A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

LANÇAMENTO DA REVISTA CAVALO LOUCO

Nesta quarta-feira, dia 12 de dezembro, às 20 horas, será o lançamento da 18a. Edição da CAVALO LOUCO Revista de Teatro da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, na Sala Álvaro Moreyra (Centro Municipal de Cultura). No lançamento acontecerá o ensaio musical “Violeta Parra Uma Atuadora” com Tânia Farias e Mário Falcão, com entrada franca. A Revista tem distribuição gratuita e o lançamento faz parte de “Uma Celebração de 40 anos de Utopia, Paixão e Resistência”, que conta com o patrocínio da Fruki através da Lei de Incentivo à Cultura do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, e do apoio do Porto Alegre em Cena da Secretaria da Cultura/POA.
A edição é um número especial que celebra os quarenta anos da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. A Revista que nasceu como semestral em 2006 e nos últimos anos passou a ser anual, devido às dificuldades crescentes que o Ói Nóis Aqui Traveiz assim como todos os grupos de teatro vem vivendo no Brasil. Mas para a Tribo manter esta publicação viva é mais uma forma de resistir a esta onda conservadora e reafirmar o pensamento crítico na luta pela democratização do teatro.




 Este número traz uma reflexão sobre a trajetória de quarenta anos através de olhares diversos colaboradores. A seção Especial traz o ensaio O teatro épico-ritual da trupe de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz de Alexandre Villibor Flory que analisa dialeticamente a fusão que a Tribo realiza entre o teatro político de Brecht e o teatro ritual de origem artaudiana. Valmir Santos na seção Crítica se debruça sobre a encenação “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal”. No artigo Ói Nóis Aqui Traveiz: sobre Pedras, Manifestos e Antropofagia, Sidnei Cruz, a partir do Manifesto de criação do grupo, faz apontamentos da história do pensamento anarquista na política e na arte. A Revista trás ainda o olhar de Fábio Prikladnicki sobre o processo de trabalho do atuador, a história das públicações editadas pelo Ói Nóis em texto de Edélcio Mostaço e um estudo de Luana Garcia sobre Caliban com ênfase na dramaturgia. A atuadora Marta Haas, por meio do pensamento de teóricos contemporâneos, reflete sobre o teatro de vivência e o teatro da crueldade de Artaud, e o atuador Pascal Berten nos conta sobre a última edição do Festival de Teatro Popular: Jogos de Aprendizagem e a sua importância para a nossa cidade. E na última página uma poesia sobre a paixão pelo teatro e pelo coletivo da Tribo da atuadora Tânia Farias.

Fundamentado nos princípios de solidariedade, autogestão e anarquismo o Ói Nóis Aqui Traveiz surgiu de forma avassaladora em 1978. Viviam-se ainda os anos de intolerância e repressão policial da ditadura civil-militar que se instalara no Brasil em abril de 1964. O grupo nascia com a ideia de um teatro concebido fora dos padrões convencionais. Estruturado como coletivo autônomo o Ói Nóis Aqui Traveiz começou a desenvolver a sua expressão a partir da criação coletiva, do contato direto entre atores e espectadores e do uso do corpo em oposição ao primado da palavra. A atualidade dos atuadores está em sua constante investigação artística, que alia o trabalho formal com a reflexão social. Nesse grave momento que o nosso país vive, no qual novamente a sombra do fascismo paira sobre os brasileiros, o Ói Nóis Aqui Traveiz reafirma as suas ideias e práticas coletivas.