A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ NO NORDESTE

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz volta ao Nordeste para participar da 10ª Edição do Festival de Teatro Lusófono que acontece em São Luís do Maranhão e Teresina no Piauí neste final de agosto. A Tribo encena 'Desmontagem : Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência' no dia 18 no Casarão da Pequena Companhia em São Luís, e no dia 21 no Teatro Estação em Teresina.

Foto: Pedro Isaias Lucas



O Festival de Teatro Lusófono é organizado pelo Grupo Harém Teatro, e reúne grupos de diferentes países de língua portuguesa, inundando de teatro praças, ruas e casas de espetáculos de Teresina e São Luís. Na edição deste ano além do Brasil estarão presentes grupos de Portugal, Cabo Verde e Moçambique. Estão programados dezesseis espetáculos representando o mundo lusófono. 
 
Foto: Pedro Isaias Lucas
A Desmontagem do Ói Nóis Aqui Traveiz refaz a trajetória da atuadora Tânia Farias na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Constitui um olhar sobre as discussões de Gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação da Tribo. Desvelando os processos cênicos de diferentes personagens, criadas entre 1999 e 2011, Tânia Farias deixa ver quanto as suas vivências pessoais e do coletivo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz atravessam os mecanismos de criação. Através da ativação da memória corporal, a atriz faz surgir e desaparecer as personagens, realizando uma espécie de ritual de evocação de seus mortos para compreensão dos desafios de fazer teatro nos dias de hoje. Tânia Farias revisita os processos de criação que deram sopro a três papeis femininos e um masculino. Em ordem cronológica: Ófelia em Hamlet Máquina (1999), a partir da peça homônima do alemão Heiner Müller; Kassandra em Aos Que Virão Depois de Nós – Kassandra In Process (2002), a partir da novela Cassandra, da alemã Christa Wolf; Sasportas em A Missão – Lembrança de uma Revolução (2006), novamente a partir de texto de Müller; e Sophia em Viúvas – Performance sobre a ausência (2011), a partir de peça e da novela Viudas, do chileno Ariel Dorfman. A 'Desmontagem : Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência' já se apresentou em diversas cidades brasileiras e participou de festivais internacionais em Cuba e na Argentina.