A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

Palco Giratório 2017 na reta final!

A Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz encerra nesta semana em Pernambuco o Circuito Nacional Palco Giratório. Ao todo foram 7 meses de idas e vindas, realizando seminários, workshops, intercâmbios e diversas apresentações. 

Nesta reta final o grupo retorna a Arcoverde, cidade onde encenou Medeia Vozes no ano de 2013 em uma temporada inesquecível, desta vez para apresentar “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal”. Após, seguirá para Recife onde além do espetáculo de rua, apresentará também a desmontagem “Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência”.

A Tribo que está em vésperas de completar 40 anos de trajetória foi o grupo homenageado desta edição do Festival. 

Confira abaixo a programação:

ARCOVERDE:

- Dia 18 de novembro, 20h em frente à Estação Cultural: Espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal.

- Dia 19 de novembro, às 14h no SESC Arcoverde: Workshop/vivência com a Tribo.

RECIFE:

- 21 de novembro, 16h no Pátio do Carmo (Sto. Antônio): Espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal.

- 22 de novembro, 19h30, no Teatro Capiba: Desmontagem Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência. 

Caliban – A Tempestade de Augusto Boal

Foto: Pedro Isaias Lucas

Impulsionada pela ideia de que ‘somos todos Caliban‘, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz analisa criticamente a ‘tempestade‘ conservadora que hoje sofre a América Latina, e especialmente o grande retrocesso nos direitos sociais e na luta pela autonomia econômica, política e cultural que vivemos no Brasil. A encenação é criada a partir do texto “A Tempestade” de Boal, escrita pelo autor no exílio, em 1974, período em que os movimentos sociais latino- americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo dos EUA e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares. A Tribo, sem trair a sua vocação artística, quer com o seu teatro de rua instaurar a alegria e a indignação nos seus espectadores. 

Desmontagem Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência

Foto: Eugênio Barboza

A desmontagem “Evocando os mortos – Poéticas da experiência” refaz o caminho da atriz na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Constitui um olhar sobre as discussões de Gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz. Desvelando os processos de criação de diferentes personagens, a atriz deixa ver quanto as suas vivências pessoais e do coletivo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz atravessam os mecanismos de criação.

O espetáculo foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2015 e faz parte do Projeto Caliban – Apontamentos sobre O Teatro de Nuestra América, selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural, na edição 2015-2016