Anti-heroína de Pindaíba

Antônio Hohlfeldt (Jornal do Comércio18 de abril de 1997)
Fotos de Adriana Franciosi
Ao completar 19 anos de vida, traída pela Administração Popular que se nega a dar qualquer apoio à  idéia de sua permanência no local em que fez história na cidade, nem por isso a trupe de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz perde sua fleuma e sua força. Aniversário se faz com festa e festa, para um grupo de teatro, é representar. Foi o que fez o Ói Nóis..., estreando seu novo espetáculo de teatro de rua, A Heroína de Pindaíba.
   Trata-se da adaptação de uma peça de Augusto Boal, dos tempos do seu exílio na Argentina (1975), originalmente intitulada O homem que era uma fábrica. O texto original era uma fábula e, apesar ou justamente por causa das adaptações sofridas, mais fábula e mais farsa ficou ainda o espetáculo que conta a história de Matilda Silva da Silva (o povo brasileiro) que sonha emigrar para os Estados Unidos, deixando Pindaíba (Brasil). Para tanto, e após passar por um sem-número de exigências…

Um Cavalo Louco no Sul do Brasil


O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.
Fernando Pessoa

Propósitos devastadores

A aventura da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz começou a ser gestada no final de 1977 com o encontro de jovens artistas descontentes com o teatro que se fazia em Porto Alegre e no país. O ano tinha sido marcado por uma grande ebulição social com a volta das grandes manifestações de rua exigindo liberdades democráticas e anistia aos presos e exilados políticos. Viviam-se ainda os anos de intolerância e repressão policial da ditadura civil-militar que se instalara no Brasil em abril de 1964. O núcleo que deu origem ao Ói Nóis Aqui Traveiz queria um teatro comprometido com o momento político vivido no país. O grupo nascia com a ideia de um teatro concebido fora dos padrões convencionais. Estruturado como um coletivo autônomo, desejava viver e expressar suas ideias por meio do teatro. Influenciado pelos movimentos de vanguarda e principalmente pelo teatro revolucionário que acontecia em diferentes partes do mundo, o Ói Nóis Aqui Traveiz começou a desenvolver a sua expressão cênica a partir da criação coletiva, do contato direto entre atores e espectadores e do uso do corpo em oposição ao primado da palavra. O nome em grafia propositadamente iletrada era um aviso de que o grupo se propunha a tomar atitudes inusitadas e contestadoras. Esse teatro de ruptura e invenção precisava de outro espaço que não fosse as salas convencionais de espetáculos com o seu palco italiano e sua plateia fixa. O grupo, para por em prática o seu pensamento, alugou um espaço que transformou no Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz, na rua Ramiro Barcelos. A sua primeira encenação era constituída por duas peças curtas, A divina proporção e A felicidade não esperneia patati patatá, escritas por um dos integrantes do grupo, Júlio Zanotta. Ambas abordavam o processo de desumanização que o homem sofre pela violência da sociedade consumista. A primeira focalizava o problema habitacional e a especulação imobiliária, enquanto a segunda apresentava a medicina, descaracterizada, como um produto de mercado. A linguagem dos textos se aproximava do teatro pânico e do surrealismo, abrindo espaço para a criatividade dos atores. O grupo lançou o manifesto Teatro com pedra nas veias e estreou o seu primeiro espetáculo no dia 31 de março de 1978, data que os militares festejavam a sua “revolução redentora”. A encenação levantou muita polêmica e foi classificada pela crítica como um espetáculo de força e convicção. 
Surgia um grupo radicalmente diferente das noções teatrais dos grupos de resistência política já existentes no país. Além da contestação direta ao poder estabelecido, o teatro do Ói Nóis Aqui Traveiz levantava uma crítica contundente contra o teatro de esquerda, ao dizer que eles estavam realizando um teatro de cunho ideológico anti-burguês, porém dentro dos marcos formais do realismo burguês. Com um mês de atividades o Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz foi interditado pela Secretaria de Segurança. Aí começou uma longa campanha pela sua reabertura. O fechamento agravou a situação econômica do grupo e levou à saída de alguns dos seus integrantes. Para vencer a crise o grupo buscou outros espaços para encenar o seu espetáculo. Também foi o momento em que o grupo começou a compartilhar as suas experiências por meio de uma oficina de teatro. E foi principalmente com os jovens desta oficina que criou a montagem de A bicicleta do condenado, do espanhol Fernando Arrabal, um preTexto para a reVolta do Ói Nóis Aqui Traveiz. Durante o processo de criação integrantes do grupo foram presos em manifestações contra a ditadura. Essa experiência de repressão e violência foi canalizada para a cena. A reabertura do teatro trouxe para a encenação uma história de opressão e horror, onde duas pessoas tentam sobreviver em um lugar comandado por uma ordem militar. Se no primeiro espetáculo o público ficava separado dos atores por uma cerca de arame farpado, agora os espectadores estavam completamente integrados ao espaço cênico. As cenas aconteciam por todo o espaço, não existindo um foco central. O espectador perdia sua passividade de testemunha em segurança do seu assento fixo. A ação da peça podia desenvolver-se sobre a sua cabeça, ao seu lado, muito próximo ou além de sua vista para obrigar-lhe a uma mudança. Os espectadores poderiam assim organizar, ainda que ao acaso, a composição do seu espetáculo, mais ou menos livremente. Estávamos diante de um novo tipo de encenação, no sentido de que o espetáculo nunca seria o mesmo, nem para os diversos espectadores de uma mesma sessão, nem para o mesmo espectador, de uma sessão para outra. Um teatro de choque como Porto Alegre nunca presenciara.



