A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

A roda gira, o palco também. Sopram os ventos e nosso pequeno “barcotribo” navega. Destino: o outro.

Maio 2017
Circuito Palco Giratório


A roda gira, o palco também. Sopram os ventos e nosso pequeno “barcotribo” navega. 
Destino: o outro.

Como tripulantes desta embarcação, sabemos que estamos em alto mar, no meio da Tempestade. Sentimos pelo ritmo apertado do passo do viajante que este mesmo mar não está para peixe. Temos a sensação de que estamos afundando. Rema! Rema!

Como tripulantes desta embarcação, sabemos que os tempos não são (e talvez nunca foram) fáceis para os sonhadores, os loucos, os apaixonados, os poetas que têm sede e fome por justiça. Sabemos também que “a influencia da estrutura é forte e que nós somos fracos/frágeis”.

Sabedores e não sabidos de tudo isso, na quarta feira passada, num dia 10, no mês que era de maio, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (RS) e o grupo Bando de Palhaços (RJ) se encontraram em uma pequena sala, nas dependências do Espaço Cultural – Escola SESC em Jacarepaguá. Compatilhamos o riso, a energia, o jogo, as histórias, as canções, o calor y otras cositas más.

Era o intercâmbio proposto pelo Circuito Nacional Palco Giratório acontecendo no Rio de Janeiro.
Se existe algo potente e transformador, esse algo se dá a partir do contato com o outro. O encontro.

- somos frágeis
- sim somos.

Mas ouvi dizer que “nessa batalha vence o frágil, porque o forte está rígido e podre, mas os frágeis, ah os frágeis estão flexíveis e estão vivos”.

Seguimos! Adelante! Como pequenas ilhas de desordem, que resistem. Façamos a travessia para chegar a outras ilhas hermanas. Coloquemos nossos barcos no mar. Façamos do amanhã um outro dia. E que sejam dias melhores.

Evoé!
#ForaTemer







Fotos: Pedro Isaias Lucas