A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

IMPERDÍVEL! CALIBAN NA REDENÇÃO

No domingo, dia 26 de agosto, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz volta a encenar 'Caliban – A Tempestade de Augusto Boal' em Porto Alegre, no Parque da Redenção, às 15 horas, próximo ao Monumento ao Expedicionário. Em caso de chuva a apresentação fica transferida para a segunda-feira, dia 27 no mesmo horário, no Largo Glênio Peres, ao lado do Mercado Público
 
Foto: Pedro Isaias Lucas
 
Em setembro o Ói Nóis Aqui Traveiz estará participando de importantes Festivais de Teatro em diferentes regiões do país: do Festival Internacional Latino Americano de Teatro da Bahia em Salvador, do MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas em Santos e Baixada Santista, e do Vigéssimo Festival Isnard Azevedo em Florianópolis, além de apresentações da Desmontagem Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência e Caliban – A Tempestade de Augusto Boal em Campinas e São Paulo em circuíto promovido pelo SESC/SP.

O diretor e dramaturgo Augusto Boal (1931-2009), conhecido mundialmente pelos princípios e as técnicas do Teatro do Oprimido, escreveu a sua versão de “A Tempestade” , afirmando que a peça é uma resposta ao clássico de Shakespeare. Escrita enquanto Boal estava no exílio, em 1974, período em que os movimentos sociais latino-americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo estadunidense e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares. Na versão de Boal a história é vista pela perspectiva de Caliban, metáfora dos seres humanos originários da América que foram dizimados e escravizados pelos invasores colonizadores representados pelo personagem Próspero. O duque de Milão é tão perverso quanto os nobres europeus que usurparam o seu poder. Todos representam a violenta dominação colonial e cultural. Sua filha Miranda e o príncipe de Nápoles, Fernando, fazem uma aliança não por amor como na peça de Shakespeare, mas sim por interesses capitalistas. Ariel, o “espírito do ar”, representa o artista alienado, mescla de escravo e mercenário a serviço da ordem constituída. Somente Caliban se revolta até ser finalmente, derrotado. Os vilões permanecem na “ilha tropical” para escraviza-lo. Mesmo escravo, Caliban resiste

 
Foto: Pedro Isaias Lucas
 
A Tribo, sem trair a sua vocação artística, quer com o seu Teatro de Rua instaurar a alegria e a indignação nos seus milhares de espectadores. Como em todo bom teatro político, o público deve perceber que os símbolos da obra remetem à realidade, para despertar neles – emotiva e racionalmente – uma resposta crítica fora da ficção. Para seduzir o público anônimo e passageiro das ruas das cidades, a criação coletiva do Ói Nóis Aqui Traveiz investe em um movimento de cena dinâmico com personagens excêntricos, utilizando adereços e figurinos impactantes com máscaras e bonecos. A narração é toda contagiada pela música, o canto e a dança. Mesclando os movimentos do coro com ações acrobáticas, cenas de humor irreverente e personagens clownescos com uma narrativa épica, “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” reflete alegoricamente a nossa sociedade.