DUAS CARTAS PARA MEYERHOLD

  Carta de Henrique Saidel   Fotos de Eugênio Barboza, Lucas Gheller e Pedro Isaias Lucas Porto Alegre, inverno de 2020 Querido Meyerhold, Escrevo esta carta como quem escreve algo de muito importante, como quem escreve algo que lhe causa um tanto de medo e hesitação, como alguém que deseja escrever coisas bonitas, coisas inesquecíveis, inteligentes, coisas revolucionárias, coisas que estejam à altura da tua arte, do teu teatro, da tua vida. Escrevo esta carta depois de ter escrito “Querido Meyerhold”, ali no topo da página, há vários dias e depois de ter ficado vários dias sem escrever mais nada, apenas olhando a página em branco e pensando em todas as coisas bonitas, inesquecíveis, inteligentes e revolucionárias que eu poderia dizer para você e a teu respeito. Escrevo esta carta mais de um ano depois de ter visto (duas vezes) a peça que o Ói Nóis Aqui Traveiz fez com você no título e como personagem, e mais de dezenove ou vinte anos depois de te ler pela primeira v

“Tu Não Vale Nada” EVOÉ! JÚLIO SARAIVA

No próximo dia 19 de setembro, quinta-feira, na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186), amigos, artistas e o público de teatro vai celebrar a trajetória do artista porto-alegrense Júlio Saraiva. Uma homenagem a sua irreverência, à sua arte sarcástica e provocativa. Um recorte caleidoscópico e fragmentado de sua vida e obra para guardar na memória. A rememoração da sua trajetória, no dia que ele completaria 71 anos, será uma noite com depoimentos, exposição plástica, teatro, cinema e música. A partir das 18 horas com entrada franca.

Arquiteto, ator, diretor, músico, artista plástico, provocador, irreverente, irônico, debochado e convicto seguia na busca de um teatro que fosse uma experiência transformadora, sempre sob o signo da reinvenção, da liberdade de criação, independente de cânones, na realização de trabalhos que extrapolassem suas radicalizações criativas. Crítico contumaz agiu sempre na contramão, no contrassenso, em mais de quatro décadas de atividades teve diversos trabalhos premiados com ‘Cadê o osso da minha sopa?’, ‘Rango’ e ‘A Morte e a Donzela’.  Com voz trovejante e presença imponente destacava-se com atuações marcantes, seu caráter inovador e o espirito transgressor são marcas presentes em sua obra. Foi da Patagônia à Tailândia com o Teatro de Bonecos onde se expressava com maior ardor, acreditava na força mágica do teatro, numa magia profunda e fecunda, que tocasse as pessoas, que tocasse a vida. Rompia com as tradições, rompia com os limites, não seguia receitas nem regras, buscava soluções pra cena na tensão, no contraste, na dissonância, no obscuro, noutro lugar que fosse diametralmente oposto ao lugar-comum (detestava a mediocridade). Atuou, dirigiu, produziu, escreveu, fez música, fez cenário, fez figurino, fez máscaras, fez bonecos, luz, sombras, teatro de rua, cinema, do lixo fez espetáculos, circulou o Brasil e também o exterior, um artista contestador que defendia suas ideias de forma voraz e contundente, foi ativista e militante, tendo colaborado no movimento da cena teatral gaúcha, um criador singular que será lembrado pela sua inventividade, perspicácia e irreverência. 

Depoimento de Renan Leandro