DUAS CARTAS PARA MEYERHOLD

  Carta de Henrique Saidel   Fotos de Eugênio Barboza, Lucas Gheller e Pedro Isaias Lucas Porto Alegre, inverno de 2020 Querido Meyerhold, Escrevo esta carta como quem escreve algo de muito importante, como quem escreve algo que lhe causa um tanto de medo e hesitação, como alguém que deseja escrever coisas bonitas, coisas inesquecíveis, inteligentes, coisas revolucionárias, coisas que estejam à altura da tua arte, do teu teatro, da tua vida. Escrevo esta carta depois de ter escrito “Querido Meyerhold”, ali no topo da página, há vários dias e depois de ter ficado vários dias sem escrever mais nada, apenas olhando a página em branco e pensando em todas as coisas bonitas, inesquecíveis, inteligentes e revolucionárias que eu poderia dizer para você e a teu respeito. Escrevo esta carta mais de um ano depois de ter visto (duas vezes) a peça que o Ói Nóis Aqui Traveiz fez com você no título e como personagem, e mais de dezenove ou vinte anos depois de te ler pela primeira v

MAIS UM ATENTADO A LIBERDADE DE EXPRESSÃO DESSA VEZ FOI A CAIXA CULTURAL DO RECIFE

"Abrazo" Foto: Cacá Diniz


A censura que já vem se tornando recorrente desde 2016, aconteceu desta vez no Recife. O espetáculo  “Abrazo”, do grupo teatral Clowns de Shakespeare de Natal (RN), teve as suas sessões suspensas pela Caixa Cultural Recife. No último sábado, dia 7 de setembro, após haver realizado a primeira apresentação do espetáculo Abrazo na Caixa Cultural Recife, o grupo foi surpreendido com o cancelamento da segunda sessão do dia, assim como das demais apresentações que seriam realizadas no dia seguinte. Nesta segunda-feira o Clowns de Shakespeare recebeu um comunicado oficial da Caixa Econômica Federal informando a rescisão do contrato relativo ao restante desta temporada, que se estenderia até o próximo domingo, 15 de setembro, sob a genérica alegação de descumprimento contratual. Nenhum esclarecimento adicional  foi dado, o que levou o grupo a solicitar da Caixa o parecer jurídico e a decisão administrativa relativos a essa rescisão, com detalhamento para que o grupo possa recorrer judicialmente. O contrato de patrocínio celebrado com a Caixa decorreu de edital no qual se habilitou e foi selecionado o Grupo Clowns de Shakespeare, dentro das normas legais de seleção de projetos. Essa justificativa, genérica e lacônica, sem maiores esclarecimentos pela Caixa, é mais uma forma de censura a arte no nosso país. Os artistas do Recife estão preparando uma manifestação pela Liberdade de Expressão para este sábado em frente a Caixa Cultural Recife.
Livremente inspirada em “O Livro dos abraços”, de Eduardo Galeano, com roteiro dramatúrgico de César Ferrario e direção de Marco França, a peça leva para o universo da criança temas como guerras e proibições. No elenco os atores Camille Carvalho, Dudu Galvão e Paula Queiroz, se revezam entre os vários personagens. 

O Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare, um dos mais importantes do país, foi criado em 1993 em Natal e, desde então, vem desenvolvendo um trabalho com ênfase na construção da presença cênica do ator, explorando a musicalidade da cena e do corpo, e pesquisando elementos do teatro popular e da comédia. Como o nome indica, mesmo sem trabalhar diretamente com o palhaço em cena, as técnicas do clown estão presentes na estética do grupo. Elas aparecem na relação de empatia com a platéia, ou no lirismo que compõe o universo desses seres, além, é claro, da comicidade que os palhaços carregam. Já veio a Porto Alegre pelo Palco Giratório e Porto Alegre Em Cena, e em 2017 apresentou o espetáculo “Nuestra Senhora de Las Nuvens”, de Aristides Vargas, no V Festival de Teatro Popular: Jogos de Aprendizagem da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz.