tingidos com as últimas luzes amarelas e vermelhas. A lua cheia vem em seguida, como se anunciasse o início do espetáculo.


Embarcamos em direção ao Museu Histórico Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande. Lentamente, a orla recém-iluminada se distancia: a travessia é curta, mas é também uma viagem no tempo e espaço. Os muros da fortaleza militar construída no século XVI nos recebem (ou será que repelem?) e ajudam a construir a cena.
  
Desembarcamos. Homens abrem caminho marchando, armas em punho. A disciplina e a ordem combinam com a arquitetura rígida, branca. Do alto, um ditador anuncia um futuro de paz, mas com uma condição: que se esqueça o passado, seus massacres e seus mortos. Um símbolo dos regimes militares que se instalaram em diversos países da América Latina.


A peça avança e caminhamos junto, percebendo pelo chão as pedras que margeiam o monumento. Pontudas, irregulares, se soltam e mostram que a ordem não é tão absoluta assim. São como as viúvas (e mães, filhas, irmãs), que resistem na figura de Sophia. Ela não quer esquecer: segue na busca dos que foram levados pela ditadura.




Nós seguimos também, enquanto o espetáculo ocupa diferentes espaços. Subimos ao topo, entramos no salão, margeamos os muros, espiamos os cantos. E a fortaleza, antes tão rígida, se transforma: é também onde se pila o milho, onde se brinda a festa, onde a repressão mostra os seus horrores e onde as mulheres esperam os homens que nunca retornarão.





Inquietos, sempre na expectativa do próximo passo, também estamos à espera. Não sabemos exatamente o que buscar, mas é impossível resistir à caminhada que traz descobertas a cada movimento, capaz de nos fazer ver água onde há apenas rocha. A certeza que nos resta é o desejo de não esquecermos a beleza de cada cena, assim como as viúvas não esquecem as dores de suas perdas.

Fotos: Matheus José Maria

Matéria publicada originalmente em:
http://mirada.sescsp.org.br/digital/viuvas-espaco-em-cena/