Santos Amargos

Paulo Bio Toledo - (Cavalo Louco Revista de teatro, dezembro de 2009)
[...] O dom de Despertar no passado as centelhas da esperança é um privilégio exclusivo do Historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
Walter Benjamin Sobre o conceito da história
Necrofilia é o amor ao futuro Heiner Müller

Fotos de Pedro Isaias Lucas 
Anjos
A famosa metáfora do anjo da história do pensador alemão Walter Benjamin – interpretação poética da pintura Angelus Novus, de Paul Klee – retrata um anjo que observa o passado amontoado de entulho e destroços da civilização, mas não pode parar, é incessamente puxado ao futuro pelos ventos do Progresso.
Heiner Müller reescreve a imagem. Seu anjo olha a frente. Observa o futuro “represado, esmagando seus olhos”, mas a pilha de destroços é mais rápida que ele e o comprimento no instante: entre o passado e o futuro.Imobilizado, esmagado. Até que: “um renovado rufar de pod…

Viúvas Performance sobre a Ausência no Forte de Santo Amaro - Santos set/2016

Por Cris Komesu/Sesc SP

Final de tarde no porto. A experiência de Viúvas começa com o pôr do sol entre os navios: chegamos bem a tempo de ver os cargueiros e pequenos barcos desfilarem pelo canal, tingidos com as últimas luzes amarelas e vermelhas. A lua cheia vem em seguida, como se anunciasse o início do espetáculo.


Embarcamos em direção ao Museu Histórico Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande. Lentamente, a orla recém-iluminada se distancia: a travessia é curta, mas é também uma viagem no tempo e espaço. Os muros da fortaleza militar construída no século XVI nos recebem (ou será que repelem?) e ajudam a construir a cena.
  
Desembarcamos. Homens abrem caminho marchando, armas em punho. A disciplina e a ordem combinam com a arquitetura rígida, branca. Do alto, um ditador anuncia um futuro de paz, mas com uma condição: que se esqueça o passado, seus massacres e seus mortos. Um símbolo dos regimes militares que se instalaram em diversos países da América Latina.


A peça avança e caminhamos junto, percebendo pelo chão as pedras que margeiam o monumento. Pontudas, irregulares, se soltam e mostram que a ordem não é tão absoluta assim. São como as viúvas (e mães, filhas, irmãs), que resistem na figura de Sophia. Ela não quer esquecer: segue na busca dos que foram levados pela ditadura.




Nós seguimos também, enquanto o espetáculo ocupa diferentes espaços. Subimos ao topo, entramos no salão, margeamos os muros, espiamos os cantos. E a fortaleza, antes tão rígida, se transforma: é também onde se pila o milho, onde se brinda a festa, onde a repressão mostra os seus horrores e onde as mulheres esperam os homens que nunca retornarão.





Inquietos, sempre na expectativa do próximo passo, também estamos à espera. Não sabemos exatamente o que buscar, mas é impossível resistir à caminhada que traz descobertas a cada movimento, capaz de nos fazer ver água onde há apenas rocha. A certeza que nos resta é o desejo de não esquecermos a beleza de cada cena, assim como as viúvas não esquecem as dores de suas perdas.

Fotos: Matheus José Maria

Matéria publicada originalmente em:
http://mirada.sescsp.org.br/digital/viuvas-espaco-em-cena/