A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

TERREIRA DA TRIBO EU APOIO! CINEMA COM ENTRADA FRANCA

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz volta a partir de 2 de setembro, dentro da campanha TERREIRA DA TRIBO EU APOIO!, a sua programação, com entrada franca, nas noites de segundas e terças-feiras. Cinema e música vão se alternar com encenações de teatro e performance. O Cineclube da Terreira inicia a programação com dois filmes de Fernando Arrabal, “Viva La Muerte!”, na segunda-feira, e “A Àrvore de Guernica”, na terça-feira. No dia 2 de setembro após o filme conversa com o professor doutor Enrique Padrós (UFRGS). A programação acontecerá sempre às 20 horas, com senhas distribuidas a partir das 19 horas, na Terreira da Tribo (rua Santos Dumont 1186). A Terreira da Tribo que sempre ocupou prédios privados pagando onerosos alugueis se encontra num momento dramático para conseguir viabilizar a sua existência. “Terreira da Tribo – Eu Apoio” é uma campanha de apoio coletivo e permanente que a Tribo lançou na plataforma virtual da Benfeitoria como forma de manutenção do espaço da Terreira que completa 35 anos de existência na cidade de Porto Alegre. Mais informações em www.benfeitoria.com/terreiradatribo .

 
Abrindo a programação, no dia 2 de setembro, será exibido o filme “Viva La Muerte!”(1971) e, no dia 3 de setembro, “A Àrvore de Guernica” (1975). “Viva La muerte!” se passa durante a guerra civil espanhola, Fando é um menino que vê como seu pai é arrastado pelos militares depois que sua mãe o delata por colaborar como os “vermelhos”. Sua mãe é fascista e católica e Fando constantemente lhe faz perguntas sobre a morte e sobretudo do paradeiro de seu pai, o qual, segundo sua mãe, foi executado. Em “A Àrvore de Guernica”, iniciada a Guerra Civil Espanhola, o exército de Franco encontra nos territórios do norte do país, terra dos bascos, uma forte resistência. Um desses lugares é o povo de Villa Ramiro, que está governada por um conde, título que provém da idade média e que ainda mantém a vida feudal. Seus habitantes, fartos já deste sistema injusto, se rebelam contra o nobre reclamando seus direitos, aproveitando os ares renovadores da República.



Os dois longa-metragens foram dirigidos pelo dramaturgo, poeta e diretor de cinema, o espanhol Fernando Arrabal, criador juntamente com Alejandro Jodorowsky e Roland Topor, no início dos anos 60, em París, do Movimento Pânico; designação que vem etimologicamente do deus grego “Pan”, deus da totalidade, e se deu como uma expressão artística com pretensões de anunciar a loucura controlada como possibilidade de sobrevivência ante uma sociedade em crise de valores (a sociedade pós-moderna). Arrabal é mais conhecido no Brasil pelas peças teatrais como “O Arquiteto e o Imperador da Assíria”, “O Cemitério de Automóveis”, “A Torre de Babel” e “O Pic-Nic no Front”. A fonte da sua criação é a Espanha mística, blasfema, reprimida, repressora, trágica, farsesca e barroca.