A Visita do Presidenciável

Claudio Heemann (Zero Hora, 18 de dezembro de 1984) Foi em 1978 que o grupo “Ói Nóis Aqui Traveiz” surgiu num espaço alternativo na Rua Ramiro Barcellos. Pela primeira vez, na história do teatro local, Porto Alegre via experimentação anárquica, contestando, de forma radical, todos os valores burgueses. Era uma proposta revolucionária, de forte conteúdo político. A ruptura com as convenções cênicas do teatro tradicional era procurada através de estilização delirante e onírica. O espetáculo transformava-se num ritual insólito, envolvendo os espectadores. Nudez e agressão ao público faziam parte do tratamento de choque que o grupo utilizou na quebra dos moldes consagrados. O grupo logo passou a atuar nas ruas e interferir espetáculo a dentro nas encenações em cartaz na cidade. Algo como uma guerrilha urbana, o “Ói Nóis Aqui Traveiz” não era apenas um teatro de vanguarda, Quixotescamente repudiava toda a ordem político-social vigente. Era uma filosofia de vida e de ação que se derra

Seguimos viagem e desta vez o nosso barco atraca no porto de Salvador!

O espetáculo “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” que está percorrendo o país através do Festival Palco Giratório, chega a Salvador dentro da 13ª edição da Mostra Sesc de Artes – Aldeia Pelourinho. 
As apresentações serão nos dias 31 de setembro e 1º de outubro, às 16h no Terreiro de Jesus.
E na sequencia o grupo parte para Feira de Santana, onde a apresentação será na rua interna do Colégio Estadual Assis Chateaubriand, às 16h.




A IDENTIDADE LATINO-AMERICANA e o COLONIALISMO
As sociedades latino-americanas são marcadas pelas feridas coloniais. São visíveis as inúmeras contradições e complexidades que configuram essas sociedades contemporâneas. Para o Ói Nóis Aqui Traveiz, encenar “Caliban - A Tempestade de Augusto Boal” é gerar outros discursos, histórias e narrativas, produzir e reconhecer outros lugares de enunciação. Caliban é a reivindicação da legitimidade do “diferente”. Caliban é símbolo da identidade latino-americana.
Segundo Retamar, escritor cubano: “Caliban (que é um anagrama de canibal) (...). Vários escritores o tomaram depois como um símbolo. (...) Para mim, um símbolo do povo de Nuestra América e dos povos do Terceiro Mundo.” Miguel Rubio, fundador do grupo peruano Yuyachkani, ao se perguntar sobre o que é o teatro latinoamericano agora, reflete: “O teatro é uma construção cultural que nasce de valores determinados de acordo com a comunidade onde surge, respondendo a relações sociais específicas (...). Torna-se necessário que a linguagem do nosso ofício não resista a usar novos termos e que possamos ir ao encontro de uma teatralidade complexa, que tenha a ver com reconhecer-nos em todos os matizes de uma identidade inclusiva (...). América Latina e Caribe não significam uma coisa única. É o indígena, o africano, o europeu e o contemporâneo, um lugar aberto a todas as práticas cênicas do século XXI. Nosso teatro recolhe o espírito dos três continentes e se alimenta culturalmente dessas três raízes e com elas dialoga em igualdade de condições com os teatros de todo o mundo”.
A figura de Caliban em “A Tempestade”, de Boal, ratifica a fundação mais firme de uma representação voltada para as margens. Falar em Caliban como símbolo de nossa identidade e do teatro latinoamericano, nos leva a enxergar novas sendas, novas categorias e a possibilidade de pensar e fazer teatro de outro modo. Caliban, oprimido mas não derrotado, simboliza, desde logo, os povos latino-americanos dominados, mas em pé de luta. 


O espetáculo foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2015 e faz parte do Projeto Caliban – Apontamentos sobre O Teatro de Nuestra América, selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural, na edição 2015-2016