A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

Caliban – A Tempestade de Augusto Boal em Porto Alegre!!!


O espetáculo “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” que está percorrendo de norte a sul do país, como grupo homenageado do 20º Palco Giratório, nesta semana estará soprando os seus ventos em solos gaúchos.

Para quem ainda não assistiu ou gostaria de assistir novamente, a encenação mais recente para teatro de rua da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, será apresentada nos dias 15 e 17 de setembro em Porto Alegre. 

Confira as informações sobre as apresentações:

15 de setembro – 15h – Largo Glênio Peres
17 de setembro – 16h – Redenção

Foto: Pedro Isaias Lucas

Abaixo um texto publicado originalmente no site do SESC – Aracaju, sobre a passagem de “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” pela cidade.

Por Aparecida Onias

Com toda estrutura possível para a realização de um espetáculo, com camarim, disposição de equipamentos, iluminação e estrutura de palco para um espetáculo ao ar livre, o Sistema Fecomércio, por meio do projeto Aldeia Sesc levou a companhia de artes Ói Nóis Aqui Traveiz, grupo com 40 anos de existência, com uma trajetória consolidada no Brasil, que apresentou a peça Caliban – A Tempestade, de Augusto Boal, na praça Fausto Cardoso, na tarde de quinta-feira(18), em uma das etapas do projeto Palco Giratório.
O espetáculo que é uma adaptação de uma obra do eternizado autor William Shakespeare, fala sobre a exploração do colonialismo europeu na América do Sul e sua conquista pelos ibéricos, com uma crítica à postura neocolonialista dos Estados Unidos. A crítica social é latente nas discussões dos personagens sobre o quadro político local.  A história é vista pela perspectiva de Caliban, metáfora dos seres humanos originários da América que foram dizimados e escravizados pelos invasores colonizadores representados pelo personagem Próspero.
Na versão de Boal, próspero é tão perverso quanto os nobres europeus que usurparam o seu poder. Todos representam a violenta dominação colonial e cultural. A filha de Próspero, Miranda, e o príncipe de Nápoles, Fernando, fazem uma aliança não por amor como na peça de Shakespeare, mas sim por interesses capitalistas. Ariel, o “espírito do ar”, representa o artista alienado, mescla de escravo e mercenário a serviço da ordem constituída. Somente Caliban se revolta até ser, finalmente, derrotado. Os vilões permanecem na “ilha tropical” para escravizá-lo. Mesmo escravo, Caliban resiste.

O espetáculo seduziu mais de 200 pessoas que acompanharam a encenação da peça de 1h30 na praça Fausto Cardoso, começando no final da tarde e encerrando ao anoitecer. O público composto por pessoas de todas as idades, estudantes de escolas particulares e públicas, universitários, e transeuntes do Centro de Aracaju, ficou maravilhado com a cenografia, uso de equipamentos como treliças e carros alegóricos, além de fantasias com algo grau de verossimilhança às vestes da idade moderna.
Para a estudante Karoline Costa, Caliban – A Tempestade é um exemplo de como a população deve refletir sobre os problemas sociais. “O Sesc nos trouxe uma grande apresentação que nos leva a pensar sobre o quadro social e nossas condições morais e éticas. Isso nos faz entender melhor os problemas sociais”.

Já o supervisor de Cultura do Sesc, André Santana, lembrou que Caliban é uma encenação que leva Shakespeare para as ruas, aumentando o desenvolvimento cultural da população.

“Estamos trazendo um grande espetáculo que é baseado numa obra do maior dramaturgo de todos os tempos, com uma adaptação para a realidade local. Isso é mais uma atividade promovida pelo Sistema Fecomércio, pelo Sesc, com foco no desenvolvimento cultural”, afirmou Santana. O Projeto Aldeia Sesc de Artes continua até o próximo dia 25 de agosto, com apresentações de dança, música, teatro, grupos folclóricos e manifestações culturais por diversos municípios do estado de Sergipe.


O espetáculo foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2015 e faz parte do Projeto Caliban – Apontamentos sobre O Teatro de Nuestra América, selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural, na edição 2015-2016