DUAS CARTAS PARA MEYERHOLD

  Carta de Henrique Saidel   Fotos de Eugênio Barboza, Lucas Gheller e Pedro Isaias Lucas Porto Alegre, inverno de 2020 Querido Meyerhold, Escrevo esta carta como quem escreve algo de muito importante, como quem escreve algo que lhe causa um tanto de medo e hesitação, como alguém que deseja escrever coisas bonitas, coisas inesquecíveis, inteligentes, coisas revolucionárias, coisas que estejam à altura da tua arte, do teu teatro, da tua vida. Escrevo esta carta depois de ter escrito “Querido Meyerhold”, ali no topo da página, há vários dias e depois de ter ficado vários dias sem escrever mais nada, apenas olhando a página em branco e pensando em todas as coisas bonitas, inesquecíveis, inteligentes e revolucionárias que eu poderia dizer para você e a teu respeito. Escrevo esta carta mais de um ano depois de ter visto (duas vezes) a peça que o Ói Nóis Aqui Traveiz fez com você no título e como personagem, e mais de dezenove ou vinte anos depois de te ler pela primeira v

O DESERTO VERMELHO NO CINECLUBE DA TERREIRA DA TRIBO

Nesta segunda-feira, dia 8 de abril, às 20 horas, o Cineclube daTerreira da Tribo (rua Santos Dumont, 1186) exibe a obra-prima do cineasta italiano Michelangelo Antonioni “O Deserto Vermelho”, seguido de comentários do crítico Marcus Mello (Cinemateca Capitólio, Revista Teorema), com entrada franca. A exibição de “O Deserto Vermelho” faz parte da programação “Terreira da Tribo Eu Apoio!” - que é uma campanha de financiamento coletivo e permanente para a manutenção do espaço cultural Terreira da Tribo, através de uma plataforma online. As pessoas interessadas em colaborar na campanha podem fazer uma assinatura mensal no link www.benfeitoria.com/terreiradatribo.



O Deserto Vermelho foi o primeiro filme colorido de Antonioni, produção de 1964, e até hoje reverenciado pelo uso da cor no cinema. No filme Giuliana (Monica Vitti) esposa de Ugo (Carlo Chionetti) com qual ela tem um filho habita a cidade industrializada em Ravenna, na Itália. Ela sofreu um acidente de carro e acabou de sair da clínica mas ainda não se recuperou do choque que ela teve e se encontra em constante estado de agonia. Ela conhece o engenheiro Corrado (Richard Harris), amigo de seu esposo que por interesse sexual logo se torna amigo de Giuliana e tenta a ajudar com seus problemas. Filme com uma trilha sonora agonizante e explorando alguns dos temas mais recorrentes durante a carreira de Antonioni: a solidão e a incomunicabilidade do ser humano.
As preocupações ecológicas que o filme expressa são mais pertinentes hoje que na época do seu lançamento. A pergunta que o filme não faz diretamente, mas faz aparecer no absurdo de cada seqüência, é: qual é o lugar do humano numa sociedade ocupada cada vez mais pelas operações industriais, pela especialização e segmentação do trabalho e pela ideologia utilitarista reinante?


Em O Deserto Vermelho, a angústia da alma dos três filmes anteriores( A Aventura, A Noite e O Eclipse) ganha materialidade e surge no mundo. Através de Giuliana, o que o filme dramatiza é a fragilidade humana diante do enorme gigante industrial que o próprio homem cria: traumatizada por um acidente de automóvel, ela é uma mulher instável, indecisa, à beira de um comportamento totalmente patológico. E, por sua própria posição de precariedade e não-utilidade, é ela que "encarna" o substrato dos dramas humanos de seu tempo. Sua casa, tomada por decoração e móveis hi-tech que fazem com que mesmo no lar ela se sinta como numa fábrica, não é casa: o único lugar que oferece algum consolo espacial é a casa em reforma que ela pretende utilizar como algum tipo de loja (ela não sabe para vender o quê) .O Deserto Vermelho consegue a enorme façanha de ser fiel à desorientação de sua personagem. Pois, se num momento o filme se arma para ser um relato de encontro/interesse/relacionamento entre um homem e uma mulher e uma conseqüente superação do estado de letargia da personagem, ao longo da projeção essa expectativa é inteiramente quebrada e o fim do filme revela, pela repetição da locação do início, uma volta ao mesmo regime de estagnação. A cor no filme funciona – sublime, impecável – num sentido de construção dramática, utilizando alguns tons pastosos, híbridos, insidiosos, saturando a imagem e dando a ela um sentimento arrastado de um espaço pouco agradável. Como grande especialista em construir espaço através de enquadramento, angulação e posição de câmera, Antonioni rapidamente começa O Deserto Vermelho estabelecendo um espaço já impregnado de determinadas características, inscreve nele seus personagens e os faz interagir com o meio que os circunda. Assim, logo na primeira seqüência, Monica Vitti come um sanduíche tendo a sua frente o lixo tóxico despejado pela fábrica e, às suas costas, o fogo barulhento e constante que faz a chama que sai de uma chaminé.
Marcus Mello é crítico de cinema, um dos editores da revista Teorema, fundada em agosto de 2002, uma das publicações de cinema mais respeitadas do Brasil. Formado em Letras, é Mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS e especialista em gestão cultural pela Universidade de Girona, na Espanha, em curso realizado em parceria com o Itaú Cultural de São Paulo. Entre maio de 2013 e dezembro de 2016 foi Coordenador de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria da Cultura de Porto Alegre e diretor da Cinemateca Capitólio, inaugurada em março de 2015.