Faca e gesto consequentes

  Antônio Hohlfeldt (Diário do Sul, 22 de dezembro de 1986) Fotos de Isabella Lacerda      Beckett é conhecido por seu niilismo e sua descrença em qualquer valor que ultrapasse a humanidade. Mais do que isso, o grande escritor irlandês desacredita na própria criatura humana, que visualiza como um ser sem caminho e sem lógica, sobrevivendo sem qualquer objetivo na vida, ou, quando os tem, sendo enganado por um falso objetivo (como em “Esperando Godot”, já que o tal Godot, em última análise, jamais virá porque jamais pensou em vir).       No caso de “Fim de Partida”, pode-se dividir a situação dramática em duas abordagens. A mais imediata é exatamente aquela que, em nível de realidade, pode ser desprendida das alusões, nem tão escassas assim, que pontuam todo o texto, talvez um dos primeiros trabalhos literários a abordarem a traumatizante experiência da bomba nuclear dos Estados Unidos em 1945. Pode-se pressupor que há muito aqueles quatro sobrevivem em uma construção quase subterrâ

Anti-heroína de Pindaíba


   Antônio Hohlfeldt (Jornal do Comércio 18 de abril de 1997)

Fotos de Adriana Franciosi

   Ao completar 19 anos de vida, traída pela Administração Popular que se nega a dar qualquer apoio à  idéia de sua permanência no local em que fez história na cidade, nem por isso a trupe de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz perde sua fleuma e sua força. Aniversário se faz com festa e festa, para um grupo de teatro, é representar. Foi o que fez o Ói Nóis..., estreando seu novo espetáculo de teatro de rua, A Heroína de Pindaíba.


   Trata-se da adaptação de uma peça de Augusto Boal, dos tempos do seu exílio na Argentina (1975), originalmente intitulada O homem que era uma fábrica. O texto original era uma fábula e, apesar ou justamente por causa das adaptações sofridas, mais fábula e mais farsa ficou ainda o espetáculo que conta a história de Matilda Silva da Silva (o povo brasileiro) que sonha emigrar para os Estados Unidos, deixando Pindaíba (Brasil). Para tanto, e após passar por um sem-número de exigências e exames norte-americanos, que não escondem terríveis preconceitos, ela se descobre “autora” do mais puro cocô da face da terra, o que deixa encantado os próprios norte-americanos. Passam a usa-la como garota propaganda, numa tentativa de comprar a boa vontade do Tio Sam. É quando Matilda, auxiliada por uma amiga, dona do “jeitinho brasileiro”, muda parcialmente de planos; passa a ganhar algum dinheiro, alugando seu “produto” para outros interessados na imigração, até ser descoberta.

   O tema é farsesco, o tom é  farsesco e farsesca é a perspectiva de todo o espetáculo que diverte e critica a realidade brasileira imediata. É surpreendente que um texto daquela fase de Boal evidencia a sua atualidade: capacidade do dramaturgo ou, infelizmente, falta de evolução do país? Acho que as duas coisas. De qualquer maneira, o fato de ser um espetáculo de rua obriga a alguns cuidados e a algumas técnicas que o Ói Nóis Aqui Traveiz evidenciar dominar a contento hoje em dia, inclusive a intromissão de espectadores do público que, muitas vezes, promovem leituras muito “particulares” do texto.


   Como espetáculo coletivo não há, estritamente falando, nomes a destacar. Mas Tânia Farias, que interpreta Matilda, é sem dúvida uma atriz extremamente versátil, de extraordinária capacidade mimética, de ótima projeção vocal. Da mesma forma, a atriz Rosane Cardoso, que vive sua amiga, e Paulo Flores, que faz uma série de papéis, entre os quais o Embaixador.

   O novo trabalho do Ói Nóis aqui evidencia um bom nível em que se encontra o grupo e, muito especialmente, a sua correta compreensão quanto a uma estética específica para o teatro de rua. É espetáculo imperdível, quando se tiver oportunidade.