A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

TERREIRA DA TRIBO - EU APOIO!

Estamos com uma campanha de financiamento coletivo e permanente para a manutenção da Terreira da Tribo, através de uma plataforma online que se chama Benfeitoria.
Tu tens que acessar o link www.benfeitoria.com/terreiradatribo
Ali tu tens que te cadastrar na plataforma e é só seguir os passos. Funciona como uma assinatura mensal. 



A Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é hoje um dos principais centros de investigação cênica do país. Foi criada em 1984 no bairro Cidade Baixa em Porto Alegre, RS. Em 1999, por conta da especulação imobiliária, mudou-se para o bairro Navegantes, onde foi constituída a Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo. Em 2009, mais uma vez por conta da especulação imobiliária, trocou de endereço para o bairro São Geraldo, onde permanece até hoje. E é nessa sede que a Terreira da Tribo celebrará seus 35 anos de existência em 2019. Desde o seu surgimento, ocupa lugar de destaque entre os espaços culturais do estado do RS, sendo igualmente apontada como referência também no âmbito nacional. É o espaço físico e telúrico de experimentação cênica, criação independente e autônoma do grupo de teatro Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. O coletivo, por sua vez, há 41 anos compartilha sua pesquisa e investigação na linguagem teatral, aprimorando o trabalho estético sem perder o compromisso ético e a coerência ideológica.

Além de ser o espaço sede do grupo, a Terreira é também o Teatro onde o mesmo realiza suas encenações de "Teatro de Vivência" (linguagem desenvolvida pelo grupo que requer um espaço próprio para a interferência criativa). Bem como é palco para outras encenações do próprio grupo e de mostras pedagógicas com exercícios cênicos que o grupo orienta. Desde 2010 também é palco de importantes grupos de teatro nacionais e latino-americanos que passaram pela Terreira da Tribo e pela cidade por meio do projeto Festival de Teatro Popular - Jogos de Aprendizagem, também promovido pelo Ói Nóis. O espaço ainda armazena o acervo de todo material produzido nos 41 anos de trajetória do grupo. Trata-se de um vasto acervo que contém figurinos, adereços, bonecos, cenografias, fotografias, reportagens de jornais e material audiovisual. Vasto material de pesquisa que compõe sua história e narra uma parte da história do Teatro Brasileiro. Além de contar com uma rica biblioteca aberta ao público.




O Ói Nóis Aqui Traveiz tem na sua essência o compartilhamento e a difusão do seu trabalho, porque acredita no teatro como um instrumento de análise da realidade cuja função social é contribuir para o conhecimento dos homens e o aprimoramento da sua condição. Transformou sua sede em um Centro Cultural e uma reconhecida Escola de Teatro. É na vertente pedagógica que o grupo desenvolve diferentes oficinas direcionadas à formação de novos atuadores. Dessa forma, acontecem na Terreira da Tribo oficinas de longa duração e oficinas permanentes, tais como: “Formação de Atores”, “Teatro Ritual”, “Teatro de Rua - Arte e Política”, “Teatro Livre” e “Teatro Como Instrumento de Discussão Social”. Esta última estende-se a outros bairros da cidade e cidades vizinhas, ocupando outros espaços que funcionam como ramificações da Terreira da Tribo. Todas as oficinas são oferecidas gratuitamente à população. Esse trabalho pedagógico já formou e segue formando não somente artistas, mas grupos de teatro inteiros pela cidade. Além, claro, de influenciar outros tantos espalhados pelo país por onde o grupo passou.




Por ter como característica desde o princípio o compartilhamento e por se destinar a ser um ponto de aglutinação de pessoas e profissionais dos mais diversos segmentos e diferentes áreas artísticas, a Terreira da Tribo em 2014 foi reconhecida pelo Governo Federal como Ponto de Cultura. No entanto, este espaço de resistência cultural está ameaçado. Há quase uma década, o grupo luta para restabelecer a Terreira da Tribo de volta ao bairro de origem, com prédio próprio em terreno público, sem precisar pagar seus dois alugueis atuais, pois além da sede o grupo precisa manter um depósito no qual fica guardado parte de seu acervo.




Como os tempos são difíceis e bem sabemos que as perspectivas não são as melhores, buscamos um apoio público e coletivo para realizar esse trabalho público e coletivo, cujo alcance chega a uma população que por sua carência econômica nem sempre tem acesso aos bens culturais. Então, esse lugar que há 35 anos existe de forma autônoma – no qual a manutenção é realizada coletivamente por meio da doação de tempo e força de trabalho de muitas e muitos atuadores – precisa da colaboração de todas e todos para continuar (re)existindo. Um espaço que possibilita o encontro entre pessoas que se reconhecem e alimentam a ideia de outro mundo possível, onde as relações são calcadas no respeito mútuo e a liberdade criativa impera. A Terreira da Tribo precisa do apoio de todas e todos, mais do que nunca.