A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

Nova montagem da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz!

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz  - 40 ANOS


No ano em que completa quatro décadas de atividade, o grupo teatral Ói Nóis Aqui Traveiz lança uma campanha de financiamento coletivo para produzir Meierhold, seu novo espetáculo. Com atuação de Paulo Flores, um dos fundadores do coletivo, e Keter Velho, o espetáculo deve estrear no segundo semestre, resgatando a história do grande pensador russo do teatro Vsevolod Emilievich Meyerhold (1874 – 1940), que foi perseguido pelo stalinismo. O trabalho é livremente inspirado na peça Variações Meyerhold (2005), do dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky, morto em 2015. Por meio dos ensinamentos dos três mestres – Meyerhold, Pavlovsky e Flores –, o espetáculo vai propor uma reflexão sobre o atual contexto brasileiro e a posição do artista. 

Fotos: Lucas Gheller

O financiamento coletivo oferece recompensas para quem contribuir com valores a partir de  R$ 10. 

Para colaborar, acesse catarse.me/meierhold.


A encenação do Ói Nóis Aqui Traveiz é uma adaptação livre da peça “Variações Meierhold” do argentino Eduardo Pavlovsky. “Meierhold” mostra o diretor russo num tempo fora da realidade, póstumo, como um espectro que reflete sobre as injustiças, torturas e boicotes que sofreu por parte do regime stalinista. Ao mesmo tempo, no entanto, esse espectro diz estar na prisão, um velho que tem que suportar torturas diárias 'por um problema estético'. No monólogo estruturado em fragmentos que passam de pensamentos em voz alta a relatos e diálogos imaginários com diferentes interlocutores, Meierhold reclama que até os exercícios de sensibilização do corpo eram questionados pelos guardiões da arte socialista. Coerente com seus princípios, enfrentou, sem jamais se curvar e ceder, a pressão da ditadura stalinista contra a liberdade de criação artística, terminando por cair vítima de sua própria honestidade de artista, da intransigência com que lutou em defesa das suas ideias nos dias sombrios que se abateram sobre a cultura e as artes russas. A encenação e sua própria dinâmica busca perguntar aos espectadores como Meierhold nos afeta e nos comove no Brasil de hoje.