A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

FESTA DO POA EM CENA ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 40 ANOS

Para comemorar esta data tão importante, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz participa do 25º Porto Alegre em Cena, em uma noite de celebração e compartilhamento de seus ideais junto ao público da nossa cidade, uma noite de performances preparadas pela Tribo para serem partilhadas e vivenciadas, num ritual junto ao público nesta noite de festa.
É neste sábado, dia 22 de setembro, às 23h59, no Centro Municipal de Cultura (Av. Erico Verissimo 307), com entrada franca.

Foto: Fabiano Ávila

 

TEATROFAGIA E ANARQUIA

40 anos da Tribo


Em 31 de março de 1978 estreava “A Divina Proporção” e “A Felicidade Não Esperneia Patati Patatá”, duas peças curtas que formavam a primeira encenação do Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz, na Rua Ramiro Barcelos. Ambas abordavam o processo de desumanização que o homem sofre pela violência da sociedade consumista. Viviam-se ainda os anos de intolerância e repressão policial da ditadura civil-militar que se instalara no Brasil em abril de 1964. Era um momento de grande ebulição social com a volta das grandes manifestações de rua exigindo liberdades democráticas e anistia aos presos e exilados políticos. O núcleo que deu origem ao Ói Nóis Aqui Traveiz queria um teatro comprometido com o momento político vivido no país. O grupo nascia com a ideia de um teatro concebido fora dos padrões convencionais. Estruturado como coletivo autônomo o Ói Nóis Aqui Traveiz começou a desenvolver a sua expressão a partir da criação coletiva, do contato direto entre atores e espectadores e do uso do corpo em oposição ao primado da palavra. O nome em grafia propositadamente iletrada era um aviso de que o grupo se propunha a tomar atitudes inusitadas e contestadoras. Esse teatro de transgressão e invenção levantou muita polêmica, e na retrospectiva da década, a crítica citou o grupo como o fato mais importante do teatro gaúcho. Fundamentado nos princípios de solidariedade, autogestão e anarquismo, no início dos anos 1980 o Ói Nóis Aqui Traveiz adotou o termo Tribo de Atuadores, que sugere uma nova sociedade, baseada na vivência em comunidade e na valorização das relações diretas e da responsabilidade individual. É nesse momento que nasce o teatro de rua da Tribo com as primeiras intervenções cênicas em manifestações ecológicas e pacifistas. A partir daí o Ói Nóis Aqui Traveiz não saiu mais da rua. Antimilitarismo, denúncia de agrotóxicos, luta contra o racismo, defesa dos povos indígenas; em todos os momentos de mobilização política, em atos de repúdio à injustiça social e à violência institucionalizada, a Tribo estava presente, em defesa terna e intransigente de uma humanidade criativa e solidária.

 
Foto André Ávila / Agencia RBS

Em 1984 os atuadores constituem a Terreira da Tribo, hoje situada na Rua Santos Dumont, no bairro São Geraldo. Um espaço cultural aberto a todo tipo de manifestações artísticas. O nome deste espaço feminino, telúrico e anarquista vem de terreiro, lugar de encontro do ser humano com o sagrado. Com o passar do tempo a Terreira da Tribo se transforma em Centro de Experimentação e Pesquisa Cênica e Escola de Teatro Popular. Partindo do princípio de que toda pessoa tem um potencial criador, o espaço oportuniza a todos os interessados o contato com o fazer teatral. Oferece à cidade oficinas de iniciação teatral, pesquisa de linguagem, formação e treinamento de atores, alem de seminários e ciclos de discussão sobre a cena contemporânea, criando um processo de permanentes descobertas, disseminando o conhecimento e o estímulo ao aprendizado, desenvolvendo o espírito do trabalho coletivo, valorizando a diferença, revisando conceitos estéticos, buscando sempre a essência do teatro. Além do trabalho pedagógico desenvolvido na Terreira, os atuadores criaram a ação Teatro Como Instrumento de Discussão Social levando oficinas para diversos bairros populares da região metropolitana. O teatro criado na periferia passou a ser um poderoso aliado na permanente luta em favor da construção da cidadania. Constituindo na prática um laboratório para imaginação social.
Tendo como base o Teatro Ritual de Antonin Artaud e o Teatro Épico de Bertolt Brecht, a Tribo bebeu de diversas fontes cênicas durante a sua trajetória, como o teatro revolucionário do Living Theatre, o trabalho de ações físicas dos mestres europeus Stanislavsky, Meierhold, Grotowski e Eugênio Barba, e dos brasileiros Augusto Boal (Teatro do Oprimido), José Celso Martinez Corrêa (Teatro Oficina) e Amir Haddad (Tá Na Rua). Nesses quarenta anos criou encenações que marcaram o teatro brasileiro como "Ostal", "Antîgona Ritos de Paixão e Morte", "Fausto", "A Saga de Canudos", "Kassandra In Process", "O Amargo Santo da Purificação" e "Medeia Vozes". Nesse grave momento que o nosso país vive, onde novamente a sombra do fascismo paira sobre os brasileiros, o Ói Nóis Aqui Traveiz reafirma as suas ideias e práticas coletivas em defesa da democracia, liberdade e justiça social. A Tribo continuará, nos próximos anos, compartilhando a sua experiência com o maior número de pessoas possível, através das suas encenações e da prática artístico-pedagógica. Certamente encontrará, como até aqui tem sido, os mais diferentes obstáculos para realizar o seu teatro de ousadia e ruptura. Mas resistir é manter abertos os vínculos com o futuro ainda sem nome e informe.

Paulo Flores

Publicado no jornal Correio do Povo no dia 31.03.2018