A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

Hoje tem "Caliban - A Tempestade de Augusto Boal" em Porto Alegre!

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz apresenta Caliban - A Tempestade de Augusto Boal nesta quarta-feira (25/04) no Largo Glênio Peres, às 16 horas. A apresentação do espetáculo faz parte da programação da primeira edição do INTERCENA, projeto que visa à internacionalização das Artes Cênicas do Estado do Rio Grande do Sul, e ocorre em Porto Alegre até dia 27 de abril. 

O grupo foi homenageado pelo Circuito Nacional Palco Giratório - SESC em 2017, realizando apresentações do espetáculo em todo o país.



Fotos: Pedro Isaias Lucas
“A Tempestade” é escrita enquanto Boal estava no exílio em 1974, período em que os movimentos sociais latino-americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo estadunidense e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares, - momento fecundo para retomar Caliban enquanto representante das opressões advindas deste encontro colonial – colocando em foco o discurso de resistência evidenciado nesta figura. Agora Caliban não é mais somente o colonizado. Ele é a representação dos oprimidos de toda a sorte que residem neste país.