DUAS CARTAS PARA MEYERHOLD

  Carta de Henrique Saidel   Fotos de Eugênio Barboza, Lucas Gheller e Pedro Isaias Lucas Porto Alegre, inverno de 2020 Querido Meyerhold, Escrevo esta carta como quem escreve algo de muito importante, como quem escreve algo que lhe causa um tanto de medo e hesitação, como alguém que deseja escrever coisas bonitas, coisas inesquecíveis, inteligentes, coisas revolucionárias, coisas que estejam à altura da tua arte, do teu teatro, da tua vida. Escrevo esta carta depois de ter escrito “Querido Meyerhold”, ali no topo da página, há vários dias e depois de ter ficado vários dias sem escrever mais nada, apenas olhando a página em branco e pensando em todas as coisas bonitas, inesquecíveis, inteligentes e revolucionárias que eu poderia dizer para você e a teu respeito. Escrevo esta carta mais de um ano depois de ter visto (duas vezes) a peça que o Ói Nóis Aqui Traveiz fez com você no título e como personagem, e mais de dezenove ou vinte anos depois de te ler pela primeira v

Denúncia atualizada de Heiner Muller

Antônio Holfeldt (Jornal do Comércio, 13 de Agosto de 1999)
Fotos de Claudio Etges

A estreia de Hamlet Máquina, do dramaturgo alemão contemporâneo Heiner Müller, pelo grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, é um acontecimento verdadeiramente ambíguo. A ambiguidade nasce do fato de a montagem desta peça, que consagrou e projetou internacionalmente o dramaturgo da Antiga Alemanha Popular, ser, por certo, uma feliz oportunidade para nosso teatro, mas, por outro lado, comemorando os quinze de localização da Terreira da Tribo, espaço cênico onde o Ói Nóis Aqui Traveiz desenvolve suas pesquisas e interferências na cidade, constitui-se também em seu canto de cisne: ao final de agosto, interrompendo a sua temporada, a Terreira da Tribo fechará suas portas e o Ói Nóis Aqui Traveiz estará na rua, motivado, dentre outras coisas, pela decisão (ambígua) da Prefeitura Municipal de Porto Alegre em se negar a dar qualquer apoio ao grupo.

A ambiguidade é mais significativa, se formos capazes de fazer a correta leitura do texto de Heiner Müller, que tem provocado controvérsias entre a direita e a esquerda, desde sua estreia. Para a direita, era um ataque de Müller, o mais fiel e leal seguidor dos princípios marxistas na dramaturgia do Leste europeu, contra os “crimes” do comunismo soviético. Para a esquerda, era a “traição” de Heiner Müller a seus camaradas, num oportunismo lamentável, na medida em que, no ano de 1977, quando a peça estreou, já se tinham vários e preocupantes sinais quanto à decadência da “cortina de ferro”.

Na verdade, a obra de Müller não  é nem uma nem outra coisa, senão a expressão de um sentimento de frustração e de derrota de quem, acreditando, ao longo de décadas, em determinados valores, via que a maneira pela qual eles haviam se transformado em práxis político-administrativa estava absolutamente equivocada e redundara em fracasso. Incomodava ao homem de esquerda ver que seus companheiros haviam se equivocado. A melhor metáfora deste sentimento, no espetáculo assinado por Paulo Flores (e que é mérito do diretor; já que não se encontra explicitado no texto) é uma das cenas finais, quando, nos vídeos de televisão, aparece a figura de Stálin, morto, e as três atrizes, nuas, desfilam portando cabeças gigantescas de Marx, Lênin e Mao: a ambiguidade da retórica racional esvaziada (das cabeças), com a possibilidade de se “parir” um novo socialismo (nos ventres e vaginas constantemente indicados pelas atrizes em seu estranho balé, partes do corpo feminino produzem o “novo”).

Hamlet Máquina, na versão do Ói Nóis Aqui Traveiz, é uma insólita viagem por um inventário de traições e equívocos constatado por Heiner Müller, mas que pode ser transportado e lido, com triste atualidade, para esta Porto Alegre do quase novo milênio. Sobretudo, se levarmos em conta que será durante uma administração pública que se diz popular e “de esquerda”, que o polêmico e histórico grupo teatral será “despejado” de sua tradicional sede, pelo aumento do aluguel e pela negativa da Prefeitura Municipal em auxiliar o grupo.

Independente desta questão que – espero – possa ter ainda uma solução até o final do mês de agosto, a montagem de Hamlet Máquina é uma aventura cênica, imperdível e, uma vez mais, inesquecível, evidenciando a maturidade e a inventividade do Ói Nóis Aqui Traveiz, sua coragem na desmitificação da realidade e, talvez por isso mesmo, sua impossibilidade de ser apropriado, quer pela direita, que pela falsa esquerda.


A Jornada virtual do Ói Nóis Aqui Traveiz continua!
 
"Arte Pública", o quinto encontro da Jornada com Ói Nóis Aqui Traveiz - Poéticas de Ousadia e Ruptura, marca um grande encontro de Paulo Flores e Amir Haddad, mestres fundadores do Ói Nóis Aqui Traveiz e do Tá Na Rua, respectivamente. Debatendo o conceito de Arte Pública na produção cultural brasileira e na defesa do Teatro de Rua como seu importante pilar. Traçando uma conversa sobre as origens e pulsões criativas desses contemporâneos grupos, suas dificuldades de realizar o trabalho da arte pública e dos desafios destes testes novos tempos.

Assista >>>AQUI<<<

E na sexta tem o Episódio 6 da Web Série "A Pedagogia do Ói Nóis Aqui Traveiz" - Oficina Popular de Teatro do Bairro Restinga. No Youtube e no Instagram.

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