Faca e gesto consequentes

  Antônio Hohlfeldt (Diário do Sul, 22 de dezembro de 1986) Fotos de Isabella Lacerda      Beckett é conhecido por seu niilismo e sua descrença em qualquer valor que ultrapasse a humanidade. Mais do que isso, o grande escritor irlandês desacredita na própria criatura humana, que visualiza como um ser sem caminho e sem lógica, sobrevivendo sem qualquer objetivo na vida, ou, quando os tem, sendo enganado por um falso objetivo (como em “Esperando Godot”, já que o tal Godot, em última análise, jamais virá porque jamais pensou em vir).       No caso de “Fim de Partida”, pode-se dividir a situação dramática em duas abordagens. A mais imediata é exatamente aquela que, em nível de realidade, pode ser desprendida das alusões, nem tão escassas assim, que pontuam todo o texto, talvez um dos primeiros trabalhos literários a abordarem a traumatizante experiência da bomba nuclear dos Estados Unidos em 1945. Pode-se pressupor que há muito aqueles quatro sobrevivem em uma construção quase subterrâ

MEIERHOLD - CONTINUA EM CARTAZ DE QUINTAS AOS SÁBADOS

Foto: Pedro Isaias Lucas


Meierhold”, a nova encenação coletiva da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, entra em sua terceira semana da temporada, sempre de quintas aos sábados, às 20 horas, na Terreira da Tribo (rua Santos Dumont 1186), com ingressos a R$ 40,00 ( Ingressos antecipados no Meme Santo de Casa - rua Lopo Gonçalves, 176 - fone 30192595 e no StúdioClio - rua José do Patrocínio, 698 – fone 32547200, além da Terreira da Tribo). “Meierhold” é uma adaptação livre de “Variaciones Meyerhold” do dramaturgo, ator e psicanalista argentino Eduardo Pavlovsky. No centro da encenação o célebre ator, diretor e teórico russo – Meierhold – cujo discurso inovador e revolucionário o transformou em um dos maiores pensadores do teatro mundial. Ao completar o seu quadragéssimo ano de trajetória a Tribo homenageia dois Mestres da cena contemporânea e do teatro latino-ameriacano: Meierhold e Pavlovsky. A encenação realiza temporada até 22 de dezembro.

 
Foto: Lucas Gheller
 
Meierhold” mostra o encenador russo num tempo fora da realidade, póstumo, como um espectro que reflete sobre o seu discurso artístico e os relaciona com momentos dramáticos de sua trajetória pessoal, sujeito ao cárcere, tortura e humilhações até o seu brutal assassinato pelas autoridades da Russia stalinista. Na encenação estruturada em fragmentos, Meierhold passa de pensamentos em voz alta a relatos e diálogos imaginários com diferentes interlocutores, como com a sua amada, a atriz Zinaida Reich, também assassinada tragicamente. A história de Meierhold não deixa de nos colocar em questionamentos sobre o momento e o lugar em que vivemos. A dinâmica da encenação busca perguntar aos espectadores como Meierhold nos afeta e nos comove no sombrio Brasil de hoje.
A densidade dramática, social e psicológica da encenação provoca emoção, surpresas, questionamentos. É a reiteração poética de que devemos mais do que nunca ser utópicos. E a “imaginação criadora” é uma das condições para abrir perspectivas, esperanças de oxigenação para o futuro. O teatro é o espaço do humano em cena. É um ato de presença a partir do qual pessoas, audácias, invenções, imaginações, riscos e insubordinações podem se entrelaçar para escapar da homogeneização. Vivemos um tempo de identidades fragmentadas e de éticas fraturadas. Indivíduos sem história e sem memória, a ênfase no individualismo exacerbado compõe a trama social que favorece a criação de novas e avançadas “máquinas repressoras do futuro”. Daí a importância de afirmar sempre a necessidade de resistir e de alimentar ideais.

INGRESSOS DISPONÍVEIS AQUI