DUAS CARTAS PARA MEYERHOLD

  Carta de Henrique Saidel   Fotos de Eugênio Barboza, Lucas Gheller e Pedro Isaias Lucas Porto Alegre, inverno de 2020 Querido Meyerhold, Escrevo esta carta como quem escreve algo de muito importante, como quem escreve algo que lhe causa um tanto de medo e hesitação, como alguém que deseja escrever coisas bonitas, coisas inesquecíveis, inteligentes, coisas revolucionárias, coisas que estejam à altura da tua arte, do teu teatro, da tua vida. Escrevo esta carta depois de ter escrito “Querido Meyerhold”, ali no topo da página, há vários dias e depois de ter ficado vários dias sem escrever mais nada, apenas olhando a página em branco e pensando em todas as coisas bonitas, inesquecíveis, inteligentes e revolucionárias que eu poderia dizer para você e a teu respeito. Escrevo esta carta mais de um ano depois de ter visto (duas vezes) a peça que o Ói Nóis Aqui Traveiz fez com você no título e como personagem, e mais de dezenove ou vinte anos depois de te ler pela primeira v

Aos que Vieram (e virão) Depois Deles



Por Fábio Prikladnicki (Zero Hora, 8 de outubro de 2011)

Há um momento em que se repete em algumas encenações do Ói Nóis Aqui Traveiz. O mais recente espetáculo, Viúvas Performance Sobre a Ausência, é a festa no povoado.
Em Aos que Virão Depois de Nós – Kassandra em process (2002), é a cena da gruta. São trechos que suspendem a ação dramática, substituindo-a pela lógica atemporal do Sonho, em um ritual compartilhado pelos “atuadores” com os espectadores. Longe de qualquer ideia estereotipada de interação, as personagens oferecem ao público uma verdadeira experiência, às vezes com bebida, comida ou aromas, em um gesto que tem algo de telúrico, como uma volta a um estado ancestral de comunhão com a natureza. Estado que a certa altura, é interrompido pelos vilões da história, invadindo brutalmente o ritual e remetendo a dura realidade da vida em vigília, aquela em que os comandantes oprimem cidadãos, povos lutam contra outros e pessoas morrem em nome de seus ideais.

Foto Claudio Etges
Que o Ói Nóis Aqui Traveiz é esse que, aos 33 anos parece próximo de conquistar sua sede definitiva, justamente no bairro – Cidade Baixa – onde tudo começou?
Muita coisa mudou desde 1978 para cá. foram-se os tempos de ânimos acirrados, que a tribo de atuadores enfrentou por meio de um teatro ativista, sem hesitar em provocar o público. Ostal (1987), estreado na ressaca da ditadura militar, era encenado no cenário claustrofóbico de um quarto, sob cheiro de éter, ao qual se assistia com máscaras cirúrgicas.
Sim, os tempos são outros. Hoje, o teatro resiste como uma linguagem que,diferentemente da música ou do cinema, não pode ser baixada da internet. E o Ói Nóis? Aprimoraram sua estratégia de sensibilização do público, tanto do ponto de vista estético quanto político (esses dois elementos nunca estão separados).
Sabem que é preciso conduzir o público pela mão, no sentido mais literal do termo. O Ói Nóis não está menos ousado: está maduro como nunca. Na mundo que alegam – com certa razão – que a história não deve ser vista de um ponto de vista maniqueísta, o grupo nos lembra que há momentos em que é preciso, sim, escolher lados. O lado dos que defendem a abertura dos arquivos da ditadura brasileira, por exemplo, Como disse Paulo Flores a Zero Hora em Janeiro, por ocasião da estreia de Viúvas – Performance sobre a ausência.


Entre as diversas causas do Ói Nóis que ainda não envelheceram, uma das mais significantes, talvez seja a do teatro, que também é uma causa política. do teatro mesmo: dos cenários exuberantes, das atuações competentes, dos figurinos cuidadosos, dos textos pertinentes. Eles sabem que, se não houver uma encenação de excelência, não há utopia que resista.