DUAS CARTAS PARA MEYERHOLD

  Carta de Henrique Saidel   Fotos de Eugênio Barboza, Lucas Gheller e Pedro Isaias Lucas Porto Alegre, inverno de 2020 Querido Meyerhold, Escrevo esta carta como quem escreve algo de muito importante, como quem escreve algo que lhe causa um tanto de medo e hesitação, como alguém que deseja escrever coisas bonitas, coisas inesquecíveis, inteligentes, coisas revolucionárias, coisas que estejam à altura da tua arte, do teu teatro, da tua vida. Escrevo esta carta depois de ter escrito “Querido Meyerhold”, ali no topo da página, há vários dias e depois de ter ficado vários dias sem escrever mais nada, apenas olhando a página em branco e pensando em todas as coisas bonitas, inesquecíveis, inteligentes e revolucionárias que eu poderia dizer para você e a teu respeito. Escrevo esta carta mais de um ano depois de ter visto (duas vezes) a peça que o Ói Nóis Aqui Traveiz fez com você no título e como personagem, e mais de dezenove ou vinte anos depois de te ler pela primeira v

O FAUSTO BRILHANTE


Rafael Baião*

E ou toda beleza que não é puramente bela e necessariamente belo a menos que seja (in) completo.

- Mas se é espetáculo! Logo é belo (!) (?)

- Logu é belo?

- Logo não era necessário discutir o belo e o logo nem se fala.

- Sem muito belelego vamos ao principal:

Vi o FAUSTO da Terreira, pela primeira vez, numa sexta-feira, eu acho, de 1994, setembro. Transa com beleza, a feiúra, a razão, o sentimento.

Saí me perguntando se entendi ou não, ou se era claro que tinha entendido. Quis ver de novo e vi. Tinha muita gente, uma plateia receptiva e ágil.

 

 Essa montagem do Grupo ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ é denominada missa (quem quiser, comunga). Conta a história de um sábio, Dr. Fausto, que faz um pacto com o Cujo, a fim de saciar sua sede de conhecimento. Salva-se por sua insatisfação! Tudo que Mephisto oferece – dinheiro, paixões, terras, poderes... – lhe é insuficiente. Ele ultrapassa os limites de seu cúmplice. Não se rende, não se vende; arrepende-se, transforma-se. Transmuta. Sim?

Tudo que é informado ao público antes de entrar em cena, é que deve aguardar em frente ao portão do teatro; e que saberá quando o espetáculo tiver começado.

Não se pode precisar onde é o começo: monges de negro passeiam pelas redondezas, organizam-se em procissão – cânticos, estandarte, lampiões – e encontram o público à espera; o portão se abre e o público se incorpora ao cortejo. Mas logo é barrado por um personagem lunático ou lúcido, que salta de entre as folhagens. Adverte: “Não entrem nesta cidade”. Mas todo mundo entra. Depara-se com uma vila medieval: personagens, patos, galinhas, gato e, mais tarde, um cachorro e um bode. Fausto assiste a sua própria história, representada por títeres numa carroça, onde é advertido.

Entrando inicialmente na biblioteca de Fausto – sua fonte de conhecimento, mas também sua prisão ao mundo e sua primeira ruptura – o público vai penetrar num labirinto de labirintos de cenas: túneis, corredores, escadas, sacadas, planos, antiplanos, fonte, igreja, castelo, praia, ambientes fechados e abertos. Penetramos a alma de Fausto. Circula-se duas vezes por um mesmo trajeto, sempre alterado pela riqueza plástica, a multiplicidade de cenas e um sem-número de personagens.

A cada novo espaço, Fausto é levado a novas experiências. E o público – ciceroneado por Mephisto – segue-o, ora se empoleira nos cenários, ora disputa o campo de ação com os atores, podendo dançar, beber... ao espectador é dada, curiosamente, a tríplice possibilidade de ser:

- plateia – assiste a história do Doutor Fausto.

- personagem – é uma extensão do Fausto; está dentro de seu íntimo; em cena.

- duplamente plateia – assiste as reações da própria plateia; assiste a si mesmo.

- (uma quarta: qualquer pessoa que, antes do espetáculo, se depare com um monge pela rua).

Buscando um equilíbrio entre a comunicação intelectual e visual, o espetáculo chega por vezes ao onírico: elementos cênicos ampliando a noção espacial; as diferenças de ritmos e climas; a sonorização vocal e acústica, sempre ao vivo; atores pintados de azul, vermelho, branco e argila (o barro, assim como o fogo, a água e ar estarão sempre presentes).

O espectador experimenta compreensões que caminham pelo racional, pelo visual e até pelo olfativo (a casa de chás das bruxas), pelo tátil (as diferenças texturas cênicas); e pela sensação de “estar” dentro do drama. O que chega via emoção se dá, principalmente, na cena de resolução mais simples. Há grades que separam os dois atores e o público, mas é quando se acham mais próximos – coração a coração. Uma cela dentro da semi-destruída biblioteca. Mephisto adormecera os guardas e vigia. Fausto desce por um alçapão para salvar Margarida, enlouquecida pelos crimes cometidos por amor a ele. O tempo urge. O dia ameaça despertar. Fausto solta as correntes que prendem Margarida, mas não consegue convencê-la a fugir: somente presa mantém esperança de viver; ainda que louca. É a grande perda, o grande pesar de Fausto.

No segundo ciclo, a cada novo avanço, tudo que Fausto conquista não é o que ele quer. Até que por fim – e a cena é conduzida para fora, para o ar livre – morre Fausto, rodeado espontaneamente pelo público. E é enterrado – de verdade! – por duendes, no pátio do teatro. Uma chuva de pétalas expulsa os coveiros (a morte) de Fausto. Então ele é conduzido para o ar, para o alto, para o “eterno feminino”.

E nós, mortais espectadores, ficamos cá embaixo, na Terra , na terra da Terreira, embalados pelo texto final:

“O sol bebe a lua e o infinito bebe o sol”.

O público sai comentando: “isso é arte, de verdade!”, “muito diferente daquilo que se costuma ver em teatro”.

*RAFAEL BAIÃO é Diretor e Ator

(Publicado em A Crítica , 1994)