A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

Seguimos viagem e desta vez o nosso barco atraca no porto de Salvador!

O espetáculo “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” que está percorrendo o país através do Festival Palco Giratório, chega a Salvador dentro da 13ª edição da Mostra Sesc de Artes – Aldeia Pelourinho. 
As apresentações serão nos dias 31 de setembro e 1º de outubro, às 16h no Terreiro de Jesus.
E na sequencia o grupo parte para Feira de Santana, onde a apresentação será na rua interna do Colégio Estadual Assis Chateaubriand, às 16h.




A IDENTIDADE LATINO-AMERICANA e o COLONIALISMO
As sociedades latino-americanas são marcadas pelas feridas coloniais. São visíveis as inúmeras contradições e complexidades que configuram essas sociedades contemporâneas. Para o Ói Nóis Aqui Traveiz, encenar “Caliban - A Tempestade de Augusto Boal” é gerar outros discursos, histórias e narrativas, produzir e reconhecer outros lugares de enunciação. Caliban é a reivindicação da legitimidade do “diferente”. Caliban é símbolo da identidade latino-americana.
Segundo Retamar, escritor cubano: “Caliban (que é um anagrama de canibal) (...). Vários escritores o tomaram depois como um símbolo. (...) Para mim, um símbolo do povo de Nuestra América e dos povos do Terceiro Mundo.” Miguel Rubio, fundador do grupo peruano Yuyachkani, ao se perguntar sobre o que é o teatro latinoamericano agora, reflete: “O teatro é uma construção cultural que nasce de valores determinados de acordo com a comunidade onde surge, respondendo a relações sociais específicas (...). Torna-se necessário que a linguagem do nosso ofício não resista a usar novos termos e que possamos ir ao encontro de uma teatralidade complexa, que tenha a ver com reconhecer-nos em todos os matizes de uma identidade inclusiva (...). América Latina e Caribe não significam uma coisa única. É o indígena, o africano, o europeu e o contemporâneo, um lugar aberto a todas as práticas cênicas do século XXI. Nosso teatro recolhe o espírito dos três continentes e se alimenta culturalmente dessas três raízes e com elas dialoga em igualdade de condições com os teatros de todo o mundo”.
A figura de Caliban em “A Tempestade”, de Boal, ratifica a fundação mais firme de uma representação voltada para as margens. Falar em Caliban como símbolo de nossa identidade e do teatro latinoamericano, nos leva a enxergar novas sendas, novas categorias e a possibilidade de pensar e fazer teatro de outro modo. Caliban, oprimido mas não derrotado, simboliza, desde logo, os povos latino-americanos dominados, mas em pé de luta. 


O espetáculo foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2015 e faz parte do Projeto Caliban – Apontamentos sobre O Teatro de Nuestra América, selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural, na edição 2015-2016