A Visita do Presidenciável

Claudio Heemann (Zero Hora, 18 de dezembro de 1984) Foi em 1978 que o grupo “Ói Nóis Aqui Traveiz” surgiu num espaço alternativo na Rua Ramiro Barcellos. Pela primeira vez, na história do teatro local, Porto Alegre via experimentação anárquica, contestando, de forma radical, todos os valores burgueses. Era uma proposta revolucionária, de forte conteúdo político. A ruptura com as convenções cênicas do teatro tradicional era procurada através de estilização delirante e onírica. O espetáculo transformava-se num ritual insólito, envolvendo os espectadores. Nudez e agressão ao público faziam parte do tratamento de choque que o grupo utilizou na quebra dos moldes consagrados. O grupo logo passou a atuar nas ruas e interferir espetáculo a dentro nas encenações em cartaz na cidade. Algo como uma guerrilha urbana, o “Ói Nóis Aqui Traveiz” não era apenas um teatro de vanguarda, Quixotescamente repudiava toda a ordem político-social vigente. Era uma filosofia de vida e de ação que se derra

Ói Nóis Aqui Traveiz e a Tempestade de Augusto Boal neste domingo no Parque da Redenção

Porto Alegre terá mais uma oportunidade para ver a “Tempestade” que a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz tem feito pelas ruas, praças e parques deste país!

Domingo (29.10), às 17h apresentaremos “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” no Parque da Redenção (entre o Chafariz e o espelho d'água). 
O grupo que foi homenageado pelo Circuito Nacional Palco Giratório - SESC, pelos seus 39 anos de atuação, viajará logo no início de novembro para realizar a última etapa da circulação, passando por São Luiz (MA) e ArcoVerde (PE). Além das apresentações do espetáculo de teatro de rua e da Desmontagem “Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência” (repertório), o grupo estará participando da mesa “Pensamento Giratório” e ministrando um workshop/vivência em cada cidade.



“A Tempestade” é escrita enquanto Boal estava no exílio em 1974, período em que os movimentos sociais latino-americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo estadunidense e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares, - momento fecundo para retomar Caliban enquanto representante das opressões advindas deste encontro colonial – colocando em foco o discurso de resistência evidenciado nesta figura. Agora Caliban não é mais somente o colonizado. Ele é a representação dos oprimidos de toda a sorte que residem neste país chamado Brasil.


Canção da Identidade

Eu sou negro, todo negro
Eu sou negro como um negro
Venho da negra matriz
grossos tenho meus lábios
tenho largo o meu nariz
Meu cabelo é carapinha
é carapinha meu zelo.
negro me quer meu amor
Nesta terra eu sou senhor
Da Ásia e da África venho
meu povo é um torvelinho.
Todos os pobres da América
conquistarão seu destino.
Eu também sou amarelo,
sou terra, sou campesino.
Um dia nos vingaremos
de todo branco assassino.
(...)
Com armas em negras mãos,
eu canto, branco, eu canto!
Eu canto porque sou gente,
sou gente, sou mais que santo,
que negro, que vermelho
amarelo ou branco
Por isso eu canto, canto,
com foices nas mãos,
eu canto, branco, eu canto.


Fotos Pedro Isaias Lucas
O espetáculo foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2015 e faz parte do Projeto Caliban – Apontamentos sobre O Teatro de Nuestra América, selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural, na edição 2015-2016