A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

A Missão - Lembrança de uma Revolução

A Revolução Possível
Revista Aplauso/ 2007
Crítica de Fábio Prikladnicki
(Fotos Cisco Vasques)




De um espetáculo do tipo “teatro de vivência" da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz se espera muitas coisas, sendo uma delas a utilização de uma narrativa descontÍnua, fazendo com que o espectador se pergunte, a cada cena, "O que está acontecendo". Assim também é em A Missão (Lembrança de uma Revolução), do dramaturgo alemão Heiner Muller (1929-1995), que faz nova temporada no final de marco, na Terreira da Tribo, em Porto Alegre, depois de ter estreado em novembro de 2006. Ao contrário de outros trabalhos, nesse não se opera nenhum tipo de colagem textual: a marca do Ói Nóis está essencialmente na encenação. O que não é pouca coisa.
Escrito em 1979, o texto parece, ainda hoje, vanguardista e ousado. Não apenas porque Muller é um dos maiores dramaturgos pós-modernos. Nem apenas porque sua produção, escrita em plena Alemanha comunista, tenha mantido vitalidade mesmo depois da queda do muro de Berlim. Uma avaliação ainda mais precisa do impacto de A Missão veio de um espectador alemão, em uma das apresentações na Terreira, segundo o qual o texto parece mais atual quando encenado em uma cidade da América Latina, como Porto Alegre, do que na Alemanha.


Não é difícil de entender por quê. Na peça, três emissários são enviados pelo governo francês para estimular uma rebelião de escravos negros na Jamaica contra o domínio imperial britânico no período que se segue a Revolução Francesa. Debuisson (Paulo Flores) é um médico descendente de proprietários de terras na Jamaica, Galloudec (Sandro Marques) é um camponês que acredita na "ordem sagrada da monarquia e da igreja" e Sasportas é um escravo negro (ou escrava, na interpretação de Tânia Farias) com ganas revolucionarias. A certa altura, eles recebem uma ordem oficial para abortar a missão, e cada um se depara com os dilemas de suas posições sociais: abandonar a revolução ou não?
O desfecho não é nenhuma surpresa, já que a peça começa pelo final: agonizando em um hospital-prisão em Cuba, Galloudec escreve uma carta a um certo senhor Antoine, lamentando o fracasso da jornada - o que remete ao subtítulo da peça,"Iembrança de uma revolução". Mas isso significa a impossibilidade da revolução ou a necessidade de uma nova? "Heiner Muller viveu, na Alemanha Oriental, o sistema opressivo do stalinismo, quando viu esgotadas as possibilidades de um determinado tipo de revolução", responde Paulo Flores. "Mas constantemente ele coloca uma esperança que vem das margens, que nesse caso é o terceiro mundo: a América Latina, a África, a Ásia."
"Teatro de vivência" é a expressão que o Ói Nóis encontrou para descrever um tipo de espetáculo em que os espectadores são conduzidos por diversos ambientes, experimentando a sensação de estar lado a lado com os atores (ou "atuadores", como eles preferem, para enfatizar a função política e social do artista) No momento em que as cenas acontecem. Desde 1978, quando foi criada, a Tribo já apostou em abordagens radicais, como encenar em ambientes deliberadamente claustrofóbicos - tudo para tirar o espectador de seu estado de "passividade". Nesta peça, no entanto, o grupo procura deixar mais espaço para que o público escolha o tipo de aproximação. Não se trata, segundo eles, de uma “amenização”. O “Ói Nóis não deixou de ser combativo", afirma Tânia Farias. "A cada espetáculo se repensa de que forma o público vai vivenciar a encenação com os atores. Só que, quando isso surgiu, pela primeira vez, causou um impacto. Depois, houve mudanças na cidade, no público e no próprio teatro." Há uma forte analogia, ao longo da peça, que relaciona a exploração colonizadora à violência sexual - estupro de escravas, repressão a homossexuais, e assim por diante. "Há um momento em que o personagem Sasportas critica a “revolução sem sexo” dos colonizadores, justamente porque a sexualidade está sendo utilizada como instrumento de dominação", nota Carla Moura, que interpreta uma das escravas, junto com Luana Fernandes. Segundo o grupo, essa associação denunciada pelo texto e responsável, pelo menos em parte, pela visão negativa da sexualidade que predomina nas sociedades ocidentais.
Não é a primeira peça de Muller no currículo do grupo, mas é uma das que estão há mais tempo em gestação e marca, acima de tudo, uma revisão da própria trajetória da Tribo: na montagem há citações que resgatam objetos e detalhes cenográficos de peças anteriores. "Quem tem o que citar é porque construiu uma história", diz Tânia. Uma história, segundo ela, de coerência e ao mesmo tempo de inquietação: "Não descuidamos da questão estética porque temos muita coisa pra dizer. Pelo contrário, é justamente por isso que damos atenção a cada detalhe". 
A Missão comprova a excelência artística do grupo (recompensada com patrocínio da Petrobras e renovado no final de 2006): cenários de encher os olhos, figurino e maquiagem caprichados, iluminação precisa e atuações irretocáveis, principalmente em se tratando de um texto repleto de poesia e metáfora como este (mérito também da tradução utilizada, a de Fernando Peixoto). Além dos já mencionados, estão na peça Clélio Cardoso (no papel de Antonie e na cena do "homem no elevador"), Marta Haas (destaque no monólogo da personagem Primeiro Amor), Renan Leandro e Pedro Kinast de Camillis.
Em suma, esta é uma peça sobre o papel do intelectual "burguês" como transformador da sociedade - mesmo que a palavra "burguês" possa parecer hoje um tanto ultrapassada. Trata-se de um convite para que as elites intelectuais tomem parte em uma nova revolução que supostamente pudesse evitar equívocos de revoluções passadas. Pode-se chamar isso de utopia. Sem problema: para O Ói Nóis, utopia é a revolução é possível.