A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em circulação pela Região Sul

De 22 de agosto a 1 de setembro a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre, realizará um circuito de apresentações da Desmontagem Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência em cidades da região sul do país. O Projeto foi selecionado pelo Programa Petrobras Distribuidora 2017/2018, através da Lei de Incentivo à Cultura. O Programa Petrobras Distribuidora de Cultura é uma seleção pública que tem como objetivo contemplar projetos de circulação de espetáculos teatrais não inéditos, em parceria do Ministério da Cultura. No último edital foram investidos R$ 15 milhões. Ao todo, foram escolhidos 57 espetáculos, representantes de todas as regiões do País, com apresentações em todos os estados. As cidades de Curitiba no Paraná, Joinville, Blumenau e Joaçaba em Santa Catarina, receberão a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz com a Desmontagem Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência, a Oficina Vivência com a Tribo e um Debate Sobre questões de gênero no teatro brasilei…

FESTA DO POA EM CENA ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 40 ANOS

Para comemorar esta data tão importante, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz participa do 25º Porto Alegre em Cena, em uma noite de celebração e compartilhamento de seus ideais junto ao público da nossa cidade, uma noite de performances preparadas pela Tribo para serem partilhadas e vivenciadas, num ritual junto ao público nesta noite de festa.
É neste sábado, dia 22 de setembro, às 23h59, no Centro Municipal de Cultura (Av. Erico Verissimo 307), com entrada franca.

Foto: Fabiano Ávila

 

TEATROFAGIA E ANARQUIA

40 anos da Tribo


Em 31 de março de 1978 estreava “A Divina Proporção” e “A Felicidade Não Esperneia Patati Patatá”, duas peças curtas que formavam a primeira encenação do Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz, na Rua Ramiro Barcelos. Ambas abordavam o processo de desumanização que o homem sofre pela violência da sociedade consumista. Viviam-se ainda os anos de intolerância e repressão policial da ditadura civil-militar que se instalara no Brasil em abril de 1964. Era um momento de grande ebulição social com a volta das grandes manifestações de rua exigindo liberdades democráticas e anistia aos presos e exilados políticos. O núcleo que deu origem ao Ói Nóis Aqui Traveiz queria um teatro comprometido com o momento político vivido no país. O grupo nascia com a ideia de um teatro concebido fora dos padrões convencionais. Estruturado como coletivo autônomo o Ói Nóis Aqui Traveiz começou a desenvolver a sua expressão a partir da criação coletiva, do contato direto entre atores e espectadores e do uso do corpo em oposição ao primado da palavra. O nome em grafia propositadamente iletrada era um aviso de que o grupo se propunha a tomar atitudes inusitadas e contestadoras. Esse teatro de transgressão e invenção levantou muita polêmica, e na retrospectiva da década, a crítica citou o grupo como o fato mais importante do teatro gaúcho. Fundamentado nos princípios de solidariedade, autogestão e anarquismo, no início dos anos 1980 o Ói Nóis Aqui Traveiz adotou o termo Tribo de Atuadores, que sugere uma nova sociedade, baseada na vivência em comunidade e na valorização das relações diretas e da responsabilidade individual. É nesse momento que nasce o teatro de rua da Tribo com as primeiras intervenções cênicas em manifestações ecológicas e pacifistas. A partir daí o Ói Nóis Aqui Traveiz não saiu mais da rua. Antimilitarismo, denúncia de agrotóxicos, luta contra o racismo, defesa dos povos indígenas; em todos os momentos de mobilização política, em atos de repúdio à injustiça social e à violência institucionalizada, a Tribo estava presente, em defesa terna e intransigente de uma humanidade criativa e solidária.

 
Foto André Ávila / Agencia RBS

Em 1984 os atuadores constituem a Terreira da Tribo, hoje situada na Rua Santos Dumont, no bairro São Geraldo. Um espaço cultural aberto a todo tipo de manifestações artísticas. O nome deste espaço feminino, telúrico e anarquista vem de terreiro, lugar de encontro do ser humano com o sagrado. Com o passar do tempo a Terreira da Tribo se transforma em Centro de Experimentação e Pesquisa Cênica e Escola de Teatro Popular. Partindo do princípio de que toda pessoa tem um potencial criador, o espaço oportuniza a todos os interessados o contato com o fazer teatral. Oferece à cidade oficinas de iniciação teatral, pesquisa de linguagem, formação e treinamento de atores, alem de seminários e ciclos de discussão sobre a cena contemporânea, criando um processo de permanentes descobertas, disseminando o conhecimento e o estímulo ao aprendizado, desenvolvendo o espírito do trabalho coletivo, valorizando a diferença, revisando conceitos estéticos, buscando sempre a essência do teatro. Além do trabalho pedagógico desenvolvido na Terreira, os atuadores criaram a ação Teatro Como Instrumento de Discussão Social levando oficinas para diversos bairros populares da região metropolitana. O teatro criado na periferia passou a ser um poderoso aliado na permanente luta em favor da construção da cidadania. Constituindo na prática um laboratório para imaginação social.
Tendo como base o Teatro Ritual de Antonin Artaud e o Teatro Épico de Bertolt Brecht, a Tribo bebeu de diversas fontes cênicas durante a sua trajetória, como o teatro revolucionário do Living Theatre, o trabalho de ações físicas dos mestres europeus Stanislavsky, Meierhold, Grotowski e Eugênio Barba, e dos brasileiros Augusto Boal (Teatro do Oprimido), José Celso Martinez Corrêa (Teatro Oficina) e Amir Haddad (Tá Na Rua). Nesses quarenta anos criou encenações que marcaram o teatro brasileiro como "Ostal", "Antîgona Ritos de Paixão e Morte", "Fausto", "A Saga de Canudos", "Kassandra In Process", "O Amargo Santo da Purificação" e "Medeia Vozes". Nesse grave momento que o nosso país vive, onde novamente a sombra do fascismo paira sobre os brasileiros, o Ói Nóis Aqui Traveiz reafirma as suas ideias e práticas coletivas em defesa da democracia, liberdade e justiça social. A Tribo continuará, nos próximos anos, compartilhando a sua experiência com o maior número de pessoas possível, através das suas encenações e da prática artístico-pedagógica. Certamente encontrará, como até aqui tem sido, os mais diferentes obstáculos para realizar o seu teatro de ousadia e ruptura. Mas resistir é manter abertos os vínculos com o futuro ainda sem nome e informe.

Paulo Flores

Publicado no jornal Correio do Povo no dia 31.03.2018