A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

50 ANOS DO ASSASSINATO DE CARLOS MARIGHELLA PELA DITADURA CIVIL-MILITAR



50 ANOS DO ASSASSINATO DE CARLOS MARIGHELLA

PELA DITADURA CIVIL-MILITAR


Em novembro de 1969, a polícia de São Paulo, a mando do ditador Emílio Garrastazu Médici e dos seus generais, desencadeou uma ampla operação para localizar Marighella. Frades dominicanos, que faziam parte do grupo de apoio da ALN (Ação Libertadora Nacional), foram presos. Submetidos à tortura pelo facínora delegado Sérgio Fleury, revelaram que tinham encontros com o líder da ALN. Um dos frades foi obrigado a marcar um encontro com Marighella. Acertaram hora e lugar. A polícia chegou com antecedência ao local marcado, a Alameda Casa Branca. O delegado Fleury comandou a preparação da emboscada. Ao chegar, Marighella foi alvo de uma fuzilaria. Morreu na hora. Era a noite de 4 de novembro.
Carlos Marighella, se estivesse vivo, estaria junto ao povo lutando contra o fascismo, por pão, terra, trabalho, saúde, educação, cultura, lutaria por liberdade e alegria para todos. No dia que marca cinquenta anos do seu assassinato, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz rememora esse trágico acontecimento e celebra a trajetória de vida desse revolucionário brasileiro. De setembro de 2008 a agosto de 2016 a Tribo encenou em ruas, praças e parques do nosso país a sua criação coletiva “O Amargo Santo da Purificação – Uma Visão Alegórica e Barroca da Vida, Paixão e Morte do Revolucionário Carlos Marighella”, levando a milhares de pessoas a história desse herói popular.
Neste momento em que a nossa frágil democracia está ameaçada por um projeto de poder neofacista, de caráter neoliberal e policial, é importante celebrar a vida de Carlos Marighella e de todos os mortos e desaparecidos políticos que lutaram contra a ditadura civil-militar em nome da liberdade e da justiça social para todos brasileiros.
     
MARIGHELLA VIVE!