Anti-heroína de Pindaíba

Antônio Hohlfeldt (Jornal do Comércio18 de abril de 1997)
Fotos de Adriana Franciosi
Ao completar 19 anos de vida, traída pela Administração Popular que se nega a dar qualquer apoio à  idéia de sua permanência no local em que fez história na cidade, nem por isso a trupe de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz perde sua fleuma e sua força. Aniversário se faz com festa e festa, para um grupo de teatro, é representar. Foi o que fez o Ói Nóis..., estreando seu novo espetáculo de teatro de rua, A Heroína de Pindaíba.
   Trata-se da adaptação de uma peça de Augusto Boal, dos tempos do seu exílio na Argentina (1975), originalmente intitulada O homem que era uma fábrica. O texto original era uma fábula e, apesar ou justamente por causa das adaptações sofridas, mais fábula e mais farsa ficou ainda o espetáculo que conta a história de Matilda Silva da Silva (o povo brasileiro) que sonha emigrar para os Estados Unidos, deixando Pindaíba (Brasil). Para tanto, e após passar por um sem-número de exigências…

SALTIMBANCOS DE COMBATE


Fernando Peixoto
 (Artigo publicado no jornal Zero Hora, no dia 29 de março de 1997) 



Fascinante é o trabalho de permanente busca de uma linguagem cênica aprofundada no terreno ideológico e artístico desenvolvido desde 1978 pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre. Em espetáculos no múltiplo espaço de sua sala, o caminho tem sido o mergulho na análise da condição humana através de uma linguagem extremamente rica em símbolos e metáforas, ousando a investigação de uma comunicação penetrante com o público como Fim de Partida de Samuel Beckett, em 1986, Ostal (poucos espectadores ao redor de uma cama num pequeno quarto), produção de 1987, e Antígona, Ritos de Paixão e Morte, deslumbrante pesquisa de espaço e linguagem cênica, em 1990. Ou, mais recentemente, uma versão criativa, resultado de uma pesquisa ousada, Missa para Atores e Público sobre a Paixão e o Nascimento do Doutor Fausto, de Acordo com o Espírito de Nosso Tempo, de 1994. Ao mesmo tempo o grupo tem se empenhado num trabalho de rua que assume abertamente a retomada de um teatro político que instiga e provoca a consciência crítica, utilizando personagens em pernas-de-pau ou bonecos gigantescos, o humor e a denúncia à serviço de uma participação corajosa na abertura de uma reflexão democrática e progressista, rara no teatro brasileiro dos dias de hoje. O Ói Nóis  chegou a colocar na rua  um texto como A Exceção e a Regra de Bertolt Brecht, em 1987, e uma adaptação livre da peça Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, intitulada A História do Homem que Lutou sem Conhecer seu Grande Inimigo, produzida em1988, e retomou um texto exemplar do CPC, Deus Ajuda os Bão, de Arnaldo Jabor, trazendo a ação para os assustadores tempos do governo Collor, assim como desenvolveu uma dramaturgia própria e vigorosa em espetáculos de rua como Os Três Caminhos Percorridos por Honório dos Anjos e dos Diabos e Se Não Tem Pào Comam Bolo!, criações coletivas realizadas em 1993. O primeiro  uma versão livre de uma peça de João Siqueira, a saga de um camponês que expulso da sua terra chega à cidade grande e se transforma em líder operário; a segunda, assumindo como referência inicial uma frase da rainha Maria Antonieta, da França, e recorrendo aos fatos históricos para penetrar no cotidiano brasileiro atual, discutindo tanto a fome como a opressão, a corrupção e a violência da classe política, e isto através de saltimbancos e contadores de história que, como afirma o grupo numa nota publicada num programa “de uma forma satírica e divertida cantam para o povo,  nas ruas, o que a sociedade burguesa, procura esconder: a luta de classes”. É também de 1990, o mesmo ano de  Antigona, a criação de um trabalho fascinante pela força poética e pela teatralidade, um espetáculo sem palavras, apenas deslumbrantes movimentos de corpos e máscaras, a Dança da Conquista  que, segundo o grupo, “coloca em cena o maior genocídio da história da humanidade: a conquista da América pela Europa colonialista”. “Genocídio de que somos todos herdeiros, testemunhas e juízes.”E ainda: “Quinhentos anos depois, assistimos a nossa sociedade permitir  que se leve adiante um verdadeiro extermínio em massa da nação Ianomâmi, último foco de presença autêntica, intocada, do índio em terras da América”

 
Começando a produzir no início de 1978, o Ói Nóis foi formado por um grupo de artistas e estudantes de teatro insatisfeitos, segundo eles, com o teatro e com o seu aprendizado. E preocupados com um trabalho que respondesse ao momento social: “Desde o início esteve ligado aos movimentos populares: a busca em sair do circuito habitual do teatro e realizar um teatro mais eficaz, um teatro de combate, presente no dia-a-dia da cidade, levou o grupo a atuar nas ruas”. E assim o Ói Nóis Aqui Traveiz vem participando em manifestações ecológicas e antimilitaristas contra o uso da energia atômica, as intervenções teatrais surgem em portas de fábricas e junto a protestos contra a violência política e econômica que sufoca os trabalhadores ou em atos contra o extermínio indígena e contra a violência aos operários, contra o FMI ou o perigo nuclear. 
Desde 1988, o grupo vem igualmente desenvolvendo projetos como Caminho para um Teatro Popular, criando um circuito regular de apresentações em vilas populares, viajando pelo país, em encontros e festivais, e também o projeto Teatro como Instrumento de Discussão Social, que procura despertar a organização de grupos culturais nas periferias através de oficinas em vilas e bairros longe do Centro. Na sala ou na rua, Beckett e Brecht, o ser humano em sua condição  metafísica trágica ou vítima da luta de classes, a análise poética e crítica do indivíduo ou do coletivo: caminhos e opções aparentemente contraditórios, mas que se completam  num trabalho teatral de criação coletiva que não se detém  diante do já alcançado, que busca penetrar sempre mais fundo em sua inquietação  e perplexidade, transformado em instrumento de reflexão e conscientização social e de combate à colonização e às massificações culturais.


Desde 1984, o Ói Nóis Aqui Traveiz possui e valoriza sua sede de trabalho, seu espaço definido e criativo, um centro de pesquisa cênica e de busca de novas linguagens de comunicação teatral, uma referência expressiva e conhecida em nível nacional: a Terreira da Tribo é sem dúvida um ponto essencial do movimento cultural e artístico de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul, do Brasil. Não é apenas um espaço para apresentação de espetáculos em múltiplas diversidades, mas é igualmente um local  de trabalho em busca de uma narrativa sempre insatisfeita consigo mesma, em permanente estado de avanço e investigação. Todo esse sempre surpreendente trabalho de formação e informação precisa ter continuidade e para isso é essencial que este fascinante espaço seja sempre defendido, preservado e desenvolvido, para que essa instigante Tribo de Atuadores permaneça como um exemplo de coletivo de criação cultural em permanente estado de incontestável e dinâmico vigor criativo, orgulho da ação cultural gaúcha e nacional. 


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