A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

MOSTRA ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ: JOGOS DE APRENDIZAGEM

Nas segundas-feiras de março, dias 9, 16 e 23 de março, acontece na Terreira da Tribo (rua Santos Dumont, 1186) a primeira etapa da “Mostra Ói Nóis Aqui Traveiz: Jogos de Aprendizagem/2020”, sempre às 20 horas, com entrada franca, com distribuição de senhas a partir das 19 horas. Nesta etapa serão apresentados os exercícios cênicos “As Alegres Meninas da Rua Quinze”, peça curta de Carlos Carvalho, e “Fragmento de Teatro I”, peça curta de Samuel Beckett. As duas peças mostram a solidão e a incomunicabilidade do ser humano no mundo contemporâneo, vivendo sem esperanças num lugar ilógico, inóspito, lúgubre e vazio. As cenas foram criadas pela Oficina Popular de Teatro da Cidade de Canoas, dentro da ação Teatro Como Instrumento de Discussão Social da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo/Ponto de Cultura. Após a apresentação haverá uma roda de conversa sobre o Teatro de Carlos Carvalho e de Samuel Beckett conduzida pelo atuador Paulo Flores. A “Mostra Ói Nóis Aqui Traveiz: Jogos de Aprendizagem” leva à cena as montagens teatrais realizadas nas diferentes Oficinas da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz.

 
As Alegres Meninas da Rua Quinze” tem no elenco Elizandra de Mendonça Marques e Janete Costa. Solitárias e confinadas num apartamento, duas irmãs solteironas vivem para cuidar da mãe, uma matriarca controladora. Lindaura e Rosaura convivem com seus preconceitos, amarguras e lembranças do passado e estabelecem ligação com o mundo exterior através do rádio. O exercício cênico visa desenvolver a arte do fazer teatral com vigor e humor, criando uma sucessão de cenas que levam ao público personagens inseridas em um universo pessoal, mas igualmente universal. “As Alegres Meninas da Rua Quinze” é uma peça curta de Carlos Carvalho (1939-1985). Um dos mais representativos dramaturgos gaúchos das décadas de 1970 e 1980, encontra no drama do cotidiano urbano as fontes de criação para o seu teatro de denúncia e resistência. Em 1968, desiste do curso de Jornalismo e inicia o curso de Direção Teatral do Departamento de Arte Dramática da UFRGS, participando, como ator, do um primeiro espetáculo teatral: Homem: variações sobre o mesmo tema, escrito e dirigido por Luiz Arthur Nunes. Estreia, como diretor de teatro, em 1970, com Fim de partida, de Samuel Beckett; nesse mesmo ano, inicia sua carreira de dramaturgo com Colombo, fecha as portas dos teus mares. É ainda, no ano de 1970, que Carlos Carvalho inicia sua atividade como contista, participando da antologia Roda de fogo, publicada pela editora Movimento; mais tarde, em 1975, publica o livro de contos Calendário do medo. É a dramaturgia, no entanto, que apresenta de forma mais significativa a visão de mundo de Carlos Carvalho. Escreveu Boneca Teresa, em 1975; PT saudações, em 1976;Pequena história do homem, em 1978; O pulo do gato, em 1979. Seguem-se a essas peças História da cobra grande em 1980; Esta é a sua vida em 1981; Doce vampiroQue se passa, Che? Berço esplêndido, todas em 1982; Escravos de Jô em 1983; Champagne para Mãe Tuda em 1984.




Fragmento de Teatro I” tem no elenco Raquel Amsberg e Marcio Menezes. Escrita na década de sessenta, Beckett põe em cena, num canto de rua, dois inválidos, em vias de decomposição. São: um cego, designado como A, que arranha seu violino e só se detém para esmolar, voltando, porém novamente à sua música; e um paralítico, B, que chega numa cadeira de rodas, movida graças a uma vara. E embora o paralítico proponha ao cego uma espécie de sociedade – viverem juntos -, isto é inviável. Não podem ajudar-se; são os eternos carrasco e vítima, um do outro. O aleijado golpeia o cego, e o cego arranca-lhe a vara que é seu apoio, sua proteção, reduzindo-o à impotência. Impossível a amizade. Impossível a ajuda recíproca que seria benéfica a ambos...É a dificuldade do relacionamento humano, presente em Esperando Godot e Fim de Partida, entre outros. Samuel Beckett (1906-1989) nasceu na Irlanda. Foi um dos principais dramaturgos e escritores do século XX. Nas imagens teatrais projetadas e textos em prosa, Beckett alcançou uma beleza simples e eterna visão do sofrimento humano, lançada através da comédia sombria e do humor. A citação para seu prêmio Nobel de literatura de 1969 exaltou-o pelo “conjunto da obra que com novas formas de ficção e de teatro transformaram o desamparo do homem moderno em exaltação”. A peça Esperando Godot foi encenada pelo ator-diretor francês, Roger Blin, em um pequeno teatro parisiense em janeiro de 1953. O sucesso da peça em Paris gerou controvérsia internacional e vasto interesse. Encenada em um palco vazio, com a exceção de uma única árvore, com dois personagens em um diálogo irrelevante enquanto esperam por um personagem que nunca vem, a peça provocou hostilidade e confusão. No entanto, Esperando Godot seria logo apontada como a peça mais revolucionária e influente do século XX.