MEIERHOLD NA SALA ÁLVARO MOREYRA

Meierhold, o último espetáculo da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, apresenta do dia 18 ao dia 21 de julho na Sala Álvaro Moreyra, no Centro Municipal de Cultura, sempre às 20h com entrada franca. As apresentações fecharão a mostra de repertório do grupo na programação do I Laboratório Aberto com a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz – uma imersão poética na estética do grupo através de oficinas, espetáculos, filmes e seminários.

A encenação de “Meierhold” que estreou no final de 2018 na Terreira da Tribo, com o prêmio açorianos 2018 de melhor ator para Paulo Flores, parte da livre adaptação da peça da chamada dramaturgia de "micropolítica de resistência” do argentino Eduardo Pavlovsky “Variaciones Meyerhold” (2005). “Meierhold” mostra o encenador russo num tempo fora da realidade, póstumo, como um espectro que reflete sobre o seu discurso artístico e os relaciona com momentos dramáticos de sua trajetória pessoal, sujeito ao cárcere, tortura e humilhações até o seu br…

Ói Nóis Aqui Traveiz celebra 40 anos de trajetória!

Sob a tríade UTOPIA, PAIXÃO e RESISTÊNCIA surgiu em 1978 um coletivo que transformaria radicalmente a cena teatral no sul do país. Era a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz que chegava para deixar os seus rastros de liberdade. E é com imensa alegria que neste ano de 2018 estaremos celebrando os 40 ANOS de VIDA deste grupo! 
A programação comemorativa, que será de 24 a 30 de março, conta com apresentações do premiado espetáculo de vivência “Medeia Vozes”, do espetáculo de teatro de rua “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” e da performance “Onde? Ação nº2”, além do lançamento do livro “Tânia Farias – O Teatro é um Sacerdócio” de Fábio Prikladnicki.



Confira:

- Dia 24 de março, a partir das 16h, no Vila Flores: Festa Viva a Tribo – 40 anos de Utopia, Paixão e Resistência.

- Dia 27 de março, 21h, no Cine Bancários: Viúvas Performance sobre a Ausência

- Dia 28 de março, 19h, no Centro Municipal de Cultura: Lançamento do livro “Tânia Farias – O Teatro é um sacerdócio” de Fábio Prikladnicki.

- Dia 29 e 30 de março, 19h30 na Terreira da Tribo: Espetáculo “Medeia Vozes”.

- Dia 31 de março, 11h na Redenção: Performance “Onde? Ação nº2”.

- Dia 1 de abril, 15h, no Parque da Redenção: Espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal

Caliban – A Tempestade de Augusto Boal
Foto: Fabiano Ávila

A peça de Boal é uma resposta ao clássico “A Tempestade” de William Shakespeare. A história é vista pela perspectiva de Caliban, metáfora dos seres humanos originários da América que foram dizimados e escravizados pelos invasores colonizadores representados pelo personagem Próspero. Na versão de Boal, Próspero é tão perverso quanto os nobres europeus que usurparam o seu poder. Todos representam a violenta dominação colonial e cultural. A filha de Próspero, Miranda, e o príncipe de Nápoles, Fernando, fazem uma aliança não por amor como na peça de Shakespeare, mas sim por interesses capitalistas. Ariel, o “espírito do ar”, representa o artista alienado, mescla de escravo e mercenário a serviço da ordem constituída. Somente Caliban se revolta até ser, finalmente, derrotado. Os vilões permanecem na “ilha tropical” para escravizá-lo. Mesmo escravo, Caliban resiste. Como em todo bom teatro político, o público deve perceber que os símbolos da obra remetem à realidade, para despertar neles – emotiva e racionalmente – uma resposta crítica fora da ficção. Caliban simboliza hoje a resistência ao neo-colonialismo.  

