A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

ENSAIOS ABERTOS DE “MEIERHOLD”

“Meierhold” é a nova encenação coletiva da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz com estreia marcada para 29 de novembro, na Terreira da Tribo (rua Santos Dumont, 1186). Nesta semana, nos dias 22, 23 e 24 de novembro, às 20 horas, na Terreira da Tribo, acontecem os ensaios gerais do espetáculo abertos ao público. As senhas para assistir os ensaios serão distribuídas nos mesmos dias a partir das 19 horas na Terreira da Tribo.


Foto Pedro Isaias Lucas

“Meierhold” é uma adaptação livre de “Variaciones Meyerhold” do dramaturgo, ator e psicanalista argentino Eduardo Pavlovsky. No centro da encenação o célebre ator, diretor e teórico russo – Meierhold – cujo discurso inovador e revolucionário o transformou em um dos maiores pensadores do teatro mundial. Ao completar o seu quadragésimo ano de trajetória a Tribo homenageia dois Mestres da cena contemporânea e do teatro latino-americano: Meierhold e Pavlovsky. “Meierhold” mostra o encenador russo num tempo fora da realidade, póstumo, como um espectro que reflete sobre o seu discurso artístico e os relaciona com momentos dramáticos de sua trajetória pessoal, sujeito ao cárcere, tortura e humilhações até o seu brutal assassinato pelas autoridades da Rússia stalinista. Na encenação estruturada em fragmentos, Meierhold passa de pensamentos em voz alta a relatos e diálogos imaginários com diferentes interlocutores, como com a sua amada, a atriz Zinaida Reich, também assassinada tragicamente. O espetáculo utiliza-se de diferentes linguagens e recursos, inclusive audiovisuais, fragmentos de poesias surrealistas e cenografia construtivista que remete à utilizada pelo próprio Meierhold. Em cena os atuadores Paulo Flores e Keter Velho.
 


O espetáculo realizará temporada quintas, sextas e sábados, sempre às 20 horas, até 22 de dezembro. Os ingressos antecipados já estão à venda na Terreira da Tribo (Fone 3028 1358), das 15 às 19 horas, no Meme Santo de Casa (R. Lopo Gonçalves, 176 - Cidade Baixa – fone 3019 2595) e no StúdioClio (R. José do Patrocínio, 698 - Cidade Baixa – fone 3254 7200), das 13 às 18h. Durante a temporada estará aberta ao público em geral, de terças-feiras aos sábados, das 15 às 19 horas, a exposição '40 anos de Utopia, Paixão e Resistência', uma mostra de fotos, cartazes, figurinos e adereços que contam a história da Tribo. A encenação de 'Meierhold' tem o apoio da TVE e FM Cultura.