ESTÍMULO CEREBRAL

Dirceu Alves Jr. (Veja SP, 4 de dezembro de 2019)      Foto de Pedro Isaías Lucas   A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é o principal coletivo da cena de Porto Alegre. Fundado há 21 anos, o grupo se firmou graças a uma estética provocadora e um permanente diálogo crítico junto ao público em montagens de rua ou desenvolvidas em salas fechadas. Cartaz do Teatro do Sesc Bom Retiro, Meierhold, adaptação da peça do dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky, concentra toda a sua força na reflexão de ideias em uma encenação com raros momentos surpreendentes. Paulo Flores interpreta o ator, diretor e teórico russo Vsevolod Emilevich Meierhold (1874-1940), preso, torturado e fuzilado pela ditadura stalinista por ter sua obra considerada como inadequada. O próprio personagem, tal como um fantasma, reconstitui seu passado e se mune de convicção para ressaltar o firme caráter e a necessidade de liberdade. Em algumas passagens, assume, inclusive, um saudável didatismo. A estrutura de monólogo, b

Anti-heroína de Pindaíba


   Antônio Hohlfeldt (Jornal do Comércio 18 de abril de 1997)

Fotos de Adriana Franciosi

   Ao completar 19 anos de vida, traída pela Administração Popular que se nega a dar qualquer apoio à  idéia de sua permanência no local em que fez história na cidade, nem por isso a trupe de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz perde sua fleuma e sua força. Aniversário se faz com festa e festa, para um grupo de teatro, é representar. Foi o que fez o Ói Nóis..., estreando seu novo espetáculo de teatro de rua, A Heroína de Pindaíba.


   Trata-se da adaptação de uma peça de Augusto Boal, dos tempos do seu exílio na Argentina (1975), originalmente intitulada O homem que era uma fábrica. O texto original era uma fábula e, apesar ou justamente por causa das adaptações sofridas, mais fábula e mais farsa ficou ainda o espetáculo que conta a história de Matilda Silva da Silva (o povo brasileiro) que sonha emigrar para os Estados Unidos, deixando Pindaíba (Brasil). Para tanto, e após passar por um sem-número de exigências e exames norte-americanos, que não escondem terríveis preconceitos, ela se descobre “autora” do mais puro cocô da face da terra, o que deixa encantado os próprios norte-americanos. Passam a usa-la como garota propaganda, numa tentativa de comprar a boa vontade do Tio Sam. É quando Matilda, auxiliada por uma amiga, dona do “jeitinho brasileiro”, muda parcialmente de planos; passa a ganhar algum dinheiro, alugando seu “produto” para outros interessados na imigração, até ser descoberta.

   O tema é farsesco, o tom é  farsesco e farsesca é a perspectiva de todo o espetáculo que diverte e critica a realidade brasileira imediata. É surpreendente que um texto daquela fase de Boal evidencia a sua atualidade: capacidade do dramaturgo ou, infelizmente, falta de evolução do país? Acho que as duas coisas. De qualquer maneira, o fato de ser um espetáculo de rua obriga a alguns cuidados e a algumas técnicas que o Ói Nóis Aqui Traveiz evidenciar dominar a contento hoje em dia, inclusive a intromissão de espectadores do público que, muitas vezes, promovem leituras muito “particulares” do texto.


   Como espetáculo coletivo não há, estritamente falando, nomes a destacar. Mas Tânia Farias, que interpreta Matilda, é sem dúvida uma atriz extremamente versátil, de extraordinária capacidade mimética, de ótima projeção vocal. Da mesma forma, a atriz Rosane Cardoso, que vive sua amiga, e Paulo Flores, que faz uma série de papéis, entre os quais o Embaixador.

   O novo trabalho do Ói Nóis aqui evidencia um bom nível em que se encontra o grupo e, muito especialmente, a sua correta compreensão quanto a uma estética específica para o teatro de rua. É espetáculo imperdível, quando se tiver oportunidade.