Anti-heroína de Pindaíba

Antônio Hohlfeldt (Jornal do Comércio18 de abril de 1997)
Fotos de Adriana Franciosi
Ao completar 19 anos de vida, traída pela Administração Popular que se nega a dar qualquer apoio à  idéia de sua permanência no local em que fez história na cidade, nem por isso a trupe de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz perde sua fleuma e sua força. Aniversário se faz com festa e festa, para um grupo de teatro, é representar. Foi o que fez o Ói Nóis..., estreando seu novo espetáculo de teatro de rua, A Heroína de Pindaíba.
   Trata-se da adaptação de uma peça de Augusto Boal, dos tempos do seu exílio na Argentina (1975), originalmente intitulada O homem que era uma fábrica. O texto original era uma fábula e, apesar ou justamente por causa das adaptações sofridas, mais fábula e mais farsa ficou ainda o espetáculo que conta a história de Matilda Silva da Silva (o povo brasileiro) que sonha emigrar para os Estados Unidos, deixando Pindaíba (Brasil). Para tanto, e após passar por um sem-número de exigências…

Denúncia atualizada de Heiner Muller

Antônio Holfeldt (Jornal do Comércio, 13 de Agosto de 1999)
Fotos de Claudio Etges

A estreia de Hamlet Máquina, do dramaturgo alemão contemporâneo Heiner Müller, pelo grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, é um acontecimento verdadeiramente ambíguo. A ambiguidade nasce do fato de a montagem desta peça, que consagrou e projetou internacionalmente o dramaturgo da Antiga Alemanha Popular, ser, por certo, uma feliz oportunidade para nosso teatro, mas, por outro lado, comemorando os quinze de localização da Terreira da Tribo, espaço cênico onde o Ói Nóis Aqui Traveiz desenvolve suas pesquisas e interferências na cidade, constitui-se também em seu canto de cisne: ao final de agosto, interrompendo a sua temporada, a Terreira da Tribo fechará suas portas e o Ói Nóis Aqui Traveiz estará na rua, motivado, dentre outras coisas, pela decisão (ambígua) da Prefeitura Municipal de Porto Alegre em se negar a dar qualquer apoio ao grupo.

A ambiguidade é mais significativa, se formos capazes de fazer a correta leitura do texto de Heiner Müller, que tem provocado controvérsias entre a direita e a esquerda, desde sua estreia. Para a direita, era um ataque de Müller, o mais fiel e leal seguidor dos princípios marxistas na dramaturgia do Leste europeu, contra os “crimes” do comunismo soviético. Para a esquerda, era a “traição” de Heiner Müller a seus camaradas, num oportunismo lamentável, na medida em que, no ano de 1977, quando a peça estreou, já se tinham vários e preocupantes sinais quanto à decadência da “cortina de ferro”.

Na verdade, a obra de Müller não  é nem uma nem outra coisa, senão a expressão de um sentimento de frustração e de derrota de quem, acreditando, ao longo de décadas, em determinados valores, via que a maneira pela qual eles haviam se transformado em práxis político-administrativa estava absolutamente equivocada e redundara em fracasso. Incomodava ao homem de esquerda ver que seus companheiros haviam se equivocado. A melhor metáfora deste sentimento, no espetáculo assinado por Paulo Flores (e que é mérito do diretor; já que não se encontra explicitado no texto) é uma das cenas finais, quando, nos vídeos de televisão, aparece a figura de Stálin, morto, e as três atrizes, nuas, desfilam portando cabeças gigantescas de Marx, Lênin e Mao: a ambiguidade da retórica racional esvaziada (das cabeças), com a possibilidade de se “parir” um novo socialismo (nos ventres e vaginas constantemente indicados pelas atrizes em seu estranho balé, partes do corpo feminino produzem o “novo”).

Hamlet Máquina, na versão do Ói Nóis Aqui Traveiz, é uma insólita viagem por um inventário de traições e equívocos constatado por Heiner Müller, mas que pode ser transportado e lido, com triste atualidade, para esta Porto Alegre do quase novo milênio. Sobretudo, se levarmos em conta que será durante uma administração pública que se diz popular e “de esquerda”, que o polêmico e histórico grupo teatral será “despejado” de sua tradicional sede, pelo aumento do aluguel e pela negativa da Prefeitura Municipal em auxiliar o grupo.

Independente desta questão que – espero – possa ter ainda uma solução até o final do mês de agosto, a montagem de Hamlet Máquina é uma aventura cênica, imperdível e, uma vez mais, inesquecível, evidenciando a maturidade e a inventividade do Ói Nóis Aqui Traveiz, sua coragem na desmitificação da realidade e, talvez por isso mesmo, sua impossibilidade de ser apropriado, quer pela direita, que pela falsa esquerda.


A Jornada virtual do Ói Nóis Aqui Traveiz continua!
 
"Arte Pública", o quinto encontro da Jornada com Ói Nóis Aqui Traveiz - Poéticas de Ousadia e Ruptura, marca um grande encontro de Paulo Flores e Amir Haddad, mestres fundadores do Ói Nóis Aqui Traveiz e do Tá Na Rua, respectivamente. Debatendo o conceito de Arte Pública na produção cultural brasileira e na defesa do Teatro de Rua como seu importante pilar. Traçando uma conversa sobre as origens e pulsões criativas desses contemporâneos grupos, suas dificuldades de realizar o trabalho da arte pública e dos desafios destes testes novos tempos.

Assista >>>AQUI<<<

E na sexta tem o Episódio 6 da Web Série "A Pedagogia do Ói Nóis Aqui Traveiz" - Oficina Popular de Teatro do Bairro Restinga. No Youtube e no Instagram.

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