A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

CAMINHO PARA UM TEATRO POPULAR

Domingo, dia 8 de março, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz inicia o Projeto Caminho Para Um Teatro Popular, com a encenação do espetáculo de Teatro de Rua “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” no bairro da Restinga. A apresentação será às 17 horas na Praça em frente ao Condomínio Belise (próximo da rua Dr. João Dentice). O Projeto foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares 2019 – Edição Teixeirinha, do Ministério da Cidadania do Governo Federal.





O Projeto Caminho Para Um Teatro Popular, criado pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em 1988, é um circuito regular de apresentações em praças, bairros e vilas populares de Porto Alegre. Esta ação tem como principal objetivo democratizar o espaço da arte, oportunizando vivências e reflexões para um público sem acesso aos meios culturais hegemônicos. O projeto, nesta etapa, prevê a circulação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz com seu mais novo espetáculo de teatro de rua Caliban - A Tempestade de Augusto Boal em 5 bairros populares (Restinga, Humaitá, Sarandi, Bom Jesus e no Parque da Redenção) de diferentes regiões de Porto Alegre. O projeto valoriza e difunde as manifestações culturais da cidade, favorecendo o desenvolvimento de um teatro popular e ampliando as opções de lazer e cultura para jovens e adultos. O circuito de teatro de rua abrange todas as camadas sociais e faixas etárias e promove o acesso do cidadão à cultura. Todo trabalho desenvolvido pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em sua trajetória de 42 anos tem como preocupação fundamental a descentralização das atividades artísticas. O teatro de rua traz em sua linguagem singular uma outra noção estética advinda do que é próprio ao ambiente aberto e público. Construído a partir de um trabalho sério e consequente de um dos principais grupos do teatro brasileiro e caracterizado pela rica comunicação visual e auditiva, o espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal leva para as ruas o lúdico e a reflexão histórica, intervindo no cotidiano das pessoas, que vêm sua rotina alterada de surpresa. O teatro é um poderoso instrumento de desvelamento e análise da realidade. Constitui laboratório para a imaginação social, com efeito, a sua função é social: contribuir para o conhecimento dos homens e ao aprimoramento de sua condição. Teatro é local de divertimento e ensino, portanto instrumento de humanidade e transformação. O trabalho da Tribo de Atuadores é exemplo nacional, ao fundir arte e política mediante a investigação e produção de espetáculos de grande mérito cultural. Suas obras nunca deixaram de ser contemporâneas pelo forte enraizamento na comunidade e realidade social, levando à cena questões importantes da atualidade. A Tribo provocou e segue provocando o público a refletir sua condição individual e social, através de uma estética experimental, um modo de atuação envolvente e a colocação de perguntas urgentes para os nossos dias.

 
Foto: Pedro Isaias Lucas

A partir de meados do século XX, Caliban, personagem da peça “A Tempestade” de William Shakespeare, escrita em 1611, tem sido adotado por diversos autores do Caribe e América Latina como ícone cultural, sendo considerado um emblema das populações originárias colonizadas. Caliban, anagrama de canibal, na peça do bardo inglês é o personagem nativo da ilha tropical onde Próspero, duque de Milão que foi traído e usurpado de seu poder, e sua filha Miranda vão encontrar abrigo. Caliban é escravizado e segue as ordens de Próspero, que se apresenta como um benfeitor, por lhe perdoar a vida e lhe ensinar sua língua. Shakespeare apresenta Caliban como um ser humano inferior em todos os sentidos. Em seu livro “Caliban e outros ensaios” o escritor cubano Roberto Fernández Retamar vai ressaltar a potência da figura de Caliban para assinalar o passado de exploração e escravidão de uma América ainda desejosa por lutar contra o domínio imperialista. Ao explicitar que somos todos Caliban, Retamar nos chama atenção para as implicações de se repensar a história a partir do “outro lado”, do olhar dos vencidos, assumindo a condição de Caliban. E é sobre a influência de Retamar que o diretor e dramaturgo Augusto Boal (1931-2009), conhecido mundialmente pelos princípios e as técnicas do Teatro do Oprimido, vai escrever a sua versão de “A Tempestade”, afirmando que a peça é uma resposta ao clássico de Shakespeare. Escrita enquanto Boal estava no exílio, em 1974, período em que os movimentos sociais latino-americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo estadunidense e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares. Na versão de Boal a história é vista pela perspectiva de Caliban, metáfora dos seres humanos originários da América que foram dizimados e escravizados pelos invasores colonizadores representados pelo personagem Próspero. O duque de Milão é tão perverso quanto os nobres europeus que usurparam o seu poder. Todos representam a violenta dominação colonial e cultural. Sua filha Miranda e o príncipe de Nápoles, Fernando, fazem uma aliança não por amor como na peça de Shakespeare, mas sim por interesses capitalistas. Ariel, o “espírito do ar”, representa o artista alienado, mescla de escravo e mercenário a serviço da ordem constituída. Somente Caliban se revolta até ser finalmente, derrotado. Os vilões permanecem na “ilha tropical” para escraviza-lo. Mesmo escravo, Caliban resiste. A Tribo, sem trair a sua vocação artística, quer com o seu Teatro de Rua instaurar a alegria e a indignação nos seus milhares de espectadores. Como em todo bom teatro político, o público deve perceber que os símbolos da obra remetem à realidade, para despertar neles – emotiva e racionalmente – uma resposta crítica fora da ficção. Para seduzir o público anônimo e passageiro das ruas das cidades, a criação coletiva do Ói Nóis Aqui Traveiz investe em um movimento de cena dinâmico com personagens excêntricos, utilizando adereços e figurinos impactantes com máscaras e bonecos. A narração é toda contagiada pela música, o canto e a dança. Mesclando os movimentos do coro com ações acrobáticas, cenas de humor irreverente e personagens clownescos com uma narrativa épica, “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” reflete alegoricamente a nossa sociedade.