Medeia Vozes

Foto: Pedro Isaias Lucas

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz toma uma versão antiga e desconhecida do mito, trazendo uma mulher que não cometeu nenhum dos crimes de que Eurípides a acusa. O mito é questionado e reelaborado de maneira original, para analisar o fundamento das ordens de poder e como estas se mantêm ou se destroem. Medeia é uma mulher que enxerga seu tempo e sua sociedade como são. As forças que estão no poder manifestam-se contra ela, chegando mesmo à perseguição e banimento, ela é um bode expiatório numa sociedade de vítimas. A voz de Medeia somam-se vozes de mulheres contemporâneas como as revolucionárias alemãs Rosa Luxemburgo e Ulrike Meinhof, a somali Waris Diriiye, a indiana Phoolan Devi e a boliviana Domitila Chungara, que enfrentaram de diferentes maneiras a sociedade patriarcal em várias partes do mundo.
Performance “Onde? Ação nº2”

Performance “Onde? Ação nº2”


A performance “Onde? Ação nº2” de forma poética provoca reflexões sobre o nosso passado recente e as feridas ainda abertas pela ditadura militar. A ação performática se soma ao movimento de milhares de brasileiros que exigem que o Governo Federal proceda a investigação sobre o paradeiro das vítimas desaparecidas durante o regime militar, identifique e entregue os restos mortais aos seus familiares e aplique efetivamente as punições aos responsáveis. 

Lançamento do livro 
“Tânia Farias – O Teatro é um sacerdócio” de Fábio Prikladnicki.

Foto Rafael Saes


Acompanho o trabalho de Tânia Farias há pouco mais de uma década, o que representa cerca de metade de sua trajetória na Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Seus mais de vinte anos no grupo, da mesma forma, somam mais ou menos a metade da história do Ói Nóis, que completará 40 anos em 2018. Essa curiosa coincidência matemática ronda o oitavo volume da série Gaúchos em Cena.
Embora a bibliografia sobre o grupo – um dos mais destacados no teatro brasileiro – já conte com um número significativo de livros, publicados pelo selo próprio Ói Nóis na Memória, este é o primeiro que aborda o percurso profissional e pessoal de Tânia. No decorrer das páginas da entrevista que constitui seu cerne, fica claro que, para ela, vida e teatro são indissociáveis. O mesmo pode ser dito sobre sua relação com o grupo. Ao falar de Tânia, falamos do Ói Nóis, como diz a pesquisadora Vivian Martínez Tabares em um texto incluso no volume.
O livro aborda sua carreira, rememorando alguns dos espetáculos mais marcantes, mas principalmente registra um momento de vida. Esse momento é de maturidade como atriz e mulher, mas também de crise, como ela explica na entrevista. Tânia não apenas conta os bastidores de suas criações no Ói Nóis como expõe sua visão de mundo a respeito de assuntos como política, ética, feminismo, religião e espiritualidade.
Mesmo os espectadores que a acompanham há tempos descobrirão novas dimensões. Está aqui uma verdadeira pensadora do teatro, cujas opiniões ousam ir na contracorrente das expectativas. Mas para ela a teoria só tem sentido na prática, ou seja, no dia a dia do incansável trabalho do atuador – no vocabulário do Ói Nóis, esta palavra designa a fusão do ator com o ativista.
Com prefácio do parceiro de longa data e mestre, Paulo Flores, além de textos reflexivos de seus pares no teatro e um ensaio crítico de Valmir Santos, o volume conta ainda com poemas escritos por Tânia, aqui publicados pela primeira vez em livro. Será uma revelação para a fatia significativa do público que ainda não havia tido acesso a essa vertente de sua produção.
Diferentemente de livros que honram artistas em fim de carreira ou cujo auge ficou no passado, este registra uma atriz em plena ebulição: inquieta e inconformada, Tânia sempre mira além. Os interessados na criação teatral entenderão como ela constituiu sua singular técnica de atuação e ajudou a moldar a poética do Ói Nóis com seus múltiplos talentos – entre eles, a elaboração de figurinos. Os que não desejam se aprofundar nas entranhas dos processos mas se interessam pelas coisas da arte e da vida terão, ainda assim, farto material à disposição no afiado discurso de Tânia.
Ao final da leitura, assim espero, será impossível não se interrogar, com avidez, sobre os próximos passos dessa atuadora exemplar. Fica a sensação de que a maturidade, uma fase que só chega com muito suor e dedicação, está apenas começando para ela.

CONTATO:
Paula Carvalho
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