Denúncia atualizada de Heiner Muller

Antônio Holfeldt (Jornal do Comércio, 13 de Agosto de 1999) Fotos de Claudio Etges
A estreia de Hamlet Máquina, do dramaturgo alemão contemporâneo Heiner Müller, pelo grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, é um acontecimento verdadeiramente ambíguo. A ambiguidade nasce do fato de a montagem desta peça, que consagrou e projetou internacionalmente o dramaturgo da Antiga Alemanha Popular, ser, por certo, uma feliz oportunidade para nosso teatro, mas, por outro lado, comemorando os quinze de localização da Terreira da Tribo, espaço cênico onde o Ói Nóis Aqui Traveiz desenvolve suas pesquisas e interferências na cidade, constitui-se também em seu canto de cisne: ao final de agosto, interrompendo a sua temporada, a Terreira da Tribo fechará suas portas e o Ói Nóis Aqui Traveiz estará na rua, motivado, dentre outras coisas, pela decisão (ambígua) da Prefeitura Municipal de Porto Alegre em se negar a dar qualquer apoio ao grupo.
A ambiguidade é mais significativa, se formos capazes de fazer a correta leitu…

CAMINHO PARA UM TEATRO POPULAR

Domingo, dia 8 de março, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz inicia o Projeto Caminho Para Um Teatro Popular, com a encenação do espetáculo de Teatro de Rua “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” no bairro da Restinga. A apresentação será às 17 horas na Praça em frente ao Condomínio Belise (próximo da rua Dr. João Dentice). O Projeto foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares 2019 – Edição Teixeirinha, do Ministério da Cidadania do Governo Federal.





O Projeto Caminho Para Um Teatro Popular, criado pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em 1988, é um circuito regular de apresentações em praças, bairros e vilas populares de Porto Alegre. Esta ação tem como principal objetivo democratizar o espaço da arte, oportunizando vivências e reflexões para um público sem acesso aos meios culturais hegemônicos. O projeto, nesta etapa, prevê a circulação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz com seu mais novo espetáculo de teatro de rua Caliban - A Tempestade de Augusto Boal em 5 bairros populares (Restinga, Humaitá, Sarandi, Bom Jesus e no Parque da Redenção) de diferentes regiões de Porto Alegre. O projeto valoriza e difunde as manifestações culturais da cidade, favorecendo o desenvolvimento de um teatro popular e ampliando as opções de lazer e cultura para jovens e adultos. O circuito de teatro de rua abrange todas as camadas sociais e faixas etárias e promove o acesso do cidadão à cultura. Todo trabalho desenvolvido pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em sua trajetória de 42 anos tem como preocupação fundamental a descentralização das atividades artísticas. O teatro de rua traz em sua linguagem singular uma outra noção estética advinda do que é próprio ao ambiente aberto e público. Construído a partir de um trabalho sério e consequente de um dos principais grupos do teatro brasileiro e caracterizado pela rica comunicação visual e auditiva, o espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal leva para as ruas o lúdico e a reflexão histórica, intervindo no cotidiano das pessoas, que vêm sua rotina alterada de surpresa. O teatro é um poderoso instrumento de desvelamento e análise da realidade. Constitui laboratório para a imaginação social, com efeito, a sua função é social: contribuir para o conhecimento dos homens e ao aprimoramento de sua condição. Teatro é local de divertimento e ensino, portanto instrumento de humanidade e transformação. O trabalho da Tribo de Atuadores é exemplo nacional, ao fundir arte e política mediante a investigação e produção de espetáculos de grande mérito cultural. Suas obras nunca deixaram de ser contemporâneas pelo forte enraizamento na comunidade e realidade social, levando à cena questões importantes da atualidade. A Tribo provocou e segue provocando o público a refletir sua condição individual e social, através de uma estética experimental, um modo de atuação envolvente e a colocação de perguntas urgentes para os nossos dias.

 
Foto: Pedro Isaias Lucas

A partir de meados do século XX, Caliban, personagem da peça “A Tempestade” de William Shakespeare, escrita em 1611, tem sido adotado por diversos autores do Caribe e América Latina como ícone cultural, sendo considerado um emblema das populações originárias colonizadas. Caliban, anagrama de canibal, na peça do bardo inglês é o personagem nativo da ilha tropical onde Próspero, duque de Milão que foi traído e usurpado de seu poder, e sua filha Miranda vão encontrar abrigo. Caliban é escravizado e segue as ordens de Próspero, que se apresenta como um benfeitor, por lhe perdoar a vida e lhe ensinar sua língua. Shakespeare apresenta Caliban como um ser humano inferior em todos os sentidos. Em seu livro “Caliban e outros ensaios” o escritor cubano Roberto Fernández Retamar vai ressaltar a potência da figura de Caliban para assinalar o passado de exploração e escravidão de uma América ainda desejosa por lutar contra o domínio imperialista. Ao explicitar que somos todos Caliban, Retamar nos chama atenção para as implicações de se repensar a história a partir do “outro lado”, do olhar dos vencidos, assumindo a condição de Caliban. E é sobre a influência de Retamar que o diretor e dramaturgo Augusto Boal (1931-2009), conhecido mundialmente pelos princípios e as técnicas do Teatro do Oprimido, vai escrever a sua versão de “A Tempestade”, afirmando que a peça é uma resposta ao clássico de Shakespeare. Escrita enquanto Boal estava no exílio, em 1974, período em que os movimentos sociais latino-americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo estadunidense e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares. Na versão de Boal a história é vista pela perspectiva de Caliban, metáfora dos seres humanos originários da América que foram dizimados e escravizados pelos invasores colonizadores representados pelo personagem Próspero. O duque de Milão é tão perverso quanto os nobres europeus que usurparam o seu poder. Todos representam a violenta dominação colonial e cultural. Sua filha Miranda e o príncipe de Nápoles, Fernando, fazem uma aliança não por amor como na peça de Shakespeare, mas sim por interesses capitalistas. Ariel, o “espírito do ar”, representa o artista alienado, mescla de escravo e mercenário a serviço da ordem constituída. Somente Caliban se revolta até ser finalmente, derrotado. Os vilões permanecem na “ilha tropical” para escraviza-lo. Mesmo escravo, Caliban resiste. A Tribo, sem trair a sua vocação artística, quer com o seu Teatro de Rua instaurar a alegria e a indignação nos seus milhares de espectadores. Como em todo bom teatro político, o público deve perceber que os símbolos da obra remetem à realidade, para despertar neles – emotiva e racionalmente – uma resposta crítica fora da ficção. Para seduzir o público anônimo e passageiro das ruas das cidades, a criação coletiva do Ói Nóis Aqui Traveiz investe em um movimento de cena dinâmico com personagens excêntricos, utilizando adereços e figurinos impactantes com máscaras e bonecos. A narração é toda contagiada pela música, o canto e a dança. Mesclando os movimentos do coro com ações acrobáticas, cenas de humor irreverente e personagens clownescos com uma narrativa épica, “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” reflete alegoricamente a nossa sociedade.