Anti-heroína de Pindaíba

Antônio Hohlfeldt (Jornal do Comércio18 de abril de 1997)
Fotos de Adriana Franciosi
Ao completar 19 anos de vida, traída pela Administração Popular que se nega a dar qualquer apoio à  idéia de sua permanência no local em que fez história na cidade, nem por isso a trupe de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz perde sua fleuma e sua força. Aniversário se faz com festa e festa, para um grupo de teatro, é representar. Foi o que fez o Ói Nóis..., estreando seu novo espetáculo de teatro de rua, A Heroína de Pindaíba.
   Trata-se da adaptação de uma peça de Augusto Boal, dos tempos do seu exílio na Argentina (1975), originalmente intitulada O homem que era uma fábrica. O texto original era uma fábula e, apesar ou justamente por causa das adaptações sofridas, mais fábula e mais farsa ficou ainda o espetáculo que conta a história de Matilda Silva da Silva (o povo brasileiro) que sonha emigrar para os Estados Unidos, deixando Pindaíba (Brasil). Para tanto, e após passar por um sem-número de exigências…

“Tu Não Vale Nada” EVOÉ! JÚLIO SARAIVA

No próximo dia 19 de setembro, quinta-feira, na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186), amigos, artistas e o público de teatro vai celebrar a trajetória do artista porto-alegrense Júlio Saraiva. Uma homenagem a sua irreverência, à sua arte sarcástica e provocativa. Um recorte caleidoscópico e fragmentado de sua vida e obra para guardar na memória. A rememoração da sua trajetória, no dia que ele completaria 71 anos, será uma noite com depoimentos, exposição plástica, teatro, cinema e música. A partir das 18 horas com entrada franca.

Arquiteto, ator, diretor, músico, artista plástico, provocador, irreverente, irônico, debochado e convicto seguia na busca de um teatro que fosse uma experiência transformadora, sempre sob o signo da reinvenção, da liberdade de criação, independente de cânones, na realização de trabalhos que extrapolassem suas radicalizações criativas. Crítico contumaz agiu sempre na contramão, no contrassenso, em mais de quatro décadas de atividades teve diversos trabalhos premiados com ‘Cadê o osso da minha sopa?’, ‘Rango’ e ‘A Morte e a Donzela’.  Com voz trovejante e presença imponente destacava-se com atuações marcantes, seu caráter inovador e o espirito transgressor são marcas presentes em sua obra. Foi da Patagônia à Tailândia com o Teatro de Bonecos onde se expressava com maior ardor, acreditava na força mágica do teatro, numa magia profunda e fecunda, que tocasse as pessoas, que tocasse a vida. Rompia com as tradições, rompia com os limites, não seguia receitas nem regras, buscava soluções pra cena na tensão, no contraste, na dissonância, no obscuro, noutro lugar que fosse diametralmente oposto ao lugar-comum (detestava a mediocridade). Atuou, dirigiu, produziu, escreveu, fez música, fez cenário, fez figurino, fez máscaras, fez bonecos, luz, sombras, teatro de rua, cinema, do lixo fez espetáculos, circulou o Brasil e também o exterior, um artista contestador que defendia suas ideias de forma voraz e contundente, foi ativista e militante, tendo colaborado no movimento da cena teatral gaúcha, um criador singular que será lembrado pela sua inventividade, perspicácia e irreverência. 

Depoimento de Renan Leandro