O FAUSTO BRILHANTE

Rafael Baião*E ou toda beleza que não é puramente bela e necessariamente belo a menos que seja (in) completo.- Mas se é espetáculo! Logo é belo (!) (?)- Logu é belo?- Logo não era necessário discutir o belo e o logo nem se fala.- Sem muito belelego vamos ao principal: Vi o FAUSTO da Terreira, pela primeira vez, numa sexta-feira, eu acho, de 1994, setembro. Transa com beleza, a feiúra, a razão, o sentimento. Saí me perguntando se entendi ou não, ou se era claro que tinha entendido. Quis ver de novo e vi. Tinha muita gente, uma plateia receptiva e ágil.  Essa montagem do Grupo ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ é denominada missa (quem quiser, comunga). Conta a história de um sábio, Dr. Fausto, que faz um pacto com o Cujo, a fim de saciar sua sede de conhecimento. Salva-se por sua insatisfação! Tudo que Mephisto oferece – dinheiro, paixões, terras, poderes... – lhe é insuficiente. Ele ultrapassa os limites de seu cúmplice. Não se rende, não se vende; arrepende-se, transforma-se. Tran…

A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

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No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




Foto: Claudio Etges
E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco aportasse e eu sentisse a terra firme sob os pés. Quando isso aconteceu, de volta à realidade cotidiana, procurei divisar a distância e em meio à escuridão da noite a ilha do presídio. Não a vi mais. E poderia até pintar a dúvida quanto a se ela de fato existe. Foi sonho? Pode ser, já que a vida é sonho, Como ensina Calderón.

Optei por iniciar este artigo evocando sensações da experiência de ver o “trabalho em andamento” da Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz sobre “Viúvas” porque elas, as Sensações, superam teorias e raciocínios lógicos. Constituem realidade artística e espiritual única. Dissecar a obra, examinar a leitura do texto, buscar entendimento de sua mecânica e das técnicas utilizadas na elaboração, é reduzir o fenômeno estético, que envolve o espectador pelos cinco sentidos, a objeto analisável e no qual tudo se explica. Perdem-se os fluxos de acontecimentos que afloram entre o corpo do ator e o do espectador no decorrer do ritual cênico. Desses fluxos germinam histórias nasce a ficção que une os participantes em outro plano da realidade.

A relação com espaço se efetua em um tempo suspenso, portanto também o espaço está suspenso. Não me identifico com aquelas mulheres, nem com os homens que elas procuram resgatar dos horrores de uma ditadura, das tantas que os povos latino-americanos sofreram em tempos recentes. Não me identifico com hábitos, costumes, opção de roupas; mas sou idêntico a elas e a eles na condição, em primeira instancia, de latino-americano, na mais alta Instância, de ser humano.

De repente, aquela mulher com trajes andinos, com jeito de camponesa e traços indígenas, sou eu. Porque estamos vendo o mundo com os mesmos olhos, temos sentimentos de perda iguais, temos a mesma ânsia por uma era de justiça e bondade. estamos em tempo suspenso. E também tem espaço suspenso: nem Pacifico, nem Atlântico, mas continente só acessível por meio da arte. Ou do ritual sagrado.

A obra de arte, todavia é sempre coisa construída, fruto de gesto efetivamente criador, não resultado de inspiração lançada ao acaso. Há o caminho, portanto, entre a proposta inicial e sua materialização no espaço. A ideologia e os meios criativos do grupo iluminam Trilhas e sendas que conformam tal caminho. Nesse ponto reside provocação bela e generosa ao entendimento crítico, em relação ao fenômeno estético: não se trata aqui de obra teatral acabada com dinâmica estabelecida e contornos definidos, mas uma etapa do processo de construção do espetáculo. É um “trabalho em andamento”

Perfila assim, ao lado da emoção estética proporcionada pelo ritual, o estimulante prazer de encontrar o grupo de atuadores em passo básico do seu processo criativo. Em princípio, não há mistério quanto ao conceito sempre colocado nos pronunciamentos e no programa da ação do Ói Nóis, que é o teatro de vivência. Alguma coisa em seus espetáculos convida o espectador à participar intelectual e física na ação poética. Ou seja, percebendo-as no corpo, movido pela sensibilidade, não apenas pelos olhos e raciocínio. Essa “coisa” não é artifício ou estratégia gerada habilidade do encenador, na tentativa de cooptar o público. Nada disso: é a natureza, a essência primordial do trabalho do grupo; O que move permanentemente a criação.

