Santos Amargos

Paulo Bio Toledo - (Cavalo Louco Revista de teatro, dezembro de 2009)
[...] O dom de Despertar no passado as centelhas da esperança é um privilégio exclusivo do Historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
Walter Benjamin Sobre o conceito da história
Necrofilia é o amor ao futuro Heiner Müller

Fotos de Pedro Isaias Lucas 
Anjos
A famosa metáfora do anjo da história do pensador alemão Walter Benjamin – interpretação poética da pintura Angelus Novus, de Paul Klee – retrata um anjo que observa o passado amontoado de entulho e destroços da civilização, mas não pode parar, é incessamente puxado ao futuro pelos ventos do Progresso.
Heiner Müller reescreve a imagem. Seu anjo olha a frente. Observa o futuro “represado, esmagando seus olhos”, mas a pilha de destroços é mais rápida que ele e o comprimento no instante: entre o passado e o futuro.Imobilizado, esmagado. Até que: “um renovado rufar de pod…

CINECLUBE DA TERREIRA DA TRIBO EXIBE DOIS CLÁSSICOS DE AGNÈS VARDA


Nesta segunda e terça-feira, dias 9 e 10 de dezembro , o Cineclube da Terreira da Tribo exibe dois clássicos da cineasta francesa Agnès Varda. Na segunda-feira passa o filme “Os Catadores e Eu”, e na terça-feira “As Praias de Agnès”, às 20 horas, na Terreira da Tribo (rua Santos Dumont, 1186), com entrada franca. O cineclube faz parte da programação da “Terreira da Tribo – Eu Apoio”, que é uma campanha de apoio coletivo e permanente que a Tribo lançou na plataforma virtual da Benfeitoria como forma de manutenção do espaço da Terreira que completou 35 anos de existência na cidade de Porto Alegre. Mais informações em www.benfeitoria.com/terreiradatribo.



Único nome feminino por trás da Nouvelle Vague e uma das mais importantes cineastas da história, Agnès Varda (1928-2019) possui uma filmografia repleta de transformações ao longo dos anos. Desenvolveu seu trabalho com igual interesse e força pela ficção e pelo documentário, por questões políticas, sociais e feministas, assim como por temas e reflexões pessoais. No entanto, um traço em comum une todas essas frentes: a liberdade formal com que realiza seus filmes. Buscando nos detalhes da realidade a inspiração para sua produção, seus trabalhos têm teor simbólico e politizado, sem deixar de lado sua construção estilística extremamente particular.



Os Catadores e Eu (Les glaneurs et la glaneuse, França, 2000, 78 min) Um dia, frequentando uma feira de seu bairro, Varda se surpreendeu com as figuras dos catadores, que vivem dos restos de comida. Ela retornou às feiras e aos poucos travou contato com essas pessoas para descobrir sua rotina, sua visão sobre a França e as perspectivas para o futuro. Os Catadores e Eu é um documentário que mostra uma visão humana da vida dos catadores de frutas que, após a colheita, recolhem tudo aquilo que ficou no chão e depois vendem ou doam para os pobres famintos. A partir de um célebre quadro de Millet, Des glaneuses (Os Catadores), o filme de Agnès Varda é um olhar sobre a persistência na sociedade contemporânea dos catadores, aqueles que vivem da recuperação de coisas que os outros rejeitam. A catadora, nesse sentido, é Agnès Varda, que experimentando pela primeira vez uma pequena câmera digital, se assume como uma recuperadora das imagens que outros não querem ver nem fazer, e que, portanto, deixam para trás.





As Praias de Agnès (Les plages d'Agnès, França, 2008, 108 min) “Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, irá achar praias”. Na areia de uma praia, Agnès Varda dispõe espelhos que refletem o mar e também seu rosto – ponto de partida para uma viagem autobiográfica em que se alternam documentário e ficção. “É uma ideia engraçada, entrar em cena, filmar um autorretrato quando se tem quase 80 anos”. A ideia surgiu um dia na praia em Noirmoutier (onde ela filmou, em 2006, Quelques Veuves de Noirmoutier). “Percebi que outras praias tinham marcado a minha vida. As praias se tornaram um pretexto e sequências do filme. Eu queria passar para meus parentes e conhecidos algumas histórias e algo de meu trabalho ao longo de minha jornada de vida. E mais, queria voltar o espelho para os outros, para aqueles que me formaram, aqueles que conheci, as pessoas que amei.” Após as exibições haverá uma conversa com o cineasta Pedro Isaías Lucas.


 

AGNÈS VARDA




Nascida em Bruxelas, na Bélgica, em 1928, a Segunda Guerra Mundial fez sua família mudar-se para o sul da França. No início da vida adulta, foi para Paris, onde estudou história da arte e começou sua carreira como fotógrafa. Em pouco tempo, mesmo sem experiência e até então tendo visto poucos filmes, passou das imagens estáticas para o cinema com a ajuda de Alain Resnais, seu mentor. No entanto, esse detido olhar fotográfico a seguiu durante todos os seus filmes.

Em 1954, criou sua produtora, a Ciné-Tamaris, mesmo ano de seu primeiro trabalho, La Pointe Courte, filme seminal da Nouvelle Vague e que de alguma maneira já indicava os caminhos nos quais seu cinema iria se desenvolver. Ambientado na vila que dá nome à obra, La Pointe Courte é dividido em duas narrativas que se passam no mesmo lugar, mas que nunca se encontram. A primeira, documental, mostra os habitantes locais lidando com questões coletivas e relacionadas à sobrevivência, enquanto a segunda apresenta um casal em crise cujo marido, querendo se reencontrar, retorna ao lugar onde passou a infância.

Em 1962, fez um de seus mais importantes longas-metragens, Cléo das 5 às 7. Intimista e feminista, ele acompanha a personagem-título por duas angustiantes horas pelas ruas de Paris, enquanto ela aguarda o resultado de um exame. Seu filme seguinte, As Duas Faces da Felicidade (1965), vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim, foca uma família perfeita à primeira vista, não fosse o patriarca um homem infiel, apesar de feliz no casamento.

No final da década de 1960, ocorreu uma primeira guinada em sua trajetória. Agnès Varda e o marido, o também cineasta Jacques Demy, mudaram-se para Los Angeles, durante a efervescência da contracultura nos Estados Unidos. Por lá, segundo ela, mergulhou “no espírito de revolta”, o que derivou em trabalhos como, por exemplo, um curta sobre o movimento dos Panteras Negras. De volta à Europa, passou os anos 1970 e 1980 entre documentários, ficções, curtas e longas-metragens, em um dos períodos mais criativos e de maior produção em sua carreira. Dessa época são filmes como Daguerreótipos (1976), retrato silencioso do cotidiano da rua Daguerre, na capital francesa; Uma Canta, a Outra Não (1977); Os Renegados (1985), vencedor do Leão de Ouro e do Prêmio da Crítica no Festival de Veneza; além de Jane B. por Agnès V. (1988), dedicado e protagonizado pela musa do cinema francês Jane Birkin.

A morte de Jacques Demy em 1990 rendeu duas homenagens dirigidas por ela. Jacquot de Nantes (1991), drama biográfico e lúdico em que se vale das memórias de Demy para encenar, ao mesmo tempo, seu despertar e interesse pelo cinema por meio de evocações de sua infância. A diretora voltou a celebrá-lo com o documentário O Universo de Jacques Demy (1995), em que mostra sua trajetória e visão sobre o cinema.

Na década seguinte, os documentários ganharam outra dimensão em sua filmografia. Com uma abordagem reflexiva, memorialística e irreverente, a diretora se colocou como personagem e voz ativa nos filmes.