Santos Amargos

Paulo Bio Toledo - (Cavalo Louco Revista de teatro, dezembro de 2009)
[...] O dom de Despertar no passado as centelhas da esperança é um privilégio exclusivo do Historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
Walter Benjamin Sobre o conceito da história
Necrofilia é o amor ao futuro Heiner Müller

Fotos de Pedro Isaias Lucas 
Anjos
A famosa metáfora do anjo da história do pensador alemão Walter Benjamin – interpretação poética da pintura Angelus Novus, de Paul Klee – retrata um anjo que observa o passado amontoado de entulho e destroços da civilização, mas não pode parar, é incessamente puxado ao futuro pelos ventos do Progresso.
Heiner Müller reescreve a imagem. Seu anjo olha a frente. Observa o futuro “represado, esmagando seus olhos”, mas a pilha de destroços é mais rápida que ele e o comprimento no instante: entre o passado e o futuro.Imobilizado, esmagado. Até que: “um renovado rufar de pod…

“Tu Não Vale Nada” EVOÉ! JÚLIO SARAIVA

No próximo dia 19 de setembro, quinta-feira, na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186), amigos, artistas e o público de teatro vai celebrar a trajetória do artista porto-alegrense Júlio Saraiva. Uma homenagem a sua irreverência, à sua arte sarcástica e provocativa. Um recorte caleidoscópico e fragmentado de sua vida e obra para guardar na memória. A rememoração da sua trajetória, no dia que ele completaria 71 anos, será uma noite com depoimentos, exposição plástica, teatro, cinema e música. A partir das 18 horas com entrada franca.

Arquiteto, ator, diretor, músico, artista plástico, provocador, irreverente, irônico, debochado e convicto seguia na busca de um teatro que fosse uma experiência transformadora, sempre sob o signo da reinvenção, da liberdade de criação, independente de cânones, na realização de trabalhos que extrapolassem suas radicalizações criativas. Crítico contumaz agiu sempre na contramão, no contrassenso, em mais de quatro décadas de atividades teve diversos trabalhos premiados com ‘Cadê o osso da minha sopa?’, ‘Rango’ e ‘A Morte e a Donzela’.  Com voz trovejante e presença imponente destacava-se com atuações marcantes, seu caráter inovador e o espirito transgressor são marcas presentes em sua obra. Foi da Patagônia à Tailândia com o Teatro de Bonecos onde se expressava com maior ardor, acreditava na força mágica do teatro, numa magia profunda e fecunda, que tocasse as pessoas, que tocasse a vida. Rompia com as tradições, rompia com os limites, não seguia receitas nem regras, buscava soluções pra cena na tensão, no contraste, na dissonância, no obscuro, noutro lugar que fosse diametralmente oposto ao lugar-comum (detestava a mediocridade). Atuou, dirigiu, produziu, escreveu, fez música, fez cenário, fez figurino, fez máscaras, fez bonecos, luz, sombras, teatro de rua, cinema, do lixo fez espetáculos, circulou o Brasil e também o exterior, um artista contestador que defendia suas ideias de forma voraz e contundente, foi ativista e militante, tendo colaborado no movimento da cena teatral gaúcha, um criador singular que será lembrado pela sua inventividade, perspicácia e irreverência. 

Depoimento de Renan Leandro