O ato materializado da Ilha do presídio, como etapa da pesquisa para montagem de “Viúvas” inspirado no texto do chileno Ariel Dorfman, é uma “performance sobre ausência”, isto nos com reflexão sobre o sentido de “performance” termo com que se vestem hoje diferentes manifestações e, apesar da disparada consequências, constitui-se um “gênero”. Sem entrar no mérito do “gênero” que demandaria em imensa discussão, permanecemos no sentido etimológico da palavra que é atuação ou desempenho. Depende, a performance, do conhecimento e da habilidade de quem produz. Um jogador de futebol pode sacudir o estádio com sua performance, dado o talento com a bola perfeitamente subsidiado pela boa preparação técnica e física. Assim com um ator pode levar a plateia da gargalhada às lágrimas, sem dúvida que com o talento, mas devidamente amparado pelo conhecimento da arte, e pelo domínio técnico da cena e do próprio corpo. A performance é, portanto, aquele momento de atuação.

Não raro grupos de teatro vem utilizando o conceito “performance” como meio de pesquisa dos personagens e das relações cênicas. No método de Antunes filho, por exemplo, a pesquisa do personagem começa pela performance do ator. Não se faz antiga “leitura de mesa”, procurando esmiuçar conteúdos da obra estabelecer as linhas de encenação. Primeiro estuda-se o autor, seu pensamento e suas relações com o mundo. Depois discutir se a obra, abordando-a por diferentes aspectos, que envolvem o valor simbólico de origem, apurado no conhecimento do autor, e o valor transcendente, que a torna Universal e atemporal, implicando a vivência e os pontos de vista dos criadores cênicos. A partir daí os atores começam a pesquisar seus personagens por meio da performance. Nessa fase, não dizem as palavras do texto, mas um idioma inventado, Fonemol, composto por combinações de fonemas, evitando o desgaste do texto e a cristalização de significados. Assim, por meio da performance, o ator se “apropria” do personagem, compreende o não só intelectualmente, mas pela sabedoria do corpo em conexão com Espírito.

Foto: Pedro Isaias Lucas
No caso da Tribo de atuadores, Ói Nóis Aqui, Traveiz, há alguma semelhança de procedimento, mas o conceito assumir proporções maiores, radicais, já que se manifesta no âmbito da criação coletiva e sobre o égidie do Teatro de Vivência. Essas condições antecede e determinam a performance, instauram o chão e o ambiente para o desenvolvimento do trabalho criativo.

Tudo começa pela eleição do tema sobre o qual grupo vai trabalhar.

Os integrantes colaboram na pesquisa, contribuem com ideias, com experiências pessoais relacionadas, com a sensibilidade aberta que permite o fluxo pelo corpo e pela alma a qualquer dado que chegue. Desse modo, o tema adquiri contorno de realidade artística extremamente vinculada à realidade cotidiana. Desde o princípio se manifesta o teatro de vivência, logo que as questões temáticas são discutidas coletivamente e não ficam restritas a especulação intelectuais: Abrangem a vida de cada um e suas relações com o Outro e com o mundo. Uma roda de pulsações, onde os limites entre a ficção e a realidade são abolidos. As questões inerentes ao tema ganham densidade e a vivência se estende a outros segmentos como comunitários. Aspectos temáticos amadurecidos no coletivo passam a condição de suportes para eventos em oficinas que o Ói nós mantém diversos bairros de Porto Alegre. Nossos pontos de vista se agregam, procedentes muitas vezes de “vivenciandos” ocasionais, sejam alunos das oficinas, sejam pessoas convidadas ou curiosos que espontaneamente se aproximam dos exercícios em curso. Nesse ponto a criação coletiva, progredindo mediante a vivência grupal (ou tribal), já se converteu em performance.

