A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

“Tu Não Vale Nada” EVOÉ! JÚLIO SARAIVA


No próximo dia 19 de setembro, quinta-feira, na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186), amigos, artistas e o público de teatro vai celebrar a trajetória do artista porto-alegrense Júlio Saraiva. Uma homenagem a sua irreverência, à sua arte sarcástica e provocativa. Um recorte caleidoscópico e fragmentado de sua vida e obra para guardar na memória. A rememoração da sua trajetória, no dia que ele completaria 71 anos, será uma noite com depoimentos, exposição plástica, teatro, cinema e música. A partir das 18 horas com entrada franca.



             Júlio Saraiva, falecido recentemente, era um artista completo, ator e diretor teatral, bonequeiro, cenógrafo, iluminador, artista plástico e músico. Um dos artistas mais importante da história recente do teatro gaúcho atuou em encenações importantes como “Hoje é Dia de Rock”, “A Morta”, “A Morte e a Donzela”. Dirigiu peças memoráveis como “Rango” e “Papel, Papel, Papelada” na década de oitenta. Arquiteto por formação, Saraiva teve importante atuação no teatro de bonecos. Em 1994, dirigiu Maria Farrar, baseada no poema de Bertolt Brecht, com o grupo Julietas e os Metabonecos. Nos anos dois mil criou  “Os Vigaristas” e “Van Gogh”, dirigindo e atuando. Entre os seus trabalhos mais recentes estiveram as direções de “O Último Personagem 1968 — Um Exercício Dramático” com Eduardo Toledo, “O Idiota — Capítulo 6”, baseado na obra de Dostoiévski, com Gutto Basso, e “Hoje Sou Hum; Amanhã Outro”, peça de Qorpo-Santo com o Ubando Grupo. Atuou também em cinema e protagonizou, em 2017, o filme “Sobre Sonhos e Águas” de Mirela Kruel.
            Na noite de celebração haverá uma exposição de máscaras criadas por Júlio Saraiva e retratos de Júlio pintados pelo artista Sérgio Stein,  organizada por Isabella Lacerda e Renan Leandro. Haverá uma mostra de cenas de peças dirigidas por Saraiva com os grupos Teatro Tabarin e Ubando, e os artistas Nelson Haas, Beth Bado, Jairo Klein e Núbia Quintana. Será exibido um documentário sobre a sua trajetória e o filme “Sobre Sonhos e Águas”, além de depoimentos de diversos artistas.  Finalizando com a música de Maria Rita Stumpf apresentando canções do seu último álbum, e dos compositores Luis Paulo Faccioli e Zé Caradipia.