Denúncia atualizada de Heiner Muller

Antônio Holfeldt (Jornal do Comércio, 13 de Agosto de 1999) Fotos de Claudio Etges
A estreia de Hamlet Máquina, do dramaturgo alemão contemporâneo Heiner Müller, pelo grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, é um acontecimento verdadeiramente ambíguo. A ambiguidade nasce do fato de a montagem desta peça, que consagrou e projetou internacionalmente o dramaturgo da Antiga Alemanha Popular, ser, por certo, uma feliz oportunidade para nosso teatro, mas, por outro lado, comemorando os quinze de localização da Terreira da Tribo, espaço cênico onde o Ói Nóis Aqui Traveiz desenvolve suas pesquisas e interferências na cidade, constitui-se também em seu canto de cisne: ao final de agosto, interrompendo a sua temporada, a Terreira da Tribo fechará suas portas e o Ói Nóis Aqui Traveiz estará na rua, motivado, dentre outras coisas, pela decisão (ambígua) da Prefeitura Municipal de Porto Alegre em se negar a dar qualquer apoio ao grupo.
A ambiguidade é mais significativa, se formos capazes de fazer a correta leitu…

Terreira da Tribo: espaço feminino, telúrico e anarquista

A Visita do Presidenciável | Cláudio Etges
Em 1984 os atuadores constituíram a Terreira da Tribo, em um prédio alugado na rua José do Patrocínio no bairro Cidade Baixa. Um novo espaço cultural aberto a todo tipo de manifestações: teatro, música, filmes, oficinas de arte, debates, happenings, celebrações. O nome desse espaço feminino, telúrico e anarquista vem de terreiro, lugar de encontro do ser humano com o sagrado. Na Terreira da Tribo o Ói Nóis Aqui Traveiz volta à cena com a montagem de A visita do presidenciável ou os morcegos estão comendo os abacates maduros, uma espécie de parábola sobre o momento político do país. Derrotada a campanha pelas eleições diretas, o país se preparava para a sucessão presidencial via congresso. Depois de vinte e um anos de ditadura, um civil iria assumir a presidência, não trazendo nenhuma mudança social significativa, além de todo o seu comprometimento com a estrutura oligárquica que domina o país. O espetáculo contava em tom de farsa a história de um casal de velhos, moradores de uma casa há vinte anos, que aos poucos se deteriora. A ação acontece no dia em que o procurador geral irá cobrar o aluguel da casa, que os velhos não têm mais condições de pagar. Coincidentemente, aquele é o dia em que o futuro presidente será apresentado aos inquilinos. Metáfora da classe média conservadora, que apoiou o golpe de 64 e, duas décadas depois, ao perder seus privilégios, saiu às ruas pedindo Diretas Já. O espetáculo trazia uma mistura de teatro do absurdo, sessão de rock, cinema underground, poesia marginal e vanguarda plástica. Além de todas as atividades que acontecem diariamente na Terreira, o espaço oportunizava às pessoas em geral o contato com o fazer teatral. Partindo do princípio de que toda pessoa tem um potencial criador, os atuadores vão desenvolver, a partir de 1985, diversas oficinas abertas à comunidade: Teatro livre, Experimentação e pesquisa cênica, Expressão e movimento, Teatro de rua, Máscaras e adereços, Teatro ritual, entre outras. A Terreira consolidou o trabalho do Ói Nóis Aqui Traveiz. Possibilitou aprofundar a investigação do trabalho do ator e do espaço cênico. Um espaço teatral completamente flexível e transformável de uma encenação para outra. Colocar o espectador numa situação inteiramente inédita. Levar às últimas consequências a relação entre ator e espectador, incluindo os espectadores na arquitetura da ação, vendo o público qualitativamente e não em quantidade, interessando mais a integração alcançada. O ato teatral requer uma considerável redução das distâncias, para que o ator possa agir diretamente sobre alguns indivíduos. Para que o encontro ocorra, é preciso que o espectador o deseje, ainda que inconscientemente. 
 
As Domésticas | Roberto Silva
É na Terreira que a Tribo buscou o auto desnudamento do ator grotowskiano. Ao partir do íntimo de seu ser e de seus instintos, o ator deve ultrapassar os seus próprios limites e condicionamentos. O objetivo e a função do ator é fazer ressoar alguma coisa na intimidade mais profunda do espectador. Dentro desse processo de pesquisa a Terreira vai produzir nos próximos anos o que chamou de Trilogia da condição humana. Espetáculos que envolviam questões como solidão, incomunicabilidade e finitude do ser humano. As domésticas, de Jean Genet, de 1985, é um cerimonial teatral, um extraordinário jogo de aparências, no qual o imaginário e a realidade se fundem para que através da mentira, do choque e do artificial, os participantes do cerimonial se enxerguem diante do seu próprio espelho. Veem-se em cena três homens representando mulheres e estas representam papéis sociais que compreendem as relações servis de doméstica-patroa. O universo feminino subjugado por uma sociedade essencialmente machista. As empregadas estão presas à imagem da patroa por uma mistura de afeição, amor erótico e ódio profundo. Elas não conseguem deixar de imitar e desejar ser a patroa. Uma odeia a outra porque vê na companheira a própria imagem refletida como num espelho. Em Fim de partida, de Samuel Beckett, de 1986, os atuadores com extrema precisão colocavam em cena a atmosfera angustiante dos personagens. Sentado numa cadeira de rodas, imóvel, cego e com as pernas paralisadas, está Hamm. Dentro de duas latas de lixo, com as pernas decepadas, vivem os seus velhos pais. Quem se movimenta é Clov, filho adotivo e criado do grupo. Porém, entre uma janela e outra, o que pudesse sobrar de esperança se dissipa: de um lado, o mar cor de chumbo; de outro, a terra desértica. Para justificar a existência, as personagens inventam coisas banais, fazem um jogo de paciência. Ali está o ser humano frente a ele mesmo, reduzido à sua mais radical essência. Ao contrário de As domésticas, na qual as emoções exacerbadas passam por um ritmo acelerado, em Fim de partida os atores têm o gesto contido, estão paralisados dentro da cena. O ambiente é uma imagem futurista de um velho abrigo nuclear. Sufocante, cinzento e enferrujado.
 
Ostal | Arquivo da Tribo
Já em Ostal, de 1987, criação coletiva a partir de um roteiro do grupo italiano Confrontação, apresentado como rito teatral, a Tribo procurou desvendar os processos esquizofrênicos que o cotidiano familiar gera nos indivíduos. Num ambiente restrito a 20 pessoas por noite e em caráter intimista, os espectadores-participantes vivenciavam os conflitos de uma mulher em sua cama de doente. Nenhuma palavra era pronunciada durante a encenação. A relação dessa mulher com os demais personagens não acontecia no plano da realidade concreta, mas apenas em sua mente. O público era envolvido por acessos, alucinações, sofrimento, onde a paciente vacilava entre o desejo de afeto e a frustração. A ligação entre as cenas de Ostal rompia com a narrativa lógica e dependia de um tipo de associação próxima da loucura ou do sonho. A performance recorria a estímulos sensoriais diversos e as personagens eram antes personas buscando uma dilatação da presença e do gesto, desencadeando novas conexões e novos sentidos para o espectador. Refletia alegoricamente o processo de adaptação social a que o ser humano é submetido desde a infância. Fim de partida e Ostal receberam os principais prêmios da crítica. Entre a temporada dos dois espetáculos o Ói Nóis Aqui Traveiz montou Manchas no lençol, que reunia cinco esquetes em teatro de sombras criados na Oficina de experimentação e pesquisa cênica.