A vanguarda gaúcha em ação

Marcelo Marchioro ( O Estado do Paraná, 29 de Junho de 1979)   Para todos aqueles que procuram a renovação de tudo aquilo que está de uma maneira ou outra ligada ao homem, para todos os que são suficientemente abertos para receberem novas idéias e concepções e se colocam contra qualquer tipo de estagnação, para todos os que possuem uma visão ampla e irrestrita do que seja cultura e das várias maneiras pelas quais ela se manifesta, para todos aqueles que são receptivos (se não para gostar, ao menos para analisar) às novas e válidas propostas de trabalho e têm condições de entender o que seja um espetáculo consciente e revitalizador, hoje é o último dia para assistir a “Ensaio Selvagem” às 21 horas no Teatro Universitário de Curitiba, produção do grupo gaúcho “Ói Nóis Aqui Traveiz”.   Em geral, novas propostas ou manifestações de vanguarda (principalmente quando se trata de cultura) sempre são encaradas pelo público com muitas ressalvas, especialmente por aquela grande camada tradi

Viúvas Performance sobre a Ausência no Forte de Santo Amaro - Santos set/2016

Por Cris Komesu/Sesc SP

Final de tarde no porto. A experiência de Viúvas começa com o pôr do sol entre os navios: chegamos bem a tempo de ver os cargueiros e pequenos barcos desfilarem pelo canal, tingidos com as últimas luzes amarelas e vermelhas. A lua cheia vem em seguida, como se anunciasse o início do espetáculo.


Embarcamos em direção ao Museu Histórico Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande. Lentamente, a orla recém-iluminada se distancia: a travessia é curta, mas é também uma viagem no tempo e espaço. Os muros da fortaleza militar construída no século XVI nos recebem (ou será que repelem?) e ajudam a construir a cena.
  
Desembarcamos. Homens abrem caminho marchando, armas em punho. A disciplina e a ordem combinam com a arquitetura rígida, branca. Do alto, um ditador anuncia um futuro de paz, mas com uma condição: que se esqueça o passado, seus massacres e seus mortos. Um símbolo dos regimes militares que se instalaram em diversos países da América Latina.


A peça avança e caminhamos junto, percebendo pelo chão as pedras que margeiam o monumento. Pontudas, irregulares, se soltam e mostram que a ordem não é tão absoluta assim. São como as viúvas (e mães, filhas, irmãs), que resistem na figura de Sophia. Ela não quer esquecer: segue na busca dos que foram levados pela ditadura.




Nós seguimos também, enquanto o espetáculo ocupa diferentes espaços. Subimos ao topo, entramos no salão, margeamos os muros, espiamos os cantos. E a fortaleza, antes tão rígida, se transforma: é também onde se pila o milho, onde se brinda a festa, onde a repressão mostra os seus horrores e onde as mulheres esperam os homens que nunca retornarão.





Inquietos, sempre na expectativa do próximo passo, também estamos à espera. Não sabemos exatamente o que buscar, mas é impossível resistir à caminhada que traz descobertas a cada movimento, capaz de nos fazer ver água onde há apenas rocha. A certeza que nos resta é o desejo de não esquecermos a beleza de cada cena, assim como as viúvas não esquecem as dores de suas perdas.

Fotos: Matheus José Maria

Matéria publicada originalmente em:
http://mirada.sescsp.org.br/digital/viuvas-espaco-em-cena/