ESTÍMULO CEREBRAL

Dirceu Alves Jr. (Veja SP, 4 de dezembro de 2019)      Foto de Pedro Isaías Lucas   A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é o principal coletivo da cena de Porto Alegre. Fundado há 21 anos, o grupo se firmou graças a uma estética provocadora e um permanente diálogo crítico junto ao público em montagens de rua ou desenvolvidas em salas fechadas. Cartaz do Teatro do Sesc Bom Retiro, Meierhold, adaptação da peça do dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky, concentra toda a sua força na reflexão de ideias em uma encenação com raros momentos surpreendentes. Paulo Flores interpreta o ator, diretor e teórico russo Vsevolod Emilevich Meierhold (1874-1940), preso, torturado e fuzilado pela ditadura stalinista por ter sua obra considerada como inadequada. O próprio personagem, tal como um fantasma, reconstitui seu passado e se mune de convicção para ressaltar o firme caráter e a necessidade de liberdade. Em algumas passagens, assume, inclusive, um saudável didatismo. A estrutura de monólogo, b

SANTO/AMARGO


Foto: Claudio Etges


Quase todo mundo conhece a expressão de Marx: “é preciso mudar o mundo e não interpretá-lo”. Hélio Oiticica vislumbrou uma outra direção: “é preciso que o mundo seja mundo do homem e não mundo do mundo”. A encenação de O Amargo Santo da Purificação, novo trabalho de rua criado pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre, segue essa mesma vereda, trazendo à agenda um tema – a transformação do mundo – e uma personagem – Carlos Marighella – bem pouco convencionais.
A realização, estreada em setembro de 2008, insere-se nas manifestações que recordam os quarenta anos de morte do líder revolucionário brasileiro. Dado o contexto, teríamos todos os elementos para mais uma peça de agitação dos oprimidos, mais um exercício para a retórica coletivista, mais uma encenação épica erigida sobre chavões.
Não é o que ocorre. A primeira grande aventura do Ói Nóis foi a de privilegiar os poemas escritos pelo revolucionário e não seus discursos ou textos de militância. O material dramático de base, portanto, é de natureza lírica e, embora refira aqui e ali fatos ou acontecimentos vividos por Marighella, sua matriz está fundada nos sentimentos, nas emoções, nas aspirações que animavam essa personagem. Essa opção ensejou a encenação enveredar pela alegoria como modo expressivo preferencial, recusando o verossímil, o documental ou o verismo.
Alegoria quer dizer falar outro, ou falar de outra maneira, datando sua primeira aparição no terreno artístico nos tratados retóricos latinos. Existem duas formas de alegoria: aquela empregada para a construção da linguagem (escrita, visual, sonora, cênica etc) e aquela empregada para a decifração das linguagens (notadamente textual e visual), tornando-a, portanto, quer um instrumento de construção quer um de interpretação.

 
Foto: Pedro Isaias Lucas
 Espetáculo de rua, O Amargo Santo buscou no rico imaginário popular brasileiro suas matrizes expressivas, ali selecionando fossem ritmos e passos fossem cores e formas, para bordar um espetáculo quase que inteiramente coreografado, submetido à dinâmica da alegria, da espontaneidade, da contagiante vibração que exala, mas coeso, marcado, submetido a limites bem definidos.
Glauber neoconcreto
Quem ousaria unir Marighella e Xangô? Glauber Rocha, por certo, ou o Ói Nóis; uma vez que a leitura de mundo de ambos parte de um assemelhado impulso neoconcreto: encontrar no corpo a verdade do mundo e das coisas. Tal simetria surge em cena: ao ser preso na Bahia, ainda um jovem militante do PCB, a personagem recupera a antológica cena da morte de Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Noutra passagem, ao romper com o partido e iniciar a luta armada, o faz sob a inspiração de Xangô, a entidade que entra em cena para lhe entregar seu machado, recuperação de cena assemelhada filmada por Glauber em O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. A interpretação alegórica aqui possível é aquela de Hélio Oiticica: é preciso que o mundo seja do homem.
Essas são algumas das cenas que estruturam a montagem, suficientes para filiá-la à linhagem tropicalista que a ajudou conformar-se. Outro momento de forte impacto abre a realização, quando do encontro de dois cortejos, um negro e africano e outro branco e italiano, os troncos materno e paterno de Marighella, um mulato de nome italiano e com forte atração pela cultura indígena. Temos aqui, literalmente, o espetáculo das raças que conformou o Brasil.


Foto: Pedro Isaias Lucas

Metáfora de impacto é a cena que anuncia o golpe militar de 1º de abril de 1964. Um carro alegórico adentra o espaço cênico ladeado por um batalhão de policiais usando máscaras de gorilas, marchando em cadência e tudo arrastando ao redor. Máquina de guerra, o carro recupera não apenas a carnavalesca alegoria em seu sentido literal como, com muito apuro, materializa o choque existencial daquele episódio histórico.
Sem apelar para clichês, soluções convencionais ou supostos cânones de singeleza do teatro de rua, a nova encenação do Ói Nóis Aqui Traveiz subverte, simultaneamente, vários códigos estabelecidos, ratificando sua postura experimental, seu desembaraço em lidar com proposições pouco ortodoxas.
Última ironia, nesse espetáculo coalhado delas: seu subtítulo é “uma visão alegórica e barroca da vida, paixão e morte do revolucionário Carlos Marighella”, reenviando para a crença mística sua metafísica trágica.

Edélcio Mostaço (Professor universitário na UDESC, crítico e ensaísta)



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Próxima quarta (01/07), sai o 4° encontro da Jornada com Ói Nóis Aqui Traveiz - Poéticas de Ousadia e Ruptura". "Música de Cena ou Por Onde Vai a Trilha?" . Uma conversa com o músico Johann Alex de Souza, parceiro de longa data do Ói Nóis Aqui Traveiz na composição da trilha sonora para os seus espetáculos. É quarta, às 19H no canal do YouTube.

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