A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

Exercício Crítico sobre Caliban - A Tempestade de Augusto Boal, por Paloma Franca Amorim

Leia o Exercício Crítico de Paloma Franca Amorim sobre a obra "Caliban – A Tempestade de Augusto Boal”, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (Porto Alegre/RS): http://bit.ly/Caliban-EC.  


Foto: Nathalie Assis

Com um vasto histórico de interação com a comunidade em Porto Alegre, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz chega ao Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto com o espetáculo “Caliban – Tempestade de Augusto Boal”, teatrólogo que de maneira sistemática foi apagado do panteão da história do teatro brasileiro depois da década de 80.
Suas pesquisas sobre possíveis teatralidades inclusivas é referência em vários países latino-americanos e da Europa, mas muito raramente são encontradas como bases de estudo em universidades de artes cênicas e cursos de formação. Essa deleção é justificada de maneira recorrente como resultado de um dispositivo de “seleção natural” estética, isso é, segundo o senso comum, é como se o pensamento e a obra de Boal já não interessassem a esse tempo histórico presente denominado, de maneira genérica e superficial, contemporaneidade.
Ora, a discussão tratada em “Caliban – Tempestade de Augusto Boal” refere-se a uma questão contraditória fundamental à análise da história como exercício de poder: a opressão colonialista e as técnicas perversas do capitalismo elaboradas a fim de aprisionar e reificar corpos e mentes em estruturas de exploração.
A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Tráveiz, com um elenco enorme de intérpretes/articuladores das traquitanas cênicas, leva ao espaço público, sob um formato de encenação alegórica e corpos em estado de dilatação e acrobacia, poderosa reflexão política sobre o painel da fábula. “Caliban – Tempestade de Augusto Boal”, como diz o próprio título é uma releitura da famosa dramaturgia de caráter fantástico de William Shakespeare, de acordo com a historiografia teatral, datada do século XVII.
No início da montagem do Ói Nóis Aqui Tráveiz surge uma estrutura de metal e rodas que representa uma embarcação em viagem. Essa é a maquinaria a conduzir o conjunto de espectadores ao longo da trama apresentada.


Foto: Victor Natureza

Próspero, a personagem que detém os saberes da floresta no texto de Shakespeare, na versão de Boal se torna um dos principais eixos de dominação no esquema político. A personagem se desenha bem menos esférica que a original posto que acaba constituindo-se por uma unilateralidade política operando como alicerce de oposição, grau didático de demarcador de diferença, para as figuras revolucionárias da peça reunidas na expressão do escravizado Caliban.
Escrito em 1971, o texto de Boal contextualiza a narrativa clássica de Shakespeare na América Latina, delineando acontecimentos ficcionais de desmanche das ordens totalitárias. A grande metáfora se traduz em reflexão histórica no período da ditadura militar e não diferente opera nesse momento vivido no país, depois de termos como população testemunhado episódios bastante graves do ponto de vista da política institucional brasileira. Apesar das diferenças categóricas entre o golpe civil-militar de 1964 e o golpe parlamentar de 2017, a posição anticapitalista de “Caliban – Tempestade de Augusto Boal” se endereça de modo produtivo à ponderação que parte da liberdade do estético para a planilha do político.
O grito de ordem “Somos Todos Caliban” permeia o espírito libertário da narrativa que apresenta um percurso de caráter esperançoso diante das agruras do mundo e dos corpos subalternizados que o integram como classe trabalhadora – essa nomenclatura política que agrega as intersecções de raça/etnia e gênero hoje tão caras ao debate sobre poder e dominação na América Latina.
Em “Caliban – Tempestade de Augusto Boal” todos os arranjos sociais se dão por motivos econômicos, revelando aos espectadores o fundo capitalista que dimensiona o interesse nas relações familiares, de trabalho e intersubjetivas. O vínculo entre Miranda, filha de Próspero, e Fernando, príncipe de Nápoles, é subsidiado tão somente por um jogo de necessidades políticas. O discurso do amor romântico encontrado com certa renitência nos textos de Shakespeare, é substituída na experiência do Ói Nóis sob a égide dos sistemas de aliança perspectivados pelo acúmulo de influência e de bens privados.
A praça Dom José Marcondes, no centro de Rio Preto, viveu um processo de ressignificação no dia 13 de julho, ao longo da uma hora e meia de espetáculo. A beleza com que as cenas se mobilizam diante dos olhos dos espectadores produz uma camada importante para o acesso ao conteúdo que, além de não ser simples, é extremamente violento – embora não pareça uma vez que a disputa de classe soe como realidade anacrônica no panorama da vida territorializada pela mentalidade neoliberal. “Caliban – Tempestade de Augusto Boal” convoca seu público a uma preciosa compreensão sobre armas e gritos de resistência do passado como ferramentas substanciais para a projeção de futuros mais justos.