A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

Terreira da Tribo: espaço feminino, telúrico e anarquista

A Visita do Presidenciável | Cláudio Etges
Em 1984 os atuadores constituíram a Terreira da Tribo, em um prédio alugado na rua José do Patrocínio no bairro Cidade Baixa. Um novo espaço cultural aberto a todo tipo de manifestações: teatro, música, filmes, oficinas de arte, debates, happenings, celebrações. O nome desse espaço feminino, telúrico e anarquista vem de terreiro, lugar de encontro do ser humano com o sagrado. Na Terreira da Tribo o Ói Nóis Aqui Traveiz volta à cena com a montagem de A visita do presidenciável ou os morcegos estão comendo os abacates maduros, uma espécie de parábola sobre o momento político do país. Derrotada a campanha pelas eleições diretas, o país se preparava para a sucessão presidencial via congresso. Depois de vinte e um anos de ditadura, um civil iria assumir a presidência, não trazendo nenhuma mudança social significativa, além de todo o seu comprometimento com a estrutura oligárquica que domina o país. O espetáculo contava em tom de farsa a história de um casal de velhos, moradores de uma casa há vinte anos, que aos poucos se deteriora. A ação acontece no dia em que o procurador geral irá cobrar o aluguel da casa, que os velhos não têm mais condições de pagar. Coincidentemente, aquele é o dia em que o futuro presidente será apresentado aos inquilinos. Metáfora da classe média conservadora, que apoiou o golpe de 64 e, duas décadas depois, ao perder seus privilégios, saiu às ruas pedindo Diretas Já. O espetáculo trazia uma mistura de teatro do absurdo, sessão de rock, cinema underground, poesia marginal e vanguarda plástica. Além de todas as atividades que acontecem diariamente na Terreira, o espaço oportunizava às pessoas em geral o contato com o fazer teatral. Partindo do princípio de que toda pessoa tem um potencial criador, os atuadores vão desenvolver, a partir de 1985, diversas oficinas abertas à comunidade: Teatro livre, Experimentação e pesquisa cênica, Expressão e movimento, Teatro de rua, Máscaras e adereços, Teatro ritual, entre outras. A Terreira consolidou o trabalho do Ói Nóis Aqui Traveiz. Possibilitou aprofundar a investigação do trabalho do ator e do espaço cênico. Um espaço teatral completamente flexível e transformável de uma encenação para outra. Colocar o espectador numa situação inteiramente inédita. Levar às últimas consequências a relação entre ator e espectador, incluindo os espectadores na arquitetura da ação, vendo o público qualitativamente e não em quantidade, interessando mais a integração alcançada. O ato teatral requer uma considerável redução das distâncias, para que o ator possa agir diretamente sobre alguns indivíduos. Para que o encontro ocorra, é preciso que o espectador o deseje, ainda que inconscientemente. 
 
As Domésticas | Roberto Silva
É na Terreira que a Tribo buscou o auto desnudamento do ator grotowskiano. Ao partir do íntimo de seu ser e de seus instintos, o ator deve ultrapassar os seus próprios limites e condicionamentos. O objetivo e a função do ator é fazer ressoar alguma coisa na intimidade mais profunda do espectador. Dentro desse processo de pesquisa a Terreira vai produzir nos próximos anos o que chamou de Trilogia da condição humana. Espetáculos que envolviam questões como solidão, incomunicabilidade e finitude do ser humano. As domésticas, de Jean Genet, de 1985, é um cerimonial teatral, um extraordinário jogo de aparências, no qual o imaginário e a realidade se fundem para que através da mentira, do choque e do artificial, os participantes do cerimonial se enxerguem diante do seu próprio espelho. Veem-se em cena três homens representando mulheres e estas representam papéis sociais que compreendem as relações servis de doméstica-patroa. O universo feminino subjugado por uma sociedade essencialmente machista. As empregadas estão presas à imagem da patroa por uma mistura de afeição, amor erótico e ódio profundo. Elas não conseguem deixar de imitar e desejar ser a patroa. Uma odeia a outra porque vê na companheira a própria imagem refletida como num espelho. Em Fim de partida, de Samuel Beckett, de 1986, os atuadores com extrema precisão colocavam em cena a atmosfera angustiante dos personagens. Sentado numa cadeira de rodas, imóvel, cego e com as pernas paralisadas, está Hamm. Dentro de duas latas de lixo, com as pernas decepadas, vivem os seus velhos pais. Quem se movimenta é Clov, filho adotivo e criado do grupo. Porém, entre uma janela e outra, o que pudesse sobrar de esperança se dissipa: de um lado, o mar cor de chumbo; de outro, a terra desértica. Para justificar a existência, as personagens inventam coisas banais, fazem um jogo de paciência. Ali está o ser humano frente a ele mesmo, reduzido à sua mais radical essência. Ao contrário de As domésticas, na qual as emoções exacerbadas passam por um ritmo acelerado, em Fim de partida os atores têm o gesto contido, estão paralisados dentro da cena. O ambiente é uma imagem futurista de um velho abrigo nuclear. Sufocante, cinzento e enferrujado.
 
Ostal | Arquivo da Tribo
Já em Ostal, de 1987, criação coletiva a partir de um roteiro do grupo italiano Confrontação, apresentado como rito teatral, a Tribo procurou desvendar os processos esquizofrênicos que o cotidiano familiar gera nos indivíduos. Num ambiente restrito a 20 pessoas por noite e em caráter intimista, os espectadores-participantes vivenciavam os conflitos de uma mulher em sua cama de doente. Nenhuma palavra era pronunciada durante a encenação. A relação dessa mulher com os demais personagens não acontecia no plano da realidade concreta, mas apenas em sua mente. O público era envolvido por acessos, alucinações, sofrimento, onde a paciente vacilava entre o desejo de afeto e a frustração. A ligação entre as cenas de Ostal rompia com a narrativa lógica e dependia de um tipo de associação próxima da loucura ou do sonho. A performance recorria a estímulos sensoriais diversos e as personagens eram antes personas buscando uma dilatação da presença e do gesto, desencadeando novas conexões e novos sentidos para o espectador. Refletia alegoricamente o processo de adaptação social a que o ser humano é submetido desde a infância. Fim de partida e Ostal receberam os principais prêmios da crítica. Entre a temporada dos dois espetáculos o Ói Nóis Aqui Traveiz montou Manchas no lençol, que reunia cinco esquetes em teatro de sombras criados na Oficina de experimentação e pesquisa cênica.