SANTO/AMARGO

Quase todo mundo conhece a expressão de Marx: “é preciso mudar o mundo e não interpretá-lo”. Hélio Oiticica vislumbrou uma outra direção: “é preciso que o mundo seja mundo do homem e não mundo do mundo”. A encenação de O Amargo Santo da Purificação, novo trabalho de rua criado pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre, segue essa mesma vereda, trazendo à agenda um tema – a transformação do mundo – e uma personagem – Carlos Marighella – bem pouco convencionais. A realização, estreada em setembro de 2008, insere-se nas manifestações que recordam os quarenta anos de morte do líder revolucionário brasileiro. Dado o contexto, teríamos todos os elementos para mais uma peça de agitação dos oprimidos, mais um exercício para a retórica coletivista, mais uma encenação épica erigida sobre chavões. Não é o que ocorre. A primeira grande aventura do Ói Nóis foi a de privilegiar os poemas escritos pelo revolucionário e não seus discursos ou textos de militância. O material dramátic…

Neste domingo teremos "Tempestade" em Porto Alegre!!!

O espetáculo “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” que em maio deste ano viaja a Cuba para realizar um circuito de apresentações, realizará neste final de semana uma última apresentação na cidade de Porto Alegre antes de ter o seu material cênico enviado para a Ilha Caribenha. 

A apresentação será neste domingo (4.02), às 17h no Parque da Redenção. 

Foto: Pedro Isaias Lucas

Sobre o autor:
Augusto Boal nasceu no Rio de Janeiro em 1931 e apesar da formação em Engenharia, sempre se interessou pelo teatro. No início dos anos 50 esteve nos EUA onde estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade de Columbia e frequentou os cursos de John Gassner - professor de alunos como Tennessee Williams e Arthur Miller. De volta ao Brasil, passou a integrar o Teatro de Arena, onde aos poucos adaptou o que aprendera nos Estados Unidos em espetáculos que buscavam encenar e discutir a realidade brasileira, transformando o espectador em cidadão ativo. Formado por Boal, José Renato, Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho e outros, o grupo de dramaturgos do Arena promoveu uma verdadeira revolução estética nos palcos brasileiros. 
O golpe de 1964 tornou cada vez mais difícil a situação dos artistas que haviam se engajado na transformação social do período precedente. Em 1971, Boal é então preso e torturado. Exila-se na Argentina com Cecília Thumin, onde organiza Teatro do Oprimido, seu livro mais conhecido. A partir de então, os princípios e as técnicas desenvolvidas por Boal alcançam um público cada vez maior, difundindo-se inicialmente pela América Latina e, ao longo dos anos 1970, pelo mundo inteiro. Em Paris, onde passa a morar e atuar, cria vários núcleos baseados em sua obra. Com o fim da ditadura, retorna ao Brasil em 1986, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Em 1992 é eleito vereador e desenvolve mais uma de suas técnicas, o Teatro Legislativo, que discute projetos de lei com o cidadão comum em ruas e praças da cidade. A Unesco conferiu a Boal o título de "Embaixador do Teatro Mundial" , em 2009. Nesse mesmo ano ele faleceu no Rio de Janeiro. Suas obras estão traduzidas para várias línguas, ocidentais e orientais. 

Impulsionada pela ideia de que “somos todos Caliban”, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz propõe nesta encenação analisar criticamente a “tempestade” conservadora que sofre atualmente a América Latina, e, especialmente o grande retrocesso nos direitos sociais e na luta pela autonomia econômica, política e cultural que vivemos no Brasil. A encenação é criada a partir do texto “A Tempestade” de Boal, escrita pelo autor no exílio em 1974, período em que os movimentos sociais latino-americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo estadunidense e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares. A Tribo, sem trair a sua vocação artística, quer com o seu teatro de rua instaurar a alegria e a indignação nos seus milhares de espectadores.

O espetáculo foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2015 e faz parte do Projeto Caliban – Apontamentos sobre O Teatro de Nuestra América, selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural