MEDEIA: DO MITO ATÉ MEDEIA VOZES | Jorge Arias

Fotos de Pedro Isaías Lucas Medeia é um dos grandes enigmas da literatura ou, talvez, da história. O primeiro enigma é se existiu uma Medeia, real e histórica, uma mulher de carne e ossos, sobre a qual foi construído um mito, uma lenda, como aconteceu com os heróis lendários de Troia, que realizaram grandes, difíceis e impossíveis façanhas, mas tiveram como base alguma realidade, de alguma forma existiram. Alguns aspectos negam o caráter puramente mítico da história: a viagem dos argonautas até a Cólquida na margem oriental do Mar Negro, em busca do velocino de ouro, está de acordo com as expedições comerciais dos gregos; as intrigas do palácio, como o exílio de Medeia em Corinto, têm uma cor de verdade; e, acima de tudo, a apaixonada controvérsia sobre se ela matou ou não seus filhos. Não se discute ou, ao menos, não é comum discutir o que faz ou não faz uma personagem de ficção.     O segundo enigma é o caráter dela. Medeia é neta de Hélio, sacerdotisa de Hécate, feiticeira, brux

Tempestade Tropical: Tenho uma nega chamada Surpresa – Por Luiz Renato

Proposição artística: Caliban – A Tempestade de Augusto Boal – Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz ( RS)

Por Luiz Renato

Antonio Garcia Couto

O senhor é convosco e o espetáculo, cheio de graça! Ariel Próspero Caliban, a trindade do todo poderoso capitalismo selvagem. Aos apupos de Fora Temer a plateia que assistiu à chegada da caravela pela Orla do Porto conformou-se com o histórico de dominação ao longo do espetáculo. A identificação com algum personagem foi quase que inusitada. Uns mais para Ariel, aéreos, em sua etérea existência, outros mais ao sabor sarcástico de Caliban, uma besta-fera terrena na qual, segundo Boal, a humanidade se inspira. Alegorias à parte, a tribo de atuadores faz mais uma das suas. E Cuiabá agradece, fazendo mesuras aos trinta e nove anos dessa trupe.

Em alguns pontos isolados da cidade caiu uma chuva no início da tarde, mas nada comparada a essa tempestade de conceitos e à verossimilhança que nos transforma em partícipes desse mau tempo. Um tempo de mudança de ares, sonoramente inspirada por Ariel, essa marca de sabão em pó que se faz de alvejante para as impurezas da quadrilha organizada de Caliban. Há muita lenha para se queimar nessa fogueira e a inquisição disfarçada de delação premiada tem cheiro de marmelo. A cachaça rola solta e é hora de se dar uma banana para o que o Próspero anuncia.

Próspero, Ariel e Caliban. Escolha a sua máscara, freguês. Ser um servo fiel e receber sua mesada, ser o calhorda que chafurda a todos em troca de favores, ser alguém que apenas quer estar por perto das benesses do poder. E o espetáculo vai ocupando os espaços vazios.

“Uma tempestade em alto mar; Próspero toma a ilha para si; entre colonizador e colonizado não existe troca de favores; Ariel canta a canção da liberdade burguesa; a resignação é uma arma ideológica contra os pobres; Caliban questiona a obediência cega; Fernando faz trabalhos domésticos; os nobres possuem a visão colonialista e preconceituosa com relação aos nativos da ilha; Caliban convence Trúnculo e Estevam a insurgir-se contra Próspero; o casamento entre Fernando e Miranda se consuma; Caliban afirma a Trúnculo e Estevan que Próspero não possui nenhum direito sobre a ilha; como parte final do plano político, os nobres são perdoados pela traição; tudo permanece igual”.

De dentro de sua tumba Augusto Boal regurgita palavras incompreensíveis para os desatentos. Mas pode-se inferir pelas sensações à flor da pele que ele também se destempera com toda essa farsa. Tanto mar, sei que é preciso navegar, pá; mas somente o fora Temer não nos trará de volta o juízo.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação do Festival Palco Giratório no período de 04/05/2017 a 27/05/2017, no Sesc Arsenal - Cuiabá.