A vivência adquire nova dimensão, relacionada ao espaço físico onde ocorre o evento.Normalmente os espetáculos do Ói Nóis ocupam espaços alternativos, pode ser a rua como pode ser um edifício não teatral, onde se constrói a cena, que é desconstruída a cada apresentação do espetáculo e reconstruída para nova apresentação. Isso provoca o estado de flutuação à obra cênica, que sendo a mesma é diferente a cada apresentação, já que incorpora novos dados, seja diferente composição da plateia, que vivenciará com os interpretes aquele tema, seja pela alternância da pulsação vital de cada intérprete, ou aspectos exteriores que jamais se reproduzem exatamente como eram antes. A ideia de performance é, portanto, recorrente, mesmo depois de estar pronto o espetáculo. E com ela permanece ativo o teatro de vivência.

O processo é o mesmo tanto na construção coletiva do texto a partir do tema eleito quanto no trabalho sobre a peça teatral já escrita. Neste caso, também não se procura o entendimento da obra por meio de “leituras de mesa” e procedimentos convencionais, mas pela desconstrução do texto, pelo desmembramento de temas e sub-temas, que passam a orientar as performances investigatórias. Tal andamento propicia alcançar a unidade temática preservando as diferenças implícitas na composição do grupo, mantendo a diversidade humana representada pelos integrantes. Desse modo de se reconstrói o texto em forma de espetáculo.

Esse sofisticado e vital método de criação não tem por objetivo a estética pura, ou arte pela arte. Se assim fosse, estaria esvaziado e faltaria fôlego para chegar a mais de três décadas de existência continua. A “estética pura”, nas condições do mundo de hoje, é bobagem igual às manifestações alimentadas pelo consumismo, alienantes como as que infestam as telinhas da TV, o cinema voltado a fantásticos tiroteios ou a fantásticas (i)realidades virtuais e os palcos comerciais. Tem vista, de fato, estabelecer o diálogo entre homens em plano superior. Ou, como expressa no programa de mão de “viúvas”, atuar no teatro para o “desvelamento da realidade e o estimulo à construção da consciência crítica das pessoas”. Por isso parte sempre de uma realidade social e histórica, observando criticamente nesse contexto a ação humana.

“Performance sobre ausência”, celebrada na Ilha das Pedras Brancas, ou do Presídio, constitui um momento de criação do espetáculo baseado no texto de Ariel Dorfman “Viúvas”. O original discorre sobre mulheres de pequena aldeia às margens de um rio, que indagam sobre o destino final de seus maridos,pais ,filhos, irmãos levados pela polícia política da ditadura vigente. De acordo com o método, o texto foi desconstruído em alguns temas reunidos na elaboração da performance sobre a ausência. No plano do “agora”, está à figura solitária da camponesa contemplando o rio e, em contra ponto, o exército de executivos fardados com ternos pretos e gravatas, portanto metralhadoras e o doce discurso de salvação econômica do lugar, que será convertido em indústrias de fertilizantes. As palavras são armas mortais, conforme a boca e o coração que as pronuncia. Mas é esse exercito dos poderes econômicos que induzem o espectador-participante as memórias do local. 


