O FAUSTO BRILHANTE

Rafael Baião*E ou toda beleza que não é puramente bela e necessariamente belo a menos que seja (in) completo.- Mas se é espetáculo! Logo é belo (!) (?)- Logu é belo?- Logo não era necessário discutir o belo e o logo nem se fala.- Sem muito belelego vamos ao principal: Vi o FAUSTO da Terreira, pela primeira vez, numa sexta-feira, eu acho, de 1994, setembro. Transa com beleza, a feiúra, a razão, o sentimento. Saí me perguntando se entendi ou não, ou se era claro que tinha entendido. Quis ver de novo e vi. Tinha muita gente, uma plateia receptiva e ágil.  Essa montagem do Grupo ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ é denominada missa (quem quiser, comunga). Conta a história de um sábio, Dr. Fausto, que faz um pacto com o Cujo, a fim de saciar sua sede de conhecimento. Salva-se por sua insatisfação! Tudo que Mephisto oferece – dinheiro, paixões, terras, poderes... – lhe é insuficiente. Ele ultrapassa os limites de seu cúmplice. Não se rende, não se vende; arrepende-se, transforma-se. Tran…

Viúvas Performance sobre a Ausência no Forte de Santo Amaro - Santos set/2016

Por Cris Komesu/Sesc SP

Final de tarde no porto. A experiência de Viúvas começa com o pôr do sol entre os navios: chegamos bem a tempo de ver os cargueiros e pequenos barcos desfilarem pelo canal, tingidos com as últimas luzes amarelas e vermelhas. A lua cheia vem em seguida, como se anunciasse o início do espetáculo.


Embarcamos em direção ao Museu Histórico Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande. Lentamente, a orla recém-iluminada se distancia: a travessia é curta, mas é também uma viagem no tempo e espaço. Os muros da fortaleza militar construída no século XVI nos recebem (ou será que repelem?) e ajudam a construir a cena.
  
Desembarcamos. Homens abrem caminho marchando, armas em punho. A disciplina e a ordem combinam com a arquitetura rígida, branca. Do alto, um ditador anuncia um futuro de paz, mas com uma condição: que se esqueça o passado, seus massacres e seus mortos. Um símbolo dos regimes militares que se instalaram em diversos países da América Latina.


A peça avança e caminhamos junto, percebendo pelo chão as pedras que margeiam o monumento. Pontudas, irregulares, se soltam e mostram que a ordem não é tão absoluta assim. São como as viúvas (e mães, filhas, irmãs), que resistem na figura de Sophia. Ela não quer esquecer: segue na busca dos que foram levados pela ditadura.




Nós seguimos também, enquanto o espetáculo ocupa diferentes espaços. Subimos ao topo, entramos no salão, margeamos os muros, espiamos os cantos. E a fortaleza, antes tão rígida, se transforma: é também onde se pila o milho, onde se brinda a festa, onde a repressão mostra os seus horrores e onde as mulheres esperam os homens que nunca retornarão.





Inquietos, sempre na expectativa do próximo passo, também estamos à espera. Não sabemos exatamente o que buscar, mas é impossível resistir à caminhada que traz descobertas a cada movimento, capaz de nos fazer ver água onde há apenas rocha. A certeza que nos resta é o desejo de não esquecermos a beleza de cada cena, assim como as viúvas não esquecem as dores de suas perdas.

Fotos: Matheus José Maria

Matéria publicada originalmente em:
http://mirada.sescsp.org.br/digital/viuvas-espaco-em-cena/