Em 1979 o grupo, ainda no seu teatro, encenou duas montagens que causaram escândalo e repercussão: Ensaio selvagem e O rei já era parará tim bum bum. O colonialismo cultural e a mostra do processo da criação de uma superstar a serviço do imperialismo era o foco de Ensaio selvagem, do mineiro José Vicente. Aprofundava uma linguagem que buscava uma palavra de impacto integrada ao movimento corporal, afastando-se do psicologismo do naturalismo. O ator reelaborava a personagem expressando-a como uma projeção de sua própria personalidade, com total despojamento e total doação. Num determinado momento do espetáculo havia uma celebração entre atores e público através do toque, das carícias e de entoar uma canção envolvente, que lembrava um mantra. A encenação partia da ideia que o teatro convencional estava morto e que a única possibilidade de vida estava no contato físico com o público, na comunhão dos corpos. O espetáculo se apresentou em Curitiba tendo uma boa repercussão de público e crítica. Entre as duas montagens, o Ói Nóis Aqui Traveiz em colaboração com o artista plástico Carlos Wladiminski criou, com ousadia e experimentalismo, a performance O sentido do corpo. A performance integrava diferentes linguagens: teatro, dança, cinema, artes plásticas. Os atores atuavam totalmente nus. Era uma experiência de limites, na qual o universo interior dos atores expressava-se em uma linguagem pessoal, através de impulsos resultantes da sua própria subjetividade. A forma encontrada para escapar da censura foi apresentar O sentido do corpo como uma composição plástica. Já O rei já era parará tim bum bum, criação coletiva inspirada no grupo chileno Aleph, nascia do desejo do grupo em atuar em espaços públicos. As primeiras apresentações aconteceram nos campi universitários em áreas abertas. Estudantes que promoveram a peça na Pontifícia Universidade Católica foram expulsos. O autoritarismo e a repressão não permitiram que naquele momento o espetáculo fosse encenado em praça pública. E a peça teve que fazer temporada dentro do teatro.




Além das montagens de impacto, o grupo participou ativamente das manifestações políticas, como o movimento pela Anistia, a greve dos bancários e da construção civil e o protesto contra o aumento das passagens municipais. Na retrospectiva da década, a crítica citou o grupo como o fato mais importante do teatro gaúcho nos últimos anos. Em janeiro do ano de 1980 o Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz fechou por falta de viabilidade econômica. O grupo se desdobrou e se renovou, entrou e saiu gente e resistiu. Começou uma nova fase: os integrantes foram viver em comunidade e fazer laboratório teatral na Casa para aventuras criativas, novo espaço alugado também na rua Ramiro Barcelos. Fundamentado nos princípios de solidariedade, autogestão e anarquismo, a Casa foi um reduto de ideias libertárias. No primeiro semestre aconteceu lá a criação de O amargo santo da purificação, que trazia para a cena a história recente da resistência armada contra a ditadura e foi censurada. No segundo semestre foi criada Ananke, a luta pela vida – uma experiência radical de participação direta do público no espetáculo – com referências de Marcuse sobre a dominação ideológica de instituições como a família e a escola. Criar o novo homem é a necessidade do teatro e é em busca desta ideia que o Ói Nóis Aqui Traveiz adotou o termo Tribo de Atuadores, que sugere uma nova sociedade, baseada na vivência em comunidade e na valorização das relações diretas e da responsabilidade individual. Foi na Casa que a Tribo se dedicou à publicação de textos literários que foram vendidos em circuitos alternativos: bares, cinemas, teatros e universidade. E foi também na Casa que começou a nascer o teatro de rua do Ói Nóis Aqui Traveiz, com a preparação das primeiras intervenções cênicas em manifestações ecológicas e pacifistas. Em junho de 1981 um cortejo cênico dos atuadores abriu uma grande manifestação que reuniu mais de mil pessoas no centro de Porto Alegre. Através da alegoria, utilizando bonecos e máscaras, a Tribo denunciava o uso indiscriminado da energia nuclear e a poluição do rio que abastece a cidade. A repressão policial se fez presente, interrompendo essa primeira manifestação teatral nas ruas da cidade. E assim foi com as próximas intervenções cênicas do Ói Nóis Aqui Traveiz. Em agosto do mesmo ano, no aniversário da bomba de Hiroshima, a Tribo, junto com várias entidades ecológicas, manifestou-se contra as pesquisas do governo militar para criar a bomba atômica brasileira. Dessa vez a violência foi geral, a polícia militar agrediu os manifestantes e destruiu a golpes de cassetetes a enorme bomba de papelão que abria o cortejo. Em maio de 1982 a cena se repetiu com a manifestação pela Paz nas Malvinas. Os bonecos gigantes da Rainha da Inglaterra e do General Ditador da Argentina foram completamente destruídos pela truculência policial. A partir desses acontecimentos a Tribo não saiu mais da rua. O interesse do Ói Nóis Aqui Traveiz voltou-se exclusivamente para as interferências cênicas no cotidiano. Antimilitarismo, denúncia de agrotóxico, luta contra o racismo, defesa dos povos indígenas; em todos os momentos de mobilização política, em atos de repúdio à injustiça social e à violência institucionalizada, a Tribo estava presente, em defesa terna e intransigente de uma humanidade criativa e solidária.