Os Três Passos finais da performance tem a força poética potencializada pelo espaço onde acontece. A ilha das Pedras Brancas é popularmente conhecida como ilha do presídio, por que ali havia um presídio de segurança máxima. Nele foram encarcerados, torturados e eventualmente mortos “subversivos” dos anos 1960 – “subversivos” do ponto de vista da ditadura militar, que vitimou nosso país por duas décadas. Só restam as ruínas do presídio neste sítio que é hoje Patrimônio Histórico, ambiental e cultural do Estado do Rio Grande do Sul. Porém nas ruínas perpetuam-se as lembranças de Atos hediondos cometidos pelo árbitro. Com a permissão para o breve temporada da “performance sobre a ausência” na ilha, a Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz realizou o ritual dramático de intensa beleza, que não pode ser examinado, Como disse de início em termos de Espetáculo teatral “normal”, embora seja teatro no mais profundo transcendental dos seus significados. O primeiro dos Três Passos finais acontecem nas ruínas do presídio. O pouco que estou da construção é exatamente o calabouço, constituído de corredor ladeado pelas células onde se confinam e torturam os desafetos do regime militar. Neste corredor o público vê em cada cela uma “viúva” executando tarefas domésticas, Como lavar roupas ou socar grãos em Pilão, enquanto cuidam dos perigos que rondam seus protestos pela ausência dos entes queridos. Se forem ouvidos pela polícia, os protestos provocam represálias. A performance dentro desse ambiente suspende a noção linear de espaço-tempo, fundindo o lar com a masmorra, tornando presentes diferentes momentos da vida dos personagens e trazendo-os ao aqui e agora, à vivência do espectador que não tem como se furtar ou ignorar os atos evocados, sentindo na própria pele. A opressiva cena no interior das ruínas do presídio culmina com as atrizes conduzindo alegremente o público pelas ribanceiras adjacentes, até uma clareira, onde a memória torna presente o tempo anterior à ditadura. Homens e mulheres da Aldeia celebram a vida com danças, risos, brincadeiras. Também o público participa dessa surpreendente festa, exorcizando as densas e funestas imagens que o acompanham desde a chegada do barco à ilha. Mas esse passo é somente a preparação para o último. Orientado por luzes que se abrem em outro plano da Ilha, o espectador chega à pequena planície, próxima à margem, com as luzes da cidade brilhando ao fundo.O chão está coberto por imenso pano azul, representando o rio. Em uma das margens do rio cenográfico está avó, que fala ao neto postando na margem oposta, da necessidade de preservar a memória ancestral e aguardar sempre a volta dos que foram levados pela força bruta da opressão. No final do discurso, ela recolhe suavemente o tecido, como Moisés que abre as águas, e revelam os corpos nus dos ausentes, jogadas no fundo do leito do rio.

Instaura-se a poesia. Pura poesia que abraça e a transforma em epicentro da emoção humana, em pulsações rítmicas. No espaço sagrado se manifesta através do ritual dramático. Ou performático. Envolto no Alô poético o espectador caminha de volta ao barco para cruzar as águas do rio Guaíba e retornar a realidade comum. Mas é bem possível que não volte o mesmo, pois a força do ritual o transformou ainda que sutilmente.

Para além dos significados intrínsecos da “performance sobre a ausência” e da poesia em que resulta, está a constatação do vigoroso processo criativo da Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, sem dúvida um dos principais grupos de teatro latino-americanos contemporâneos. Com o teatro de vivência ao grupo levou-o a limites extremos o conceito de “criação coletiva”, Outorgando-lhe sentido pleno de participação democrática, tanto no âmbito interno do coletivo quanto na relação com a plateia.A preparação técnica dos atores a evidente, Mas não se evidencia em termos de interesse em si mesmo e sim como instrumento, sempre em boa manutenção, a serviço da elaboração estética.Porém, elaboração estética não a partir de cismas e devaneios, mas na busca de transfigurar em arte a realidade social. Nesse sentido construiu se o sistema, que conduz desde o início do processo cada participante ao núcleo do assunto abordado, estimulando o a contribuir no trabalho de transfiguração do real.

Tal sistema contempla a ideia de mestres do teatro moderno, como Tadeusz Kantor de que os ensaios do espetáculo não são espaços de Mero treinamento objetivando efeitos, mas espaço de criação de igual importância ao da apresentação do trabalho ao público. O sistema da Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui, Traveiz da realidade à utopia de Antoni Artaud, um dos “teóricos mentores do grupo, de que “ligar o teatro a possibilidade de expressão pelas formas, é de tudo que houver em matéria de gestos, ruídos, cores, plasticidade, etc., é devolve-lo à sua primitiva destinação, é recolocá-lo em seu aspecto religioso e metafísico, é reconcilia lo com universo”. (O teatro e seu duplo).

Não se sabe como será os espetáculo “viúvas”, quando formalizado cenicamente e finalizado como “produto”. Certamente será apresentado em diferentes lugares e raramente em Sítio de memórias tão poderosas como a ilha do presídio. Mas a “Performance sobre ausência” e outras, decorrentes do processo junto ao público, constituem o substrato de criação, configuram o DNA do espetáculo. E isso traduz o teatro reconciliado com o universo.




(Cavalo Louco – Revista de teatro, junho